Crítica – Gonzaguinha: Da Maior Liberdade
Um documentário se define pelo seu recorte. Às vezes, uma produção do gênero quer passar por todos os tópicos da biografia de um personagem e acaba não conseguindo se aprofundar em nada. Não é o caso de Gonzaguinha: Da Maior Liberdade (2026), dirigido por Susanna Lira. Neste documentário, Lira decide fazer um recorte das diferentes facetas de Gonzaguinha, nas diferentes fases de sua vida e carreira, especialmente do artista como um agente político.
Gonzaguinha: Da Maior Liberdade é um filme que busca resgatar em letras, imagens e sons a fúria e a poesia de um dos artistas mais importantes para a construção e a discussão popular de nossa história democrática: Luiz Gonzaga Jr.
Gonzaguinha: Da Maior Liberdade tem muita identidade. Fugindo de fórmulas convencionais de biografias, o longa praticamente conta, com raras exceções, sua história apenas com as palavras do próprio Gonzaguinha, seja em forma de entrevistas, letras de música ou poesia. O longa tem um fascínio quase obsessivo pelo artista. Ele é o centro do universo durante os 78 minutos de duração do filme. Várias das cenas utilizadas de arquivos filmam Gonzaguinha com um close extremo em seu rosto, às vezes nos olhos, outras na boca, como se estivéssemos invadindo a alma do artista. Mais do que momentos-chave de sua carreira ou das histórias das composições de suas músicas, o filme mergulha em seu posicionamento perante o mundo, seja politicamente, seja simplesmente sendo humano.
Gonzaguinha era frequentemente enxergado como uma pessoa antipática. O filme não tenta desconstruir totalmente essa visão — afinal, ele era isso também —, mas mostra que ele era muito mais. Susanna Lira, ao exibir cenas de um show em que Gonzaguinha canta ao lado de Luiz Gonzaga de uma forma terna, revela outro aspecto da personalidade do cantor, que contradiz a antipatia. Dessa forma, o filme vai montando um quebra-cabeça das complexidades humanas dessa lenda da música. Um momento que exemplifica essa complexidade é quando Gonzaguinha conta, em uma entrevista e de forma hilária, a história trágica de quando Dona Marina, uma agente da censura da Ditadura Militar, queria que o artista retirasse a palavra “Maracanã” de uma de suas composições. Essa história é emblemática porque é quase um resumo de todas as facetas de Gonzaguinha trabalhadas pelo documentário: há raiva e revolta em suas palavras, ao mesmo tempo em que ele consegue dar um toque de humor e leveza ao relatar o acontecimento, enquanto evidencia seu posicionamento político e humano.
Claro que esse momento é encenado. Isso porque a entrevista em questão foi publicada apenas em texto no semanário O Pasquim em 1981. Essa entrevista em específico é boa demais para não ser um fio condutor do documentário, pois nela Gonzaguinha testemunha sobre várias fases de sua vida: desde a infância, passando pelo relacionamento com seu pai, Luiz Gonzaga, até a primeira década e meia de sua carreira. A solução da produção foi encenar essa conversa com takes que não revelam muito da cena como um todo, quase como se não tivéssemos o direito pleno de presenciar aquele acontecimento. Os ângulos de câmera são todos fechados, um pouco tortos, sempre escondendo algo, justamente enquanto Gonzaguinha revela diferentes aspectos de sua personalidade. Vale dizer que André Dale, que interpreta o artista nessa encenação, está muito parecido com Gonzaguinha, tanto fisicamente quanto nos maneirismos.
Gonzaguinha: Da Maior Liberdade é um ótimo documentário que joga luz sobre quem era a pessoa por trás da lenda e como a sua personalidade explica justamente o porquê de ter se tornado uma lenda. É definitivamente um documentário com muito charme e personalidade.
