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MÚSICA

Jorge Aragão – Vamos Festejar no Araújo Vianna

Jorge Aragão – Vamos Festejar no Araújo Vianna
  • Publisheddezembro 23, 2025

“Podemos sorrir, nada mais nos impede!” Essa foi a tônica do público sábado passado no Araújo Vianna. Pudera, além do clima de final de ano e encerramento de ciclo, quem estava no palco era Jorge Aragão. Lenda do samba nacional e um dos maiores compositores do Brasil, era só sorriso, pois recentemente venceu uma batalha contra o câncer, e como ele mesmo apregoou no show, o vovô voltou! E show do Jorge Aragão, além da sua indefectível voz grave e elegância de sempre, é sempre uma celebração repleta de hits e sucessos na boca do povo, e abaixo aqui, conto como foi essa festança sonora, regada com sambas inesquecíveis.

No último show do ano no Araújo Vianna, um sábado de tempo maravilhoso e um calor escaldante, 4 mil pessoas praticamente lotaram o recinto, nessa que pode ser a última chance de ver o mestre sambista com mais de 50 anos de carreira. E ao contrário de outros públicos, era gente da gente, fã mesmo ou como diz a própria canção do Jorge, Coisa de Pele, ali era o povo que iria produzir o show e assumir a direção mesmo.

Com pouco atraso e uma breve apresentação, a banda começa o show arrepiando a plateia com o instrumental de Ave Maria. Muitas vezes o mestre, que acompanhava no banjo, a executava, mas essa ele ficou nos bastidores, talvez em forma de agradecimento a sua fé na oportunidade de estar nos palcos firme e forte. Ele entra em cena, desta vez com direito a imagem de um punho estendido no telão com a canção Identidade, para delírio da galera. Se meio Araújo ja estava de pé, com Eu e Você Sempre não tinha mais ninguém sentando e emendado com Lucidez era difícil ouvir a voz gostosa do Jorge de tanta gente cantando junto numa comoção linda de ver. Como falo, tem uns cantores que fogem do microfone por falta de voz, Jorge é obrigado a fugir dele por não ouvir, de tão alto o coro na plateia.

O balaio de sucessos segue com Amor Estou Sofrendo e na lindíssima Novos Tempos, mais uma vez a sua voz some de tanta gente cantando junto. Jorge já tinha anunciado que era a noite de cantar seus sambas velhos, uma noite de celebrar a obra vasta do autor com samba de verdade. E ainda brinca com a Marrom Alcione, quando ele senta para cantar algumas canções, dizendo que se ela que tem a mesma idade canta sentada, por que ele não pode também? Aí manda uns sambas mais românticos como Doce Amizade, Reflexão e findando a sequência com o lindíssimo Enredo do Meu Samba, parceria sua com Dona Ivone Lara. Aumenta o embalo como clássico Já É, seguido por mais uma que emociona o povo, Cabelo Pixaim, entra no rol das modernidades com Tape Deck, e com uma imagem do Fundo de Quintal de 1980, grupo do qual fazia parte, anuncia a música que fez em homenagem aos irmãos que revolucionaram o samba em Cacique de Ramos, com a maravilhosa Do Fundo do Nosso Quintal.

Em mais um momento sentado e marcando o tempo com a mão num pad, o mestre Jorge ataca com mais um bloco de românticas, como o clássico de 1990, Papel de Pão, seguindo com sua excelente banda sem parar encarreirado canções como Loucuras de uma Paixão, Abuso de Poder e a lindíssima Feitio de Paixão. Confesso que em mais de 100 coberturas para o Araújo Vianna foi uma das noites com mais energia e alegria que presenciei, era gente que foi pra lá se divertir, ser feliz, cantar e curtir um bom samba, um clima alto astral raro de se ver, nada mais justo para receber de braços abertos Jorge Aragão, que logo emenda o clássico que representa tudo isso, Coisa de Pele, de 1986, onde toda essa celebração está presente na letra dessa poesia.

Jorge então relembra o início de tudo, há mais de 53 anos, onde Elza Soares com seu disco Lição de Vida, em 1976, deu voz à composição do jovem Jorge Aragão da Cruz, de Padre Miguel, com a canção Malandro, quando mais uma vez o Araújo explodiu de alegria. Em seguida relembra aquela canção que dá um recado para aqueles que falam muito do samba sem conhecer muito do riscado, o samba resposta Moleque Atrevido, porque afinal: “respeite quem pôde chegar aonde a gente chegou”.

Jorge então senta novamente, anuncia que agora iria virar festa e com o cavaco chorando, canta aquela que virou sinônimo de carnaval no Brasil, Globeleza. Um jingle sob encomenda para a Vênus Platinada que hoje cabe muito bem em qualquer roda de samba. Mas é claro que em seguida manda mais uma das suas imortais e essa viajou até o espaço, Coisinha do Pai, famosa na voz da madrinha Beth. Não preciso nem descrever que o Araújo era carnaval puro com todo mundo de pé, sambando e celebrando a vida. O show termina com mais uma daquelas que são clássicos do cancioneiro nacional e quem não conhece deve procurar conhecer, Vou Festejar, outra que encantou o Brasil na voz da madrinha do Cacique de Ramos, fez o auditório todo cantar junto “você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão!” Se o nome do show era Vamos Festejar, não faltou festa, e para coroar de emoção o momento, no final da música a banda cantava junto um quase mantra: “ôôôôôô o vovô voltou, por que ele deixou”, apontando o dedo para o céu, em momento de pura magia, agradecimento e uma ode à vida de um artista que passou bastante coisa nos últimos anos, mas faz questão de ainda alegrar quem fez o que ele é hoje. Afinal, sem o público o artista não é ninguém e Jorge Aragão agradece emocionado essa oportunidade de ter o calor e o carinho do povo na sua frente, findando um show dos mais emblemáticos de 2025.

Se foi nossa última oportunidade de o assistirmos , realmente não sei, o tempo dará as respostas, a saúde e principalmente o Jorge. Um cara que há mais de 50 anos é essa entidade da música brasileira, sabe o que faz, se é momento de parar, faça o que o coração mandar, afinal com suas canções conquistou o Brasil e sabe que tem o dever cumprido. E para quem não foi ver e gosta da coisa sinto em informar, perderam a chance de ver mais uma vez um dos sorrisos mais cativantes do Brasil, simpatia e talento de mãos dadas em prol do samba, da música do Brasil e baluarte da alegria.

Written By
Lauro Roth