Malasartes e o Duelo Com a Morte: O Malandro do Bem Volta ao Cinema.

Você pode não saber, mas Pedro Malasartes é um ser cujas aventuras marcam o cinema e a literatura nacional há longa data. Ele foi interpretado pelo imortal Mazzaropi e, como não poderia deixar de ser, é possível ver uma grande dose do humor ingênuo que tanto marcou o caipira.

Historicamente, algumas fontes apontam que a figura de Pedro Malasartes é oriunda da península Ibérica e, provavelmente, chegou até nós por intermédio dos portugueses. Sua índole varia conforme a trama. Em algumas histórias ele é quase um justiceiro que se vale de sua inteligência e astúcia para ludibriar aqueles que se aproveitam dos pobres. Em outras, ele usa sua esperteza para ganhar vantagem sobre todos. Seu nome pode ser a fusão de duas palavras em espanhol: Malas e Artes que se aglutinaram e viraram o já conhecido sobrenome Malasartes. As palavras isoladamente significam Ruim e Artes… ou artes ruins, as famigeradas peças que o caipira prega em muitas pessoas.

E então, do que trata essa nova empreitada para contar as aventuras do malandro do interior?

Basicamente, Malasartes (Jesuíta Barbosa) tem três grandes desafios para sobrepor: o primeiro é fugir da perseguição de Próspero (Milhem Cortaz), irmão da bela Áurea (Isis Valverde) que, aliás, é o segundo desafio, já que ela quer se casar com ele de qualquer maneira. O terceiro desafio fica por conta da Morte (Júlio Andrade) que vê em Malasartes, um sucessor para a árdua e cansativa tarefa de ser o responsável por ceifar a vida de incontáveis humanos.

Neste interim, o malandro enrola Zé Candinho (Augusto Madeira), mas a amizade entre eles é algo inevitável… mesmo ao custo de uma pequena trapaça por parte de Pedro. E, para apimentar mais a história, o auxiliar da Morte, Esculápio (Leandro Hassum) acredita que os planos de seu mestre são para substituí-lo após mais de dois mil anos de bons serviços.

E não para por aí…

Uma das Parcas (uma trindade de mulheres que compõem o destino dos homens) resolve retomar seu direito de acabar com a vida humana, roubado há milênios pela Morte. A Cortadeira (Vera Holtz) fará de tudo para evitar que Malasartes receba a função da Morte, ainda com uma forcinha do engraçado Esculápio.

Em meio a essa verdadeira bagunça, Malasartes visitará o reino da Morte, enrolará muita gente, tentará manter a bela Áurea ao seu lado (sem ser assassinado pelo irmão dela), receberá alguns dons e, sobretudo, divertirá o público com suas aventuras, tal como acontecia em 1960 com o saudoso Mazzaropi.

Malandro ou pilantra?

Um pouco dos dois, eu diria. Ele é aquele malandro com limites, cuja índole lhe permite enrolar um inocente (Zé Candinho), porém não dá margem para a quebra de certos paradigmas morais. Ele age sempre em prol de si mesmo, mas tem um bom coração e isso é evidenciado com o decorrer do longa-metragem.

Pedro Malasartes é a essência da malandragem brasileira misturada ao jeito sempre alegre do homem do interior. Ele jamais poderá ser identificado como alguém ruim, já que essa esperteza é fruto de uma vida muito sofrida, porém jamais desviada para a maldade.

Quando chega a hora de escolher entre fazer o bem ou se dar bem, Malasartes certamente tomará a decisão correta. Isso deixa duas mensagens: a de que é possível corrigir os erros e a outra é a de que nem todos cedem aos apelos do dinheiro ou das vantagens.

A produção por trás de Malasartes…

O longa-metragem é uma obra de incontestáveis atributos técnicos. A trilha sonora está corretíssima, o figurino é perfeito e os efeitos especiais são dignos de filmes como Harry Potter ou a série Stranger Things. A fotografia é outro ponto alto da trama.

Mas é nas interpretações que estão alguns dos destaques de “Malasartes”. Jesuíta está perfeito como o malandro do interior. Isis Valverde me surpreendeu por sua caracterização e interpretação. A Morte recebe um tratamento excelente por parte de Júlio Andrade, caracterizado de forma bem diferente da tradicional que está presente no inconsciente popular e, principalmente, marcado por estereótipos como a caveira com a foice e outros.

Milhem Cortaz dá consistência a Próspero que é um homem bruto e preocupado com a irmã. Já Hassum (Esculápio) serve para reforçar o tom bem humorada da trama, ao lado da sempre competente Vera Holtz e das outras irmãs Parcas.

Zé Candinho é o que mais diverte por conta de sua inocência e bondade. Ele é uma raridade em tempos onde tirar vantagem é a regra, não a exceção.

O filme foi bem divertido, mas não esperem algo igual ao que tivemos com O Auto da Compadecida. Malasartes e o Duelo com a Morte é um filme que oscila entre a aventura, a fantasia e o humor… distribuídos de forma bem agradável.

A direção e o roteiro de Paulo Morelli são a concretização de um sonho que dura 30 anos. Somente agora, com os recursos tecnológicos, as cenas idealizadas por Morelli puderam sair da imaginação para as telas. Acreditem, vocês se surpreenderão com a qualidade desse longa-metragem nacional que já está na História como o filme brasileiro que mais tem efeitos especiais (algo em torno de 40% a 50% das cenas).

Um grande destaque fica por conta da animação que abre o filme. Feito com extremo cuidado, os desenhos são um espetáculo à parte, principalmente com a narração do ator Lima Duarte.

Por fim, neste belo e inacreditável duelo entre a Morte e o esperto Malasartes, posso garantir que quem sairá ganhando será o espectador que, indubitavelmente, verá um dos melhores filmes do gênero nos últimos tempos e, certamente, o mais audacioso filme brasileiro. Estreia HOJE, 10 de agosto. Imperdível!

P.S.: essa audácia foi muito bem recebida pelo público. Parabéns à equipe que criou a obra e nos brindou com uma nova aventura do caipira mais malandro dessas paragens.

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