Na vida tem os que carregam os pianos. Não digo nem os, na maioria das vezes, robustos trabalhadores que deslocam o pesado instrumento para todos os lados, mas o que estão prontos para qualquer coisa. Claro que temos os tocadores de piano, que com seu esmero e talento nos encantam e fazem parecer tudo fácil, mas pouca gente lembra dos afinadores de piano. Sim, de tempo em tempo, aquelas incríveis teclas e suas cordas por trás das notas maravilhosas que nos proporcionam, precisam de pessoas especializadas para fazer esse trabalho tão nobre. E o diretor Daniel Rohrer nos apresenta a história de Niki White, um prodígio afinador de pianos, que além de afinar, carrega um piano nas costas com sua deficiência e sabe tocar magistralmente. Esse personagem três (e por que não quatro?) está presemte em uma das estreias da semana, o filme O Afinador (Tuner, 2025).
Nick teve como mestre um grande amigo de seu pai, Harry Horowitz. No passado, um exímio pianista de jazz, passa a vida contando suas histórias musicais e afinando pianos em Nova York, tendo como auxiliar o brilhante Niki. O rapaz, que era um jovem e talentoso pianista, acabou sendo acometido por uma doença auditiva, que o faz sofrer com ruídos altos, devido a sua hipersensibilidade auricular. Um dia, descobrem que podem abrir cofres só ouvindo os barulhos das suas engrenagens e acabam conhecendo uma equipe de segurança, formada por israelenses, que só serve de fachada para seus roubos e arrombamentos de cofre. Niki resolve dar uma força para eles já que Harry sofre de inúmeros problemas de saúde e deve um catatau de dinheiro para os planos médicos. O jovem vê ali uma oportunidade de ajudar seu mestre, tirar um cascalho para si mesmo, além de ter moral com Ruthie, uma exímia concertista que conheceu afinando o piano de um conservatório e que acaba tendo um romance com o afinador de piano e arrombador de cofres nas horas vagas.

Daniel Rohrer, o oscarizado diretor de documentários, dirige e escreve (em companhia de Robert Ramsey) esse agradável suspense de ação que se não deixa a gente vidrado na tela, ao menos diverte e explora bem o drama pessoal do personagem Niki. E um dos grandes acertos de O Afinador é saber usar caprichados efeitos de som e mostrar a angústia de quem é acometido de hipersensibilidade auditiva com ruídos extremos. E ao mesmo tempo cria um personagem que, por mais que viva a sua vida a afinar pianos, ironicamente tem como bloqueio devido a sua deficiência, a tocar neles. Mesmo com ouvido absoluto e talento incrível, Niki é impossibilitado de tocar, mas acaba vendo no seu próprio drama um talento e um novo meio de ganhar a vida surrupiando cofres por Nova York.
Mas memso essa originalidade digna não evita que o filme derrape por vezes na notas, quando parece ter cara demais de produção de Netflix. Representado nos estereotipados grupos de ladrões israelenses, no romance froçado de muita pouca química entre nosso heroi/bandido Niki com a talentosa Ruthie, com direito àquelas cenas clichês de namoro banais, mas acerta o compasso por ter um Dustin Hoffman como Harry Horowitz, e que mesmo hiper verborrágico é sempre uma satisfação assisti-lo nas telonas, nem que seja em um filme, por vezes, menor.
Mas o filme acerta mesmo a melodia na bela trilha sonora original de Will Bates, além de muito jazz pontuando as aventuras e desventuras de Niki, citações a gênios do gênero e uma participação do mestre Herbie Hancock. Quem interpreta Niki é Leo Woodall, que nos entrega uma digna atuação na pele do sofrido afinador com seus poderes especiais para o crime, Havana Rose Liu tem um papel mais discreto como Ruthie, a pianista que quer impressionar o maestro Marius, interpretado por um caricato e calmo Jean Reno. Lior Raz, como Uri, diverte no filme, apesar de ser um clichê completo com o pior dos tipos mafiosos dos filmes.
Talvez o grande problema de O Afinador seja a falta de sincronia entre os diversos gêneros que tenta explorar, e acaba perdendo o tom na mistura de thriller policial, suspense, comédia romântica e drama capacitista, mas mesmo com alguns momentos desafinados, o filme surpreende por nos apresentar uma história original e momentos marcantes, como a cena em que Niki desvenda cada nota que Ruthie toca no piano, no melhor estilo Rain Man, que Dustin Hoffman consagrou em 1988 no papel do super dotado autista Raymond. Consegue fazer nos sensibilizarmos com Niki, com suas tiradas com harmonia, afinação e fuga do caos, que segundo ele, a única maneira de saber equilibrar isso é saber lidar com a imperfeição. Pode parecer frase de autoajuda barata, mas era a maneira que Niki conseguia viver e levar a sua vida, em um filme que é uma grande surpresa do ano, apesar que tem tudo para passar praticamente batido aqui no Brasil, devido às desafinadas escolhas do público.