Guilherme Arantes – 50 Anos Luz – Araújo Vianna
O paulista Guilherme Arantes, juntamente com o Roupa Nova, são dos poucos artistas que além de serem quase unanimidade nacional, têm o prazer de serem os maiores hitmakers da música pop brasileira. Por décadas, nas estações de rádios, programas de televisão e novelas, as canções do Arantes e dos cariocas do Roupa Nova andaram junto com a história do Brasil. E Guilherme Arantes, na ativa há mais de 50 anos, anda percorrendo o Brasil com suas inesquecíveis canções, num show intitulado 50 Anos Luz. Uma viagem sonora pelos seus incontáveis hits, mas não deixando de lado as novidades, trabalhando as músicas de seu último álbum, o ótimo Interdimensional (2026). Porto Alegre, com o Araújo Vianna de palco, recebeu o artista sábado passado, numa viagem emocionante de sucessos que encantou quem esteve presente.
Um bom show para mim já fica melhor ainda quando tem pouco atraso. E 21h10min (pouquíssima, em comparação a algumas vedetes da música brasileira). Com um lindíssimo cenário e iluminação caprichada, a compacta banda, com a lenda Willy Verdaguer no baixo, Gabriel Martini na bateria e Alexandre Blanc na guitarra, entram no palco. Banda essa desfalcada de Luiz Carlini, que com pneumonia, não pode comparecer ao show. Guilherme então surge na frente do palco, de um lado um teclado e de outro um piano. Abrem o show com a instrumental 50 Anos Luz, do último disco, com aquela pegada progressiva que era a praia dos artistas desde o Moto Perpétuo, em meados dos anos 1970. Aí a plateia vem abaixo com o clássico Amanhã, já com o povo soltando a voz para cantar junto e logo em seguida emociona a galera com umas das músicas mais bonitas do cancioneiro nacional, Brincar de Viver. Imortalizada na voz de Maria Bethânia, num dos momentos sublimes do show – e isso que ainda estávamos na terceira música. Mal nos recuperamos desses dois petardos em sequência, sem muita delonga, ele voltou ao início de tudo com a lindíssima Meu Mundo e Nada Mais, outra das canções mais bonitas da música brasileira.



E provando que continua compondo e na ativa, apresenta ao público Libido da Alma, canção do seu último disco, mas mexe com a plateia com direito à história da música quando canta Pedacinhos, que tinha sido feita para a cantora Vanusa. De 2021, puxa Nossa Imensidão a Dois, seguida por mais uma nova, Minúcias. A intro no piano acusa que ele vai tocar Planeta Água, do festival MPB Shell, de 1981, em mais um dos grandes momentos do show. Guilherme está solto, feliz e esbanja simpatia, acerta em baixar alguns tons de suas músicas para encaixar sua voz, que com o tempo já não é mais a mesma, mas que no show brilhou intensamente, como o nome do espetáculo. A banda enxuta, mas extremamente competente, também serve de cama para tantos sucessos, uma pena que o Carlini não veio, mas o Alexander Blanc deu conta do recado e a cozinha do mestre Willy e do batera Gabriel Martini é um show a parte. O show segue com Semente da Maré, de 2017, e a banda de apoio sai de cena. Guilherme, então, apenas com piano e voz e dialogando com a plateia emenda sucessos dele que fizeram parte de novelas como O Amor Nascer (Prelúdio), Baile de Máscaras e Muito Diferente. Todas com belas letras e que ficaram ótimas nesse formato.

Mas quando puxa: “Só você pra dar a minha vida direção…”, o Araújo entrou em hipnose para contemplar Guilherme e cantar junto com ele o sucesso Um Dia, um Adeus (1987). Ele aproveita o momento e repete a canção, só que com uma versão em inglês, que ficou sensacional. Como sempre falo, um daqueles momentos emblemáticos da história do Araújo Vianna que só quem viu, ouviu e sentiu (ou filmou) vai guardar para o resto da vida.


Com a banda de volta, eles atacam de Raça de Herois, que foi tema da novela Que Rei Sou Eu?, de 1989, e depois a progressiva Cidade e Neblinas, de seu disco de estreia, há 50 anos. Do mesmo disco segue com Cuide-se Bem, que foi trilha da novela Duas Vidas.
Depois dessa volta ao começo, Guilherme, quase que em formato de pot-pourri, com a banda afiada e programações, faz o até ali tímido Araújo, virar uma pista de dança com canções como Coisas do Brasil, Marina no Ar, Aprendendo a Jogar, O Melhor Vai Começar, Lance Legal e Loucas Horas, intercalando piano e teclados e agitando a massa. Mas é com Cheia de Charme que mais uma vez o Araújo entra em catarse, com o povo de pé, dançando e se divertindo muito. Deixa Chover fecha o baile em alto astral, mas Guilherme Arantes promete que o bis vai ser bem festivo também.




A banda volta, ele também e mandam o sucesso de 1985, Fã Número Um, mas o melhor ainda estava por vir (casualmente título de música dele), fechando o show com Lindo Balão Azul, que foi trilha do programa infantil Pirlimpimpim, de 1983. Não tem como não se emocionar com os acordes da introdução e cantar junto, pegando carona na cauda do cometa com Guilherme Arantes, fechando o show com chave de ouro, onde tanto plateia quanto o artista saíram satisfeitos e emocionados.
Arantes, em mais de duas horas e 28 músicas, prova com qualidade, simpatia e talento que é um dos maiores compositores do Brasil, com uma história riquíssima de cinco décadas e mesmo assim continua na ativa, compondo, lançando disco. E o que mais surpreende e que nos deixa encantados é a humildade e simpatia de um artista gigante com o Guilherme Arantes, se entregando e nos dando um show que com certeza já é um dos melhores do ano. Uma noite de celebração à história, ao talento e o prazer de ouvir boa música, o que hoje em dia é um privilégio!



Crédito das fotos: Vívian Carravetta