Crítica: MaXXXine é Brincadeira de Criança

Confesso que Ti West, até o lançamento de X – A Marca da Morte não estava no meu radar. Seus poucos projetos conhecidos antes da pandemia, nunca me chamaram a atenção, e apesar de uma certa repercussão positiva de V/H/S  (uma antologia de 2012 que conta com um curta do diretor), meu primeiro contato com ele foi realmente na primeira parte da trilogia estrelada por Mia Goth, o que considero positivo para fazer uma análise do que é claramente a realização de um sonho, um projeto autoral feito com todo esmero pelo seu realizador com todos os sucessos e revézes que um projeto autoral pode ter.

Essa trilogia representa a conquista de um realizador, que conseguiu colocar em tela todos os seus desejos e referências ao mesmo tempo que elevou o patamar de sua franquia através de cada lançamento.

MaXXXine é a continuação direta do primeiro filme. Seis anos após os acontecimentos na fazenda do Texas, Maxine Minx se consolidou na indústria pornográfica e agora almeja virar uma atriz de Hollywood, a diretora Elizabeth Bender (interpretada por Elizabeth Debicki) decide dar uma chance a ela como coadjuvante na continuação de um filme de terror de sucesso. Em paralelo, um serial killer de prostitutas faz vítimas na cidade de Los Angeles, e uma seita religiosa se opõe a produção de filmes de terror. Em meio a estas três histórias, Maxine tenta resolver seus problemas e focar na sua grande oportunidade na indústria cinematográfica.

Apesar de MaXXXine ser a sequência de X – A Marca da Morte, é com os óculos de Pearl que todo fã da franquia chega para esse filme. A prequel que conta a história de Pearl nos 1910, além de colocar o diretor em outro patamar, também eleva a qualidade do primeiro filme lançado, além de causar o hype que fez com que MaXXXine virasse uma estreia mundial. A sombria paródia de Mágico de Oz trouxe em suas referências, na atuação da protagonista e nos memes a partir da cena final um grande número de fãs.

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É então, inevitável, não comparar e esperar uma produção do nível de Pearl para a finalização da franquia, então logo tiro o elefante da sala e digo que, MaXXXine não alcança a qualidade de seu antecessor. Mas é um bom fechamento de franquia.

Logo no começo da projeção se nota a qualidade cinematográfica da obra e que estamos prestes a ver mais uma atuação icônica da protagonista. A primeira sequência é um dos pontos altos do filme e para a atriz principal. Porém, durante toda a projeção temos várias outras sequências que demonstram a qualidade que Ti West e sua equipe conseguem realizar.

Aqui ressalto, em especial, a sequência que somos lembrados dos traumas vividos por Maxine. Embaixo de um molde de Latex, onde a personagem precisa relaxar por alguns minutos, ela encara seus medos e suas lembranças que, além de fazer o espectador relembrar situações do primeiro filme para que seja mais fácil acompanhar a projeção, demonstram a qualidade de West em trazer um clima estranho e soturno para o seu terror com poucos recursos.

Inclusive, esta que é a melhor qualidade da película é também o que ressalta o que ela tem de ruim: impressionante ver a facilidade com que o espectador é colocado e tirado do clima de tensão e estranheza das boas sequências ao longo do filme, pois o roteiro escolhe intercalar os segmentos já elogiados com alguns diálogos a la Marvel. Expositivos demais, engraçadinhos demais, palatáveis demais.

Fica claro em algum momento da projeção a preocupação do autor de atingir um público mais amplo, assim como fica claro uma preocupação de tentar retirar o preconceito da academia hollywoodiana em relação a filmes de terror. Transformando MaXXXine, de certa maneira, num oscar bait

Por um lado, seria incrível ver uma obra de terror ser indicada para as principais categorias do cinema estadunidense (em especial, é claro, a indicação de Mia Goth para Atriz Principal). Já por outro, talvez o filme fique num meio termo onde nem agrade os fãs de terror, nem os fãs de dramas mais sóbrios.

Aqui, West também insite em uma certa leveza com uma pincelada de thriller policial que sempre se aprensenta de modo fanfarrão e de alívio cômico, sendo de certa forma um terceiro jeito de se envolver com a história.

Bobby Cannavale é tão falastrão aqui que vira uma das piadas autoconscientes do filme.

Outro pequeno incômodo da obra, é o quanto ela tenta ser legal o tempo todo. Ao referenciar filmes explotaitions, o realizador cria aqui o que eu chamo a partir de agora de Coolexploitation, tem tanta cena com maneirismos, tiradas espertas e planos exagerados que, se trazem ao começo do longa uma forte característica, chegando ao final da projeção já são momentos cansados e exagerados.

Além disso, outro pequeno problema relacionado ao roteiro são os vários temas que a produção tenta reproduzir. Essa vontade de abraçar tudo que é possível do cinema de gênero dos anos 80 acaba deixando algumas pontas soltas, principalmente em relação à trajetória da protagonista.

Em certo momento, o bem trabalhado trauma do começo do filme é esquecido, as questões do serial killer são deixadas de lado, e até uma posição mais forte em relação a um certo anti-heroísmo de Minx é apenas pincelado para que o filme possa ser encerrado.

Apesar de vários pontos, a obra que finaliza a trilogia de Maxine Minx não deixa de ser uma boa ida ao cinema, e no conjunto total, acredito que seja uma trilogia que ficará imortalizada para um grande número de pessoas (mais pela genialidade de Pearl, porém não sendo tão discrepante assim aos outros dois). Além disso, como comentado em Furiosa: Uma Saga Mad Max é sempre inspirador poder assistir um cinema de autor numa produção grande como esta. Ti West, com seus méritos, conseguiu subir seu patamar na indústria sem perder o seu estilo.

MaXXXine parece um filme feito dentro da cabeça de uma criança brincando na sala de casa, só que essa criança é ninguém mais ninguém menos que Kevin de Precisamos falar Sobre Kevin. E se ele é passível de tantas críticas é porque o realizador fez com que os espectadores levassem ele a sério.

Nota 8/10

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