Um vulcão, uma cidade do leste europeu e uma paixão ardente. Em Erupcja (2025), o diretor Pete Ohs utiliza Varsóvia como uma incubadora da paixão entre Bethany e Nel. Assim como um vulcão em erupção, essa paixão, ao mesmo tempo que é bonita e marcante, pode arrasar tudo o que está em volta, machucando inocentes e até as próprias amantes.
Nel vive em Varsóvia, onde trabalha em uma floricultura. Quando sua amiga de infância Bethany chega para visitá-la com um novo namorado, um vulcão entra em erupção na Itália, impedindo que o casal saia da cidade. Conforme os dias vão passando, suas vidas amorosas tornam-se cada vez mais complicadas.

É muito interessante como Erupcja utiliza Varsóvia como uma ilustração do estado de espírito das personagens. No início do filme, enquanto acompanhamos Nel, a cinematografia do próprio Pete Ohs dá closes em copos de café, em flores, em detalhes arquitetônicos da cidade, mostrando não só a beleza, mas também o tédio das pequenas coisas da vida de Nel. Já quando acompanha Bethany chegando à cidade, Ohs filma a capital polonesa como uma grande metrópole agitada e em efervescência, quase ansiolítica, assim como Bethany está eternamente explodindo e agitando a vida de todos à sua volta.
A cinematografia não se reserva à cidade de Varsóvia quando o objetivo é representar visualmente quem são aqueles personagens e suas relações. As interações entre Bethany e seu namorado Rob são filmadas com frieza, em vários momentos não mostrando inclusive seus rostos. É parado, é chato. Diferentemente de como Ohs retrata a relação de Bethany e Nel, que é sempre de uma maneira quente, dinâmica, com cortes rápidos. Elas são filmadas muitas vezes em baladas, em volta de pessoas interessantes, se divertindo nas noites polonesas, enquanto Rob e Bethany são mostrados sempre em almoços desconfortáveis e situações levemente constrangedoras.
Erupcja então nos coloca junto aos personagens, como se estivéssemos em Varsóvia vivenciando aquela história ao lado deles. E isso não se dá apenas pela cinematografia, mas pela performance do elenco. O trabalho de atuação nesse longa é tão essencial que os atores Lena Góra, Charli XCX, Will Madden e Jeremy O. Harris são creditados como roteiristas do filme junto com Pete Ohs. As atuações são todas sutis e no ponto certo para transmitir a motivação de cada um. Lena Góra constrói uma paradoxal Nel, que é doce ao mesmo tempo egoísta, é decidida no imediato ao mesmo tempo que perdida na vida a longo prazo, enquanto Charli XCX nos entrega uma Bethany que é arrasadora e cativante por onde passa. Charli XCX inclusive é o grande destaque do filme, ela nos causa raiva e desconforto por seu individualismo, ao mesmo tempo em que nos cativa de uma maneira apaixonante por sua dominância. Nos causa inveja por ser livre, ao mesmo tempo que pena por nunca de fato se encontrar. Já Will Madden consegue acertar o ponto de um Rob inegavelmente “bonzinho”, mas que, realmente, é um pouco enfadonho, pelo menos para o que Bethany procura.
Erupcja é um filme pequeno, contido, mas que acerta em cheio ao nos emocionar. Não com uma emoção latente que um drama de época causa, mas uma emoção também contida em si mesma. O sentimento é de privilégio por poder visitar Varsóvia ao lado de personagens apaixonantes por suas complexidades e inconsistências.