Crítica – Nosso Segredo

As diferentes formas de encarar o luto: esse é um tema muito comum no cinema e na arte como um todo. Isso porque é universal. Todo mundo já teve ou terá que lidar com a perda de pessoas queridas. Apesar de ser um tema comum nas obras de arte mais diversas, poucas mostram o luto de forma tão visceralmente cotidiana quanto Nosso Segredo (2026), dirigido e escrito por Grace Passô.

O filme conta a história de uma família negra que tenta reconstruir sua rotina após a recente perda do pai. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho.

O recorte social e racial feito por Grace Passô é fundamental para Nosso Segredo. Aquela família não tem tempo e recursos para poder parar e simplesmente viver seu luto, então cada uma daquelas pessoas precisa encontrar uma forma de lidar com a perda enquanto a vida segue acontecendo: enquanto Gilson segue trabalhando como motorista de aplicativo; enquanto Grazi tenta se esconder do mundo através das músicas que saem de seus fones de ouvido; enquanto Guto tenta fugir da realidade passando a madrugada em festas. Essa dinâmica é muito bem explorada por Grace Passô e pela diretora de fotografia Wilssa Esser. Elas conseguem colocar muita densidade nas entrelinhas de cenas aparentemente triviais e cotidianas, retratando a vida simples que insiste em continuar enquanto é atravessada por uma dor avassaladora.

E também temos Tutu, um garoto com cerca de 6 anos, o caçula da família. Por conta da idade, ele tem dificuldade em entender 100% o que está acontecendo, ao mesmo tempo em que guarda um segredo que o faz saber muito mais do que todos os outros membros da família. Essa questão do segredo dá ao longa uma atmosfera de mistério muito interessante e aflitiva, transformando inclusive a casa em personagem. Cada cena que mostra o vazamento que está ocorrendo no sótão aumentando de intensidade eleva o nosso alerta, pois sabemos que há algo de errado com a casa, da mesma forma que a vida daquela família parece não estar certa após a morte do pai. Esse clima, em alguns momentos quase sobrenatural, dá um charme a Nosso Segredo, e combina muito bem com o ritmo cadenciado e quase etéreo do longa.

Nosso Segredo não se apressa. Há muito sentimento implícito nesse filme, então tomar o tempo necessário para que possamos sentir e absorver todo o subtexto do longa é fundamental para o impacto que ele causa. Ao tratar do luto, o diferencial está nas peculiaridades do filme, que dão um tempero à história e que seriam muito diminuídas por um ritmo apressado. Nosso Segredo respeita a si próprio e confia na inteligência do espectador ao não entregar um filme de fácil digestão. Não me entenda mal, não há problema algum em um longa ser palatável, mas, nesse caso, isso não serviria para essa história, porque os temas aqui tratados são complexos e difíceis, profundos e multifacetados.

É importante notar também o trabalho técnico do filme. Todos os takes de Nosso Segredo são belíssimos: a iluminação contorna os rostos dos personagens, destacando seus traços e marcando cada um deles visualmente de uma maneira muito interessante. E da performance do elenco, então, nem se fala. Cada personagem tem um segredo interno que precisa ser comunicado através de olhares, e todo o elenco consegue transmitir o “não dito” com perfeição.

E assim, Grace Passô nos entrega um filme marcante, que faz um recorte muito específico e interessante sobre o luto, trazendo um frescor à discussão sobre um tema já muito explorado. Nosso Segredo é surpreendente, visceral e tocante ao transformar o cotidiano de uma família da periferia lidando com uma perda em uma vivência quase surrealista.

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