Crítica – Natal Amargo

Existem cânones do cinema que muito mais que apenas assistir ou conferir um filme, é quase uma obrigação estarmos por dentro de suas novidades. No caso aqui, ver o novo filme do Almodóvar é quase uma regra, um dever e na maioria das vezes um prazer. Poucos diretores nos despertam um fascínio tão grande por suas novas obras quanto o realizador espanhol, que está com novo filme no circuito, Natal Amargo (Amarga Navidad, 2026), onde depois de uma breve incursão a um filme em língua inglesa, O Quarto ao Lado (2024), ele volta a sua Espanha natal com um drama com cores de autobiografia.

Elsa, uma diretora de filmes publicitários, que teve uma carreira como diretora cult de cinema, após a morte da mãe, torna-se uma trabalhadora compulsiva. Namora o modelo, stripper e bombeiro Bonifacio. Sofrendo de fortes enxaquecas e sensação de morte iminente com suas crises de pânico que em 2004 não eram tratadas a sério, resolve ir passar um fim de semana com uma amiga, que tem um filho pequeno e está sendo traída pelo marido, nas ilhas de Lanzarote, em busca de inspiração e sossego. Mas aí, sabendo que Elsa é o personagem principal de um novo e tumultuado roteiro do diretor Raul, que em 2025 está com uma crise criativa imensa e acaba recorrendo a seus dramas pessoais, relacionamentos e busca inspiração, inclui-se nas histórias de sua assistente Mônica, para fechar sua conturbada ficção inspirada em fatos de sua vida.

Almodóvar hoje é um septuagenário realizador, tem a total consciência de que algo de novo na sua carreira ainda vai surpreender alguém. Mas mesmo assim, para manter sua saúde mental e amor pela arte brinca com ele mesmo e mostra como o sufocamento artístico, seja pela idade, pela falta de inspiração ou por saber que dificilmente irá superar suas obras anteriores é o maior drama de um artista. Abusando de metalinguagem, o diretor nos coloca dentro de duas histórias com 20 anos de diferença, mas com o mesmo autor. Enquanto Raul era um consagrado diretor que sofre de um limbo de inspiração, até por não ter nada a provar a ninguém, a personagem criada por ele é Elsa, uma promissora diretora que abandonou tudo pela carreira publicitária, mas que ainda quer mostrar para o mundo que tem valor e usa o luto da mãe como uma maneira de exprimir suas angústias no texto. Só que como Almodóvar nos apresenta, o pai da matéria, Raul, não consegue mais espremer nada de sua vida e acaba utilizando dramas pessoais de sua assistente e colocando no papel, nos questionando até que ponto utilizar a vida dos outros como inspiração é ético o suficiente para não magoar quem vivencia esses dramas. 

E como a arte pode ser um espelho da vida real, esse tipo de metalinguagem não é nada de novo na filmografia do espanhol, que em obras anteriores como A Lei do Desejo (1987) e Dor e Glória (2019) já nos mostrava a angústia de realizadores, mas que aqui no caso, o diretor faz isso como a prova que às vezes a inspiração às vezes dá um tempo. Mas o grande problema, ao meu ver, de Natal Amargo é que ao contar duas histórias em paralelo, a criada na mente de Raul e sua vida pessoal, por muitas vezes o filme acaba ficando modorrento e confuso, principalmente na transposição de sua obra, que acaba se tornando vazia e muitas vezes mal desenvolvida, com personagens sem sentido, alguns inúteis, como o bombeiro que tira a roupa nas horas vagas, Bonifacio, e as vazias amigas de Elsa, que pouco contribuem para a trama. Os melhores momentos mesmo são quando somos transpostos para 2025 e vemos um milionário diretor, acabado em vícios, com pouca motivação e dependendo dos dramalhões de sua assistente Mônica para tentar achar uma luz de inspiração para continuação de seu roteiro. 

Mas para quem gosta da obra do Almodóvar temos ali todos seus ingredientes de sempre, mulheres fortes com seus dramalhões, a direção de arte sempre caprichada, desde a sala de Elsa ao escritório de Raul, com detalhes e decoração, que é sempre uma maravilha para quem assiste, as tais cores, seus fetiches e músicas fortes, como a arrasadora Amarga Navidad, na voz de Chavela Vargas e uma trilha sonora lindíssima de Alberto Iglesias.

O grande barato de Natal Amargo é realmente como o diretor se despe de qualquer orgulho, fazendo uma autocrítica de como e porque um cara já consagrado precisa ainda provar alguma coisa a alguém, ou como a sua assistente mesmo diz: seus melhores filme já foram feitos e qualquer coisa que você fará seus seguidores irão consumir. O embate entre Raul e sua assistente Mônica no final do filme, inclusive vale o filme, pela ironia e verdades que todos gostariam de dizer para quem não precisa provar nada a ninguém mas insiste em ainda achar que é genial. Aitana Sánchez-Gijón, como a assistente de Raul, é quem tem melhor atuação no filme, numa daquelas mulheres fortes e destemidas dos filmes do diretor. Bárbara Lennie não convence como a enlutada Lennie e Leonardo Sbaraglia carece um pouco de carisma como o alter ego de Pedro Almodóvar.

Natal Amargo, comprovando a máxima do próprio filme, é longe de ser uma das suas melhores produções, mas mesmo assim cativa e é honesta. Tenta nos mostrar até que ponto, na falta de boas histórias, apropriar-se da vida dos outros para criar histórias machuca os donos delas, além de apresentar o fato de que, por mais genial que nossos gênios sejam, nem sempre temos o tempo todo lapsos criativos e que o medo da folha em branco e de como dar vida a ela é de todo mundo que um dia resolver escrever ou criar e que isso não é apenas aflição de pequenos escritores e até mesmo quem não precisa mais provar nada a ninguém sofre desse mal. Mais uma jogada de genialidade, que transforma esse drama em arte, isso que divide pessoas com Almodóvar e o resto dos mortais.

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