Star Wars é uma franquia que nasceu da mente do diretor George Lucas, em meados dos anos 70. É importante notar que os filmes dirigidos por Lucas à época, apesar de serem contos de fadas espaciais visando um público infanto-juvenil, são obras autorais e revolucionárias. Mesmo os “prequels” produzidos por Lucas no final dos anos 90/começo dos anos 2000, ainda que muito criticados negativamente no momento de seus lançamentos, são filmes que seguem a visão de um criador com muita personalidade. Tendo isso em mente, é triste perceber que O Mandaloriano e Grogu (The Mandalorian and Grogu, 2026) é a representação clara de como a franquia se tornou algo genérico e sem sal na última década.
O Império caiu e os senhores da guerra imperiais permanecem espalhados pela galáxia. Enquanto a incipiente Nova República trabalha para proteger tudo pelo que a Rebelião lutou, eles recrutam o lendário caçador de recompensas Mando e o seu jovem aprendiz Grogu, o famoso Baby Yoda, para resgatar o principal herdeiro vivo de Jabba o Hutt das mãos do criminoso Janu.

O Mandaloriano e Grogu nasceu em 2023 quando a produção da quarta temporada de O Mandaloriano havia sido adiada devido à greve dos roteiristas. Nesse período, a Lucasfilm decidiu que ao invés de uma quarta temporada, seria produzido um filme baseado na série. Apesar de o diretor Jon Favreau ter dito em entrevistas que o roteiro do filme foi desenvolvido do zero a partir do cancelamento da quarta temporada, em termos narrativos O Mandaloriano e Grogu parece mais uma compilação de episódios da série original do que um filme por si só. E devido a isso, em nenhum momento o longa empolga, por ele ser formado por vários pequenos clímaxes ao invés de uma construção que culmina em uma catarse final. Claro que há uma tentativa de um terceiro ato empolgante, mas que, como já escrito acima, acaba sendo nada mais do que genérico e entediante, seja na ação, na cinematografia, no design dos personagens antagonistas ou nas soluções de roteiro.
É feio ficar comparando um filme com outros lançados anteriormente, uma crítica precisa ser sobre a obra que está sendo analisada em si, mas no caso da franquia Guerra nas Estrelas fica inevitável. Apesar de muitos tentarem dizer que não, Star Wars se deu da visão política de George Lucas. A trilogia original é inspirada na Guerra do Vietnã, onde o Império Galáctico é baseado nos Estados Unidos, enquanto nos “prequels”, Lucas retrata como o fascismo arma a arapuca para assassinar as democracias. Fora as discussões que a obra de Lucas faz sobre paternidade, herança, traumas, fraternidade e lealdade. Em O Mandaloriano e Grogu não temos nada disso. Não só em termos políticos, mas falta ao filme qualquer tipo de discussão. O único tema que de fato é minimamente desenvolvido é a paternidade, retratada pela relação de Mando e Grogu. Só que isso já foi apresentado e discutido na série O Mandaloriano, então, no final das contas, o filme não traz nenhuma novidade à Star Wars que realmente funcione.
E o que funciona? O que já está estabelecido anteriormente na franquia. O visual de Mando é deslumbrante, e consegue dar muita presença de cena ao personagem, enquanto Grogu é extremamente fofo e carismático. Além disso, é importante dizer que toda vez que o filme aposta em efeitos práticos, o valor de produção de O Mandaloriano e Grogu aumenta significativamente: os figurinos feitos à mão são deslumbrantes com toda a estética característica de Star Wars; além das marionetes muito carismáticas dando vida às criaturas deste universo, principalmente a de Grogu, que tem uma vida própria impressionante para um puppet.
Star Wars hoje é representado pelo o que é O Mandaloriano e Grogu: sem sal, entediante e raso, mas que cativa minimamente por um eco da revolução causada pela franquia no passado. É de se pensar até quando esse eco será suficiente para segurar as novas obras de Guerra nas Estrelas, já que hoje, em 2026, o impacto da franquia é muito menor do que era há uma década.