Living Colour – Bar Opinião
No final dos anos 1980, o surgimento de bandas com uma sonoridade que misturava som pesado, uma pegada com muito groove, funk, rap e hip hop, conquistou as paradas, e devido à necessidade de rótulos, foi chamada de funk metal. Aí nessa miscelânea, distintas bandas como Red Hot Chilli Peppers, Infectious Grooves, Faith No More e Living Colour, entraram nessa classificação. O que tinham em comum era que todos fizeram muito sucesso na virada dos 80 para os 90. O Living Colour, que se formou em 1984, em Nova York, fez a cabeça de Mick Jagger, que se encantou com a banda e foi um dos produtores do renomado disco de estreia, o Vivid (1988) e ainda colocou a banda para abrir a tour dos Stones. O Living ganhou vida própria e lançou grandes álbuns até 1993, quando a banda se rompeu e depois desse hiato retomou fazendo shows pelo mundo afora. E em 2026, o quarteto Vernon Reid, Corey Glover, Will Calhoun e Doug Wimbish estão de passagem pela América do Sul para uma turnê e Porto Alegre foi agraciada com o show deles, na quinta-feira passada, no Bar Opinião, e o NoSet conta nas linhas abaixo como foi esse antológico show.
Para abertura dos shows, mais uma vez a banda estadunidense Madzilla foi recrutada. Conhecida por abrir uns shows pela América do Sul no ano passado, o quarteto fez um competente show de trash metal melódico (mais rótulo por aí), a simpatia do vocalista David Cabezas ajudou a entreter a galera, com ele se comunicando em português, mas o show passou quase despercebido, pois a noite era do Living Colour.


Por volta das 21h15min, com a Marcha Imperial, composição de John Williams para a série de cinema Star Wars ao fundo, o quarteto chega ao palco e sem delongas pegam os instrumentos, Calhoun que quase não é visto atrás da bateria repleta de pratos e tambores. A banda abre o show com três petardos de três álbuns distintos. Leave It Alone, do disco Stain, de 1993, abre o baile, seguido por Middle Man, do álbum de estreia de 1988, e o cover dos Talking Heads Memories Can’t Wait, incluída numa versão ao vivo no EP Biscuits, de 1991. Como nota negativa, as falhas técnicas gritantes, onde a voz de Corey sumia e a guitarra de Vernon, adepto do analógico com seus pedais que ocupam meio palco, também dava uns solavancos e oscilava. Mas resolvendo os problemas, o que vimos foi uma aula de performance musical. A cozinha de Calhoun e Wimbish é uma das melhores do mundo e Corey continua cantando impecavelmente bem. Vernon Reid, por mais que alguns o chamem de guaxinim por tentar usar notas demais sem se preocupar com a execução às vezes, tem uma pegada monstra e sabe usar efeitos como poucos.





O show segue com Ignorance of Bliss, Go Away, Funny Vibe (a única dessa sequencia que não era do disco Stain, de 1993) e a ótima BI. E a banda fez questão de fazer um show de resgate de quando fazia sucesso e lançou álbuns ótimos na fase 1988 até 1993, com um repertório perfeito para os fãs. Depois de Open to Letter (To Landlord), Corey Glover puxa o microfone e faz uma interpretação pessoal, praticamente só com a voz, com pouco acompanhamento, de Hallelujah (cover de Leonard Cohen), mostrando porque é um dos melhores vocalistas do mundo. Com muita influência gospel e soul, ele simplesmente arrepia a plateia e faz parecer que cantar é uma coisa tão fácil… Depois dessa aula vocal, Will Calhoun nos apresenta um solo de bateria incrível. Além de uma pegada poderosa, o cara mostra todo seu talento mostrando que além de baterista é um ritmista e estudioso de percussão e ritmos. Mais um momento pra guardar para sempre. This is The Life, do álbum Time Up, ainda tem uma inserção da música Tomorrow Never Knows, de 2003, antecede o sucesso Pride, com a galera animada cantando junto. Depois é a hora do medley que homenageia o legado de Doug Wimbish na Sugar Hill Records, onde ele comanda a festa e mostra que é um gênio do instrumento, com seus slaps precisos e pegada fantástica em canções como White Lines (Don’t Don’t Do It), Apache e Message.





Na sequência, o sacolejante sucesso Glamour Boys, que fez o povo do Opinião mexer o esqueleto e cantar junto, com destaque a palhetada incrível de Vernon Reid. Vale como nota é que o Bar Opinião estava lotado e por uma fauna bem eclética de fãs, mostrando a força e o respeito que o Living Colour tem de quem gosta de boa música. Segue o show com Love Rears Its Ugly Head, depois emenda com Type. Mas é com Time Up e What Your Favorite Colour que Corey interage mais com a galera. A banda, tirando o Doug Wimbish, que é um show à parte com o baixo pra lá e pra cá, não é muito performática, se limita a emular quase que similarmente os sucessos de uma maneira precisa. Como se dizia antigamente é quase um som de CD de tamanha perfeição. O show encerra com o maior hit da banda, Cult of Personality, com direito a no fim a galera gritar “Ole ole ole, Living Colour”. Mas a banda estava de volta para bis e encerram com Solace of You, em mais um show de Corey nos vocais, que estava há mais de duas horas cantando sem perder a qualidade e fecham com um cover do The Clash, com o clássico Should I Stay Should I Go, terminando com peso e alegria um show memorável para um Opinião em êxtase.




Living Colour, com mais de 40 anos de carreira (com algumas paradas), ainda está em forma com uma formação fantástica e apresentou para os fãs um show recheado de sucessos, só filés do melhores dos seus primeiros discos. Uma verdadeira aula de boa música e execução ao vivo em um show empolgante, que mesmo sendo apenas fevereiro pode entrar (e deve ficar) como um dos melhores shows em Porto Alegre de 2026.