Toy Story é uma franquia que poderia ter terminado algumas vezes. O primeiro filme, de 1995, é uma história fechada que não necessariamente precisaria de uma continuação, assim como a sua sequência, de 1999, mas já que tivemos um segundo filme, fechar uma trilogia seria de bom tom. E aí, tivemos Toy Story 3, de 2010, que tem um final emocionalmente catártico, fechando um círculo perfeito da relação entre Andy e seus brinquedos. O quarto filme, de 2019, poderia não existir vista a conclusão tão redonda do anterior, mas a história se justifica pelo fechamento do arco de Woody. Parecia que não teria mais para onde ir, em termos de sequências, na franquia, mas em fevereiro de 2023 foi confirmada a produção de Toy Story 5 (2026), que será lançado nos cinemas brasileiros ainda nesta semana (18/06).
Os brinquedos de Bonnie estão de volta em mais uma aventura, e dessa vez a ameaça é a tecnologia. A garotinha está com dificuldades de fazer novas amizades, já que todas as crianças estão cada vez mais imersas em telas de aparelhos eletrônicos, ao invés de brincarem e interagirem entre si. Para tentar ajudar na socialização de sua filha, os pais de Bonnie dão de presente à garota uma Lilypad, um tablet ultra tecnológico que passa a desafiar a relevância de Jessie, Buzz, e sua turma dentro do quarto de Bonnie. Jessie então busca meios de ajudar a dona a fazer amizades e ao mesmo tempo se manter como o brinquedo favorito da garota.

Com uma premissa que lembra um pouco a do primeiro filme da franquia, Toy Story 5 consegue repaginar o dilema da disputa pelo favoritismo da dona entre o brinquedo estabelecido e o recém-chegado, utilizando-se de temas que estão nos holofotes atualmente. É um pouco contra-intuitivo, mas é curioso perceber que em um mundo real em que os brinquedos estão perdendo espaços entre as crianças, se tornando itens de colecionadores nostálgicos, Toy Story tenha mais a falar do que tinha a 7 anos atrás, quando o quarto filme foi lançado. Utilizando esse aspecto que pode ser observado na realidade, Toy Story 5 consegue tratar sobre temas como trauma, medo do esquecimento, etarismo, e uso excessivo de telas pelas crianças. Nesse sentido, o filme de 2026 consegue discutir esses assuntos na maneira em que a Pixar consagrou ao longo dos anos: com uma história emocionante, divertida e com muito vigor.
Grande parte desse vigor se dá pelos roteiristas Andrew Stanton e Kenna Harris terem respeitado os arcos já fechados dos personagens nos filmes anteriores, principalmente o de Woody, e focado em desenvolver a personagem que ainda nos tem algo a contar, a boneca Jessie. Ela sempre foi uma importante coadjuvante, que teve a base de suas motivações e medos já apresentada anteriormente na franquia, mas que ainda não havia tido um bom arco para chamar de dela, o que foi finalmente realizado em Toy Story 5. Stanton e Harris não tiveram que inventar uma história mal ajambrada para Jessie, eles apenas utilizaram o fato dela de ter sido abandonada por sua primeira criança e seguiram a partir daí, e esse plano de fundo caiu como uma luva nos temas discutidos pelo roteiro. Isso dá uma sensação de que o longa não é uma forçação de barra e que há um propósito claro para ele existir.
O ponto negativo é o fato de personagens tão icônicos como Woody e Buzz acabarem se tornando apenas alívios-cômicos com pouca substância. Woody mesmo poderia não estar no filme, e talvez fosse até melhor que não estivesse, porque a função dele na narrativa é quase nula, não tendo nem ao menos um peso emocional na sua volta e subsequentemente em sua nova despedida, já que esses momentos foram mostrados de forma apressada. E de fato não havia como não ser apressado, pois o filme não é sobre ele, é sobre Jessie. Então o papel de personagem icônico para nostalgia poderia ter ficado apenas com Buzz, já que esse alívio cômico é um aspecto que já está inserido no personagem desde os primórdios da franquia. Visto isso, apesar de em Toy Story 5 o brinquedo astronauta ter sido resumido excessivamente a esse papel, não é como se Buzz nunca estivesse estado em uma posição próxima ao de ser a piada do filme, funcionando assim nesse papel melhor que Woody.
Mas nada que atrapalhe um filme muito bem feito. Graficamente, Toy Story 5 é um espetáculo. As imagens são lindas, e passam aquele sentimento “quentinho” típico ao visual da Pixar. A sensação é de que estamos assistindo a versão mais bonita dos personagens clássicos, enquanto os inéditos são extremamente carismáticos, funcionando muito bem também pelo texto. O destaque vai para o Amigo Rolinho, um brinquedo educativo que treinou sua dona Blaze a usar o troninho. Amigo Rolinho é absolutamente hilário, roubando as cenas em que participa.
No final das contas, Toy Story 5 prova que podem existir 10 sequências, mesmo após seus arcos estarem muito bem fechados, contanto que o filme tenha algo relevante para discutir e uma boa história para contar. A história nem precisa ser tão original assim, contanto que os arcos que estejam sendo desenvolvidos adicionem camadas aos personagens que já conhecemos. Ao fim de Toy Story 5, nós entendemos mais profundamente quem é Jessie, enriquecendo assim a franquia como um todo.