Crítica: Eike – Ou Tudo ou Nada

Não me esqueço de um momento da história do Brasil, acho que na virada de 2011 pra 2012, enquanto 98 por cento dos brasileiros acordava com uma ressaca física, alcoólica ou moral das comemorações de ano novo, Eike Batista, o então oitavo maior milionário da Terra, com 30 bilhões de dólares, tuitava por volta das 8 da manhã do dia primeiro algo tipo: “Bora trabalhar que para vencer na vida não tem folga ou feriado”… Enfim, de tanto X nas suas empresas fake, tomadas de maracutaias, ele acabou num Xadrez bem grande, sendo preso em 2017, em um retrato de um Brasil que foi da bonança para a crise. Esse período, entre 2006 até a prisão do ex-bilionário, é retratado no filme dirigido por quatro mãos que será lançado nessa quinta, falo de Eike – Ou Tudo Ou Nada, de Andradina Azevedo e Dida Andrade.

O filme começa com um Eike ainda menino, na Alemanha, onde era obrigado a fazer exercícios em piscinas geladas, e que desde pequeno já ambicionava ganhar dinheiro. Damos um pulo para o Brasil dos anos 00, uma fase de esperança e esplendor econômico, onde o milionário Eike, figurão do Rio de Janeiro que conquistou sua fortuna através do minério, vê na exploração do pré-sal uma chance de dobrar, triplicar ou quadriplicar sua fortuna, investindo pesado no lobby para explorar essa nova galinha dos ovos de ouro dos oceanos do Brasil. Tomado por uma ambição desenfreada, cria a OGX, com intuito de produzir em tempo recorde mais petróleo que a Petrobras em 50 anos produziu e recruta um time de especialistas, da própria Petrobras e analistas de mercado para captar dinheiro, mesmo sabendo que o petróleo do pré-sal era apenas uma miragem, o que para Eike não era empecilho para usar qualquer recurso, mesmo que escuso ou sem escrúpulos, para enriquecer em sua desenfreada ambição.

Com roteiro das diretoras Andradina Azevedo e Dida Andrade, inspirada no livro Eike – Ou Tudo Ou Nada, da jornalista Malu Gaspar, o filme sobre a vida do magnata brasileiro é um retrato triste de um Brasil sem vergonha. Uma história recente, filmada de maneira moderna e extremamente didática, para a maioria dos leigos em economia entender o que se passou em 11 anos da ascensão e queda do ex-bilionário brasileiro. Mérito do filme, que ao invés de biografar o empresário, resolveu usar esse recorte entre 2006 até 2017, para ilustrar o quanto o homem, sua ganância e seu amor por poder podem fazer qualquer coisa para conquistá-lo. Usando uma montagem eficiente, humor no tom certo, algumas metáforas e alegorias e algumas cenas que lembram O Lobo de Wall Street, o filme é uma grata surpresa e prende muito a atenção, sabendo contar de uma maneira agradável e eficaz uma história tão recente e nebulosa de um Brasil que enriquece muitos à custa da pobreza de tantos.

Nelson de Freitas, através de um belo laboratório, onde emagreceu, pegou trejeitos, falas do personagem, superstições, nos passa um Eike Batista muito bem feito, em alguns momentos até parece o empresário falando, sempre com aquele sorriso no rosto na frente das câmeras, mas aquela desmedida e truculenta ambição fora de cena. Carol Castro tem uma ponta como a ex-mulher, Luma de Oliveira, em um momento que pouco serve a trama, servindo como refresco para a memória do brasileiro que conheceu o empresário nos anos 1980, apenas como um milionário marido da Luma, rainha de bateria que usava um colar com seu nome no pescoço como se fosse uma coleira, um devaneio do filme em que Eike, por mais dinheiro que tivesse, ainda não tinha luz própria, que foi conquistando sim nos anos 2000. Isabel Fillardis (como jornalista), Juliana Alves, Bukassa Kabengele, Thelmo Fernandes e Xando Graça fazem o papel do staff do empresário na OGX, com os nomes trocados, vão aos poucos da euforia do sonho bilionário até a decepção de estarem fazendo parte de projeto totalmente enganoso, uma aposta sem graça que afetou tanto a economia de um país, quanto a de anônimos que apostaram suas escassas poupanças comprando títulos da empresa e perdendo tudo com a pulverização das ações. Um personagem pai de família que resolve até pegar emprestado dinheiro do sogro pra investir é retratado como um desses milhões que resolveram apostar todas suas fichas na bolsa de valores e acabaram quebrando a cara.

De uma maneira divertida e dinâmica, as diretoras nos explanam como funciona o capitalismo, como são os investimentos da bolsa, como os grandes enriquecem e como que com dinheiro se pode comprar desde técnicos ambientais, pequenas autoridades ou até gente da política peixe grande como governadores e, no caso, gente da própria Petrobras, em um país que basta ter dinheiro e contatos que esse dinheiro triplica facilmente. No caso de Eike, bastou ter as pessoas certas do lado e criar um boato, uma falsa expectativa e iludir uma nação para enriquecer instantaneamente e se tornar um exemplo de brasileiro. Que de orgulho nacional em anos virou um picareta falido, presidiário, enganador, mas que jamais perde a crista, sempre julgando ter feito o certo. Talvez o único problema do filme é que elas nunca chegam a retratar Eike como um perverso capitalista, mostram seus devaneios e como queria de tudo para ganhar dinheiro, mas às vezes parece que é tudo muito ingênuo e ficamos até com certa pena do empresário, que apesar de falir muita gente, parecia que sempre queria acertar. Enfim, elas deixam a personalidade dele em aberto, procuram apenas jogar os fatos de uma maneira lúcida e explicativa nas telas, não tomando partido nem para o bem nem para o mal.

Eike – Ou Tudo Ou Nada é um filme até corajoso pro momento, é um exemplo de uma era de um país que surfou numa onda de prosperidade, contudo jamais teve lastro pra pagar essa conta. Eike Batista talvez tenha sido esse exemplo maior, um homem mimado, que não aceitava um não, viciado em dinheiro e não media esforços para conquistar o que queria ou que o  dinheiro pudesse comprar, tudo isso filmado com esmero, em um tom divertido, com uma edição moderna e usando artifícios e narrações para tentar explicar o que foi esse império dos X. Não tenta explicar o que realmente é Eike Batista, mas consegue mostrar o quanto o rei estava realmente nu e parecia vender esperanças e prosperidades para a nação. Bela pedida!

 

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