Crítica – Homem-Aranha: Um Novo Dia

O maior vilão do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) é a necessidade de criar hype para o futuro. Os filmes ficam em segundo plano em relação às cenas pós-créditos, que mostram o antagonista do próximo lançamento ou uma espiadinha no herói dos quadrinhos que todos estão esperando ver em live-action. E o filme em si? Mais um filme genérico que tenta repetir uma fórmula esgotada. Neste contexto, há apenas um herói que pode salvar o MCU: o Homem-Aranha.

Após o mundo ter esquecido seu nome, Peter Parker inicia um novo capítulo em sua vida, conciliando suas obrigações de vida adulta e sua responsabilidade como o Homem-Aranha. Mas, quando uma força misteriosa começa a desmantelar Nova York de dentro para fora, Peter se vê preso entre inimigos poderosos, legados antigos e aliados inesperados.

Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day, 2026) é um dos melhores da Marvel. Se o recorte for dos últimos anos, então é o melhor, sem dúvidas. O filme pode significar uma retomada interessante do MCU para os rumos certos, ou pode ser apenas um ponto fora da curva, mas, verdade seja dita, não importa. Inclusive, pensar muito no futuro tem sido um dos principais problemas do MCU nos últimos anos, conforme citado no início desta crítica; então, apesar de o filme indicar bons indícios, me obrigarei a focar no presente.

Homem-Aranha: Um Novo Dia não tem medo de nos contar uma história melancólica, e isso é ouro, pois o desenvolvimento do arco de personagem de Peter Parker necessita desse peso dramático. O longa ainda é divertido, ainda é um bom filme de ação de super-heróis, mas existe uma certa profundidade nos seus temas. Essa profundidade potencializa a história, as motivações dos seus personagens e até o aspecto “diversão” do filme, porque todas as cenas têm um propósito muito bem definido e bem amarrado pela trama. Isso faz com que nós estejamos, a todo momento, na ponta da cadeira querendo saber como Peter vai resolver todos aqueles problemas. O longa não deixa de ser um filme pipoca, mas aqui em Homem-Aranha: Um Novo Dia há um equilíbrio muito bom entre o entretenimento e a profundidade. Até as piadas, que foram banalizadas pela famosa fórmula Marvel, são encaixadas de maneira muito consciente, nunca quebrando os impactos dos clímaxes emocionais do filme.

E, nesse aspecto, as atuações precisam ser destacadas. Tom Holland consegue traduzir muito bem uma crise de identidade do personagem que não é das mais simples. Há muitas camadas nessa construção de dilemas e inseguranças de Peter Parker, e Tom Holland consegue simplificar de uma forma que nós absorvemos as motivações de Peter de maneira muito direta. Tudo bem que o texto o ajuda com diálogos expositivos que verbalizam essas inseguranças, mas, de qualquer forma, Holland consegue demonstrar as motivações em ações e expressões. Nós não sentimos que existe um abismo entre o discurso do texto e o que está sendo mostrado pelo ator. Zendaya, mais uma vez, é ótima. Nos poucos minutos em que aparece, ela entrega uma MJ com muita presença. Jacob Batalon, interpretando Ned Leeds, é extremamente carismático, assim como Jon Bernthal, interpretando o Justiceiro.

O maior destaque nesse aspecto, no entanto, é a performance de Sadie Sink. Apenas dizer quem é a personagem interpretada por ela já seria um spoiler; por isso, irei me limitar a escrever que, assim como Holland, ela consegue traduzir suas dores internas e complexas de uma forma muito clara. Sadie Sink entrega uma personagem extremamente relacionável, ainda que esteja realizando atos aparentemente questionáveis. Sua performance contém muita profundidade e presença, como era esperado pela ótima atriz que ela é.

Um outro aspecto muito bem trabalhado é o visual de Homem-Aranha: Um Novo Dia. As cenas de ação foram muito bem pensadas, mostrando-se muito bem em tela. Várias delas referenciam capas clássicas dos quadrinhos, cenas dos filmes passados do herói — especialmente os protagonizados por Tobey Maguire — e os maravilhosos games da Insomniac. Então, o longa é uma grande homenagem a tudo o que faz o Homem-Aranha ser icônico em todas as mídias, porém sem que essas referências tomem o filme de assalto. Assim como na questão da profundidade/diversão, há também um equilíbrio entre a trama original e as referências.

Homem-Aranha: Um Novo Dia possui alguns pontos fracos que são comuns em filmes de seu gênero: alguns diálogos muito expositivos ou algumas conveniências de roteiro pouco verossímeis. No geral, entretanto, o filme se sustenta muito bem. Isso porque o diretor Destin Daniel Cretton e sua equipe se preocupam prioritariamente em entregar uma boa história independente, com motivações de personagem muito relacionáveis com o público. Agora, permitindo-me escrever um pouquinho sobre o futuro, se a Disney quiser instaurar uma nova era de sucesso do MCU, o caminho é mais simples do que um grande universo integrado, a junção de 683 heróis em um único longa ou criar hype para os próximos 22 longas e séries futuras: antes de mais nada, a Disney deve preocupar-se em entregar um bom filme. Apenas isso.

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