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MÚSICA

Living Colour – Bar Opinião

Living Colour – Bar Opinião
  • Publishedmarço 2, 2026

No final dos anos 1980, o surgimento de bandas com uma sonoridade que misturava som pesado, uma pegada com muito groove, funk, rap e hip hop, conquistou as paradas, e devido à necessidade de rótulos, foi chamada de funk metal. Aí nessa miscelânea, distintas bandas como Red Hot Chilli Peppers, Infectious Grooves, Faith No More e Living Colour, entraram nessa classificação. O que tinham em comum era que todos fizeram muito sucesso na virada dos 80 para os 90. O Living Colour, que se formou em 1984, em Nova York, fez a cabeça de Mick Jagger, que se encantou com a banda e foi um dos produtores do renomado disco de estreia, o Vivid (1988) e ainda colocou a banda para abrir a tour dos Stones. O Living ganhou vida própria e lançou grandes álbuns até 1993, quando a banda se rompeu e depois desse hiato retomou fazendo shows pelo mundo afora. E em 2026, o quarteto Vernon Reid, Corey Glover, Will Calhoun e Doug Wimbish estão de passagem pela América do Sul para uma turnê e Porto Alegre foi agraciada com o show deles, na quinta-feira passada, no Bar Opinião, e o NoSet conta nas linhas abaixo como foi esse antológico show.

Para abertura dos shows, mais uma vez a banda estadunidense Madzilla foi recrutada. Conhecida por abrir uns shows pela América do Sul no ano passado, o quarteto fez um competente show de trash metal melódico (mais rótulo por aí), a simpatia do vocalista David Cabezas ajudou a entreter a galera, com ele se comunicando em português, mas o show passou quase despercebido, pois a noite era do Living Colour.

Por volta das 21h15min, com a Marcha Imperial, composição de John Williams para a série de cinema Star Wars ao fundo, o quarteto chega ao palco e sem delongas pegam os instrumentos, Calhoun que quase não é visto atrás da bateria repleta de pratos e tambores. A banda abre o show com três petardos de três álbuns distintos. Leave It Alone, do disco Stain, de 1993, abre o baile, seguido por Middle Man, do álbum de estreia de 1988, e o cover dos Talking Heads Memories Can’t Wait, incluída numa versão ao vivo no EP Biscuits, de 1991. Como nota negativa, as falhas técnicas gritantes, onde a voz de Corey sumia e a guitarra de Vernon, adepto do analógico com seus pedais que ocupam meio palco, também dava uns solavancos e oscilava. Mas resolvendo os problemas, o que vimos foi uma aula de performance musical. A cozinha de Calhoun e Wimbish é uma das melhores do mundo e Corey continua cantando impecavelmente bem. Vernon Reid, por mais que alguns o chamem de guaxinim por tentar usar notas demais sem se preocupar com a execução às vezes, tem uma pegada monstra e sabe usar efeitos como poucos.

O show segue com Ignorance of Bliss, Go Away, Funny Vibe (a única dessa sequencia que não era do disco Stain, de 1993) e a ótima BI. E a banda fez questão de fazer um show de resgate de quando fazia sucesso e lançou álbuns ótimos na fase 1988 até 1993, com um repertório perfeito para os fãs. Depois de Open to Letter (To Landlord), Corey Glover puxa o microfone e faz uma interpretação pessoal, praticamente só com a voz, com pouco acompanhamento, de Hallelujah (cover de Leonard Cohen), mostrando porque é um dos melhores vocalistas do mundo. Com muita influência gospel e soul, ele simplesmente arrepia a plateia e faz parecer que cantar é uma coisa tão fácil… Depois dessa aula vocal, Will Calhoun nos apresenta um solo de bateria incrível. Além de uma pegada poderosa, o cara mostra todo seu talento mostrando que além de baterista é um ritmista e estudioso de percussão e ritmos. Mais um momento pra guardar para sempre. This is The Life, do álbum Time Up, ainda tem uma inserção da música Tomorrow Never Knows, de 2003, antecede o sucesso Pride, com a galera animada cantando junto. Depois é a hora do medley que homenageia o legado de Doug Wimbish na Sugar Hill Records, onde ele comanda a festa e mostra que é um gênio do instrumento, com seus slaps precisos e pegada fantástica em canções como White Lines (Don’t Don’t Do It), Apache e Message.

Na sequência, o sacolejante sucesso Glamour Boys, que fez o povo do Opinião mexer o esqueleto e cantar junto, com destaque a palhetada incrível de Vernon Reid. Vale como nota é que o Bar Opinião estava lotado e por uma fauna bem eclética de fãs, mostrando a força e o respeito que o Living Colour tem de quem gosta de boa música. Segue o show com Love Rears Its Ugly Head, depois emenda com Type. Mas é com Time Up e What Your Favorite Colour que Corey interage mais com a galera. A banda, tirando o Doug Wimbish, que é um show à parte com o baixo pra lá e pra cá, não é muito performática, se limita a emular quase que similarmente os sucessos de uma maneira precisa. Como se dizia antigamente é quase um som de CD de tamanha perfeição. O show encerra com o maior hit da banda, Cult of Personality, com direito a no fim a galera gritar “Ole ole ole, Living Colour”. Mas a banda estava de volta para bis e encerram com Solace of You, em mais um show de Corey nos vocais, que estava há mais de duas horas cantando sem perder a qualidade e fecham com um cover do The Clash, com o clássico Should I Stay Should I Go, terminando com peso e alegria um show memorável para um Opinião em êxtase.

Living Colour, com mais de 40 anos de carreira (com algumas paradas), ainda está em forma com uma formação fantástica e apresentou para os fãs um show recheado de sucessos, só filés do melhores dos seus primeiros discos. Uma verdadeira aula de boa música e execução ao vivo em um show empolgante, que mesmo sendo apenas fevereiro pode entrar (e deve ficar) como um dos melhores shows em Porto Alegre de 2026.

Written By
Lauro Roth