Crítica: Eu, Christiane F. – 13 anos, drogada e prostituída, 40 anos depois

Em meados da década de 1970, a boate Sound, em Berlim, era a melhor discoteca da Europa. Lá jovens viviam noites de prazer, drogas e agito, entre eles, Christiane Vera Felscherinow, uma menina de 13 anos, que passa de urinar nos corredores dos prédios porque o elevador demorava a chegar, a usar os mais variados tipos de drogas, principalmente a heroína, com 14 anos já era uma dependente e, para sustentar seu vício, se prostituía na estação do Zoo em Berlim. Com 16 anos foi autuada por tráfico e consumo de drogas, mas sua curiosa e horripilante história chamou atenção dois jornalistas, Kai Hermann e Horst Hieck, que através de muitas entrevistas compilaram a vida de Christiane num livro, chamado Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, em 1978. No Brasil o livro foi lançado em 1982 com o título Eu, Christiane F. – 13 anos, drogada e prostituída. Aliás, virou quase um livro proibido, muitos pais tinham medo de que seus filhos o lessem e aprendessem com a jovem alemã o pior que ela passou. Na esteira do livro, saiu um cultuado filme, que completa 40 anos em 2022 e, com cópias restauradas, está passando em alguns cinemas do Brasil, Eu, Christiane F. – 13 anos, drogada e prostituída, que foi dirigido por Uli Edel, em 1981.

Christiane F. era apenas mais uma menina adolescente que sonhava em conhecer a discoteca Sound, mentia para a mãe, que trabalhava demais, que iria dormir em casas de amigas, mas ia pras noitadas, era apaixonada por David Bowie, tinha um pai ausente, e com 13 anos começou a usar vários tipos de drogas. Com 14 já eram, ela e seu namorado, completamente dominados pela heroína nos canos de suas veias, e para sustentar seu vício, a menina se viu obrigada a se prostituir na estão Zoo em Berlim, onde uma horda de zumbis dominados pelas drogas batia ponto atrás de grana pra satisfazer seus picados braços.

Confesso que, por experiência própria, quando assisti a esse filme, nos meados dos anos 1980, lendo o livro depois, ele me fez ter um medo tremendo de drogas pesadas. Ao invés de, como temiam os pais, ter o efeito de estimular o consumo de drogas, Christiane, ao menos para o meu núcleo de amigos, e para mim pessoalmente, fez eu ter asco com as drogas. Claro que heroína no Brasil era uma realidade um pouco distante. Impressiona, mesmo 40 anos depois do seu lançamento, o choque que é assistir o filme. Vivemos uma era de cracolândia, zumbis noiados, e meninas com 13, 14 anos se prostituindo em troca de pedra de crack, e o filme continua atualíssimo.

Um dos méritos do diretor foi saber escolher muito bem os jovens atores, que nos passam um realismo cru sobre aquela cinza Berlim dos anos 1970, uma cidade universal, mas ainda sem os ares modernos, vivendo com um muro que dividia um povo calejado por um passado perturbador. E essa geração, muito bem retratada pelos jovens atores, passava essa falta de esperança e frieza alemã, que buscava nas drogas e na heroína o prazer que logicamente vinha grudado na ruína. A fotografia com tons cinzas, com tomadas diretas, com closes realistas de como preparar a droga, as picadas, as seringas e como a dependência fazia aqueles jovens se perder completamente, até hoje impressiona. Natja Brunckhorst, com 15 anos, foi um achado para o papel. A menina, com sua brilhante atuação, mostra como Christiane passou daquela menina estudiosa, cheia de vida, com sonhos de viver tudo tão precocemente, em menos de dois anos ver tudo desabar com um vício frenético pela heroína. Detlev, seu namorado, vivido por Thomas Hausten, também tem o difícil papel do menino que, para suprir seus vícios, vira um michê de homens ricos e se prostitui com qualquer homem em troca de marcos para comprar suas doses. A cena em que o casal fica preso num quarto a fim de tentar se livrar das drogas, onde as crises de abstinência, os ataques e vômitos provocados pela falta da droga, com certeza, pode entrar pro rol de cenas mais aterrorizantes da história do cinema, tem que ter muito estômago pra aguentar aquele sofrimento tão bem retratado. A overdose de Christiane no banheiro também impressiona e angústia até hoje. E, é claro, o filme tem muito David Bowie, aliás, num show dele por 1975, 1976, que a menina cai pela primeira vez nas drogas, e no filme ele faz uma ponta antológica tocando Station to Station para uma hipnótica menina, com sua jaqueta com Bowie atrás. Músicas como V2 – Schneider, Tvc 15, Heroes, tanto em inglês quanto em alemão, Look Back Anger, e uma sombria Warsawa, que pontua cenas de tensão do filme com a fria e cinzenta Berlim de fundo, na época terra de Bowie, que fez sua trilogia clássica de discos por lá, uma química de trilha perfeita para tentar traduzir em som e imagem aquele drama que ceifava adolescentes alemães.

“Eu tenho total domínio sobre minha mente e jamais vou ser dependente’’, era o mantra da menina, até se afundar em mares de heroína, muito influenciada pela sua paixão juvenil por Detlev, seu namorado. Outro momento marcante do filme é na primeira ida de Chris à Sound, ela acaba numa cabine de cinema e está passando o filme A Noite dos Mortos Vivos, na cena em que a menina vira um zumbi, quase que uma premonição do que Christiane viveria nos próximos anos de sua vida, uma desesperada zumbi, que ao invés de cérebros, implorava e fazia qualquer coisa para ir atrás dos seus picos, quase um elixir de sobrevivência.

O filme ganhou um ar de cult muito forte, na época foi proibido para menores de 18 anos, mas com certeza, sem moralismos fáceis de lado, poderia servir de cartilha e ter que passar em escolas para mostrar pra molecada o quanto a degradação humana de um vício não poupa idade, cor, classe social ou sexo, serve como ilustração perfeita de como viramos reféns fáceis das drogas.

Eu, Christiane F. – 13 anos, drogada e prostituída continua sendo um soco direto no estômago, espanta pelo show de horrores que nos apresenta, é cru, direto, não poupa ninguém e mesmo quase 50 anos dos fatos, e 40 anos do lançamento do filme e do livro, tem um realismo poucas vezes visto no cinema, e tem o mérito de não glamourizar as drogas. Também não tem saídas redentoras para essa condição, o roteiro de Herman Weigel não aponta dedos, não cria culpados e não aponta soluções, se limita a contar a realidade que Uli Edel e seu elenco quase perfeito souberam materializar com esmero, em um filme que pode não ter os méritos técnicos brilhantes, mas é inesquecível e chocante, como o cinema deve ser. E até hoje onde vemos mortos vivos pelos cantos se digladiando, se prostituindo e roubando por pedras que satisfazem o ser humano por 5 minutos, é uma amostra que estamos longe de resolver os problemas e Christiane F. continua atual, dando choques, é duro de assistir, mas é extremamente essencial.

 

 

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