Crítica – Garotas Só Querem Vingança

Há filmes que só querem ser entretenimento vazio: uma bobajada divertida e repleta de ação. Há também os que se propõem, apesar da ação e da violência, a ser mais profundos e trabalhar temas relevantes para a sociedade, ainda que de maneira um pouco rasa. Esse é o caso de Garotas Só Querem Vingança (Find Your Friends, 2025), longa de estreia da diretora Izabel Pakzad.

No deserto da Califórnia, cinco amigas embarcam em uma viagem de festas, excessos e loucuras. Mas a hostilidade dos moradores transforma a diversão em perigo e, quando tudo sai do controle, o fim de semana vira um acerto de contas.

Acima está a sinopse oficial de Garotas Só Querem Vingança no serviço de streaming Filmelier+, e eu acho importante citar essa questão porque a sinopse perde um pouco o ponto do longa. O filme é muito menos sobre a vingança em si, e muito mais sobre como mulheres vítimas de violência sexual são estigmatizadas pela sociedade, até mesmo por pessoas próximas. Esse recorte feito pelo filme é muito interessante, sendo o seu ponto alto. A forma como as amigas da protagonista Amber levam a vida, de maneira extremamente fútil e imediatista, cria um deslocamento de tom em relação à violência sofrida por ela. Isso ajuda muito na construção da tensão e joga luz sobre esse aspecto nefasto (entre tantos outros) que impera sobre vítimas de violência sexual. Além disso, colabora para a construção da protagonista: os conflitos e as dores pelas quais Amber está passando nos ajudam a nos conectar com ela, enquanto aprofundam a personagem, dando-lhe uma presença muito sólida dentro da história que o longa se propõe a contar.

No entanto, Garotas Só Querem Vingança tem dificuldade em utilizar seus temas para estruturar sua narrativa. A forma como o longa caminha para o clímax exigiria que as personagens que orbitam Amber fossem mais complexas, assim como é a protagonista. Cada uma das amigas é resumida a uma característica específica: Lavinia é a insuportável; Lola, a alienada; Maddy, a inabalável; e Zosia, a empática. Por serem extremamente unidimensionais, no momento em que elas não acolhem a dor de Amber pode ocorrer uma grande desconexão delas com o público, já que, com exceção de Zosia, nenhuma delas tem características redentoras. O que não seria um problema se não precisássemos torcer por elas no clímax. O filme aposta que a perseguição sofrida é tão horrível que iremos torcer por elas independentemente de simpatizarmos ou não. Isso até acontece — afinal, os caras que estão atrás delas são realmente nojentos —, mas a obra poderia ter ainda mais força se as amigas fossem mais multifacetadas.

Por outro lado, Garotas Só Querem Vingança acerta muito em criar um clima completamente hostil. Ficamos o tempo todo em alerta, esperando que as pessoas daquele deserto façam algo nefasto com as garotas. É verdade que o ambiente poderia ser um pouco mais vivo, como se a própria população, agindo como uma entidade, fosse uma força opressora. Isso é sugerido pelo roteiro, mas, na prática, parecem que as hostilidades são exercidas apenas por bandidos pontuais; de qualquer forma, os antagonistas são bem ameaçadores. Além disso, as cenas de violência são bem gráficas, o que dá peso e ajuda a nos mergulhar no clima de tensão que aquelas mulheres estão vivenciando.

No frigir dos ovos, Garotas Só Querem Vingança esbarra em suas limitações de estrutura narrativa e roteiro. Ao se propor a debater temas muito relevantes, acaba discutindo-os de maneira superficial e um pouco errática, principalmente por trazê-los à tona através de personagens tão unidimensionais. No entanto, ainda assim traz luz para um recorte importante dentro das dores de vítimas de violência de gênero, entregando um filme bastante efetivo em entreter e gerar tensão e reflexão.

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