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MÚSICA

Ira! Acústico 20 anos – Araújo Vianna

Ira! Acústico 20 anos – Araújo Vianna
  • Publishednovembro 13, 2025

Houve uma época, na história recente desse país, em que qualquer banda que quisesse ganhar mais status, ou leia-se, renovar os fãs, um dos caminhos mais lógicos era fazer o seu acústico MTV. Várias bandas de rock e artistas de MPB fizeram shows memoráveis nesse formato e um dos mais tardios, e com certeza um dos melhores, foi do Ira! em 2004. A banda já tinha feito em formato plugado o festejado Ira! Ao Vivo em 2000, mas com o acústico, por mais que tivemos o desprazer de não ver Edgard Scandurra tocando guitarra, o que é uma lastima tamanho talento, fomos brindado com um dos mais belos shows acústicos que a emissora produziu. Anos depois, um turbilhão de acontecimentos fizeram a banda se separar, com cada integrante seguindo a sua vida, até a volta da banda em 2014, apenas com o Nasi e o Scandurra, já que Gaspa e André Jung, da formação clássica, não voltaram. Em tom de celebração, a banda está numa turnê em que faz uma volta a esse famoso show de 2004, com o título de Ira! Acústico 20 anos. E uma das paradas obrigatórias da banda foi no Araújo Vianna, em Porto Alegre, numa celebração dos já 21 anos do marcante espetáculo. 

Deixando qualquer polêmica de lado, o povo compareceu em peso no sábado passado no Araújo. Quatro mil fãs super animados lotavam o auditório para prestigiar a banda de mais de 40 anos de história. Com um caprichado cenário, com o nome da banda no alto num pano de fundo, com os integrantes de apoio Jonas Moncaio no violoncelo, Juba Carvalho na percussão e mais, os hoje membros, Daniel Scandurra no baixo, Johnny Boy Chaves nos teclados e Evaristo Pádua na bateria, a dupla Nasi e Edgard Scandurra, sem muito atraso, senta nos banquinhos e ovacionados abrem o baile com a versão da banda para Train Van do The Clash, Pra Ficar Comigo. Não tinha como dar ruim, com tanta música boa, e seguindo a ordem do show de mais de duas décadas, eles mandam ver com Girassol e em seguida Flerte Fatal. Nasi, emocionado com o carinho de Porto Alegre, agradece o acolhimento e a energia da plateia e a banda já emenda o clássico Dias de Luta, para o delírio de uma animada plateia de pé.

Do disco Mudança de Comportamento, de 1985,  tocam Saída, e depois, do disco seguinte, seguem com 15 anos (Vivendo e Não Aprendendo). Edgard consegue fazer misérias num violão, com sua pegada marcante transforma aqueles clássicos em maravilhas desplugadas. Jonas no violoncelo dá aquele tempero clássico pros arranjos e a percussionista Juba Carvalho é um show à parte, com uma pegada latina e cheia de vibração e Nasi comanda a festa, horas de pé, outras sentado e mesmo com uma voz mais cansada, não perde a animação e a facilidade de comandar a massa. Rubro Zorro, do clássico Psicoacústica, de 1988, fica linda na versão ao vivo e a ótima Poço de Sensibilidade, oriunda do disco Clandestino, de 1990, seguem o brilhante espetáculo. Por Amor, do Zé Rodrix, antecede o momento de maior euforia do show que é quando tocam Tarde Vazia, fazendo o Araújo ir abaixo, com todo mundo de pé cantando junto a canção do álbum de 1990, que fez muito mais sucesso na versão do acústico. Ainda temos Vida Passageira, que era inédita do ao vivo de 2000, mas é com Flores em Você, com aquele violoncelo do Jonas, com o baixo pontuando o grave do Daniel, que mais uma vez a galera delira e também é o melhor momento de Nasi no show.

As três seguintes, Ciganos, Muito Além e Boneca de Cera, dão aquela acalmada na galera, aquele momento de sentar e buscar um copo de chopp, uma relaxada básica. Edgard Scandurra conta da história do seu pai, que é gaúcho de Bagé, fala da foto que encontrou da avó, e Nasi, mesmo com incontáveis gritos dizendo “sem anistia” da plateia, procura ficar mais na dele, mas com seus gestuais com os dedos entregando a sua posição política e de 99 por cento dos espectadores.

O show segue com Tanto Quanto Eu, do disco de 1986, mas em mais um momento épico da noite, todo mundo canta junto com eles o sucesso Eu Quero Sempre Mais, que com a participação da Pitty foi a música mais tocada do disco acústico, simbiose perfeita entre banda e plateia. Aí depois era só correr pro abraço, com os dois arrasa quarteirões Envelheço na Cidade, com mais um show de Edgard no violão e pra findar, o clássico dos anos 1980, Núcleo Base, transformando o Araújo Vianna num baile de celebração ao Ira! Depois de muitos aplausos, uns “sem anistia” pelo ar, a banda sai de cena, para aquela ladainha de cair fora e voltar pro bis. Um minuto depois estão de volta para encerrar com Mudança de Comportamento e homenagear o filho da terra, Wander Wildner, com o clássico Bebendo Vinho, com a galera cantando a plenos pulmões o inesquecível refrão do cancioneiro gaúcho.

Ira! entregou um showzaço, cumprindo com todas as expectativas geradas, mesmo as polêmicas  envolvendo cancelamento de show por questões políticas que provocou uma iminente tensão da banda sobre o tal show aqui em Porto Alegre, tudo correu bem como tem que ser. Um som muito bem equalizado, uma banda afiada, uma dupla de lendas do rock nacional brilhando, com Edgard dando sua aula de como tocar bem violão e Nasi com sua estileira clássica e atitude, reluzindo no palco. Claro que só uma banda com mais de 40 anos, entre entre indas e vindas, tem na bagagem esse monte de músicas boas e que mesmo longe do padrão clássico, onde a guitarra dá o tom e a fúria do show, funciona muito bem no formato acústico. Uma noite histórica, que vai ficar marcada pra sempre na mente das 4 mil pessoas que celebraram com a banda esses mais de 20 anos desse inesquecível álbum.

Crédito das fotos: Vívian Carravetta

Written By
Lauro Roth