Crítica-Digger

  Em uma crise global iminente onde uma tragédia climática provocada pela ganância humana está batendo às portas, vários homens poderosos como o presidente dos Estados Unidos, alguns militares e o magnata do petróleo Digger Rockwell estão reunidos em uma sala na casa do empresário. Um deles faz uma piada machista e outro presente reprime dizendo: e as mulheres do recinto? Os presentes se olham e veem que logicamente a ausência de mulheres é uma realidade e começam a gargalhar sem parar. Uma sátira em tom de farsa que atira para todos os lados contra a hipocrisia do ser humano é o combustível de Digger (idem, 2026) o novo filme Alejandro G Inarritu.

  O filme nos apresenta Digger Rockwell, um herdeiro magnata do petróleo, que tem uma gata com 38 anos de vida mantida quase que como um zumbi e não mede esforços para ganhar mais dinheiro. Em uma das suas explorações em busca do óleo negro pelo Ártico, ela acaba causando um rompimento de uma geleira que pode devastar a Europa e Digger e os homens do poder tem a missão de limpar a sua barra mesmo que sua empresa é causadora de um genocídio. E paramos por aí. Os detalhes da sinopse são o de menos, nessa incrível paródia política que tem a coragem em forma de uma metralhadora descontrolada, de não poupar  nenhum lado da insensatez do ser humano.

   Digger tem um roteiro escrito a oito mãos, a do próprio diretor, somadas a de Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Sabina Berman que nos apresenta em tom de deboche a personificação do pior dos seres humanos Digger Rockwell. Ele tem todos as características clichês dos bilionários: ele é excêntrico, vive de um passado onde exalta a meritocracia familiar, intimida as pessoas só com seu olhar, tem quase ou mais  importância de um presidente dos Estados Unidos e como grande parte dos magnatas, acha que é dono do mundo. E é tão dono que devido à sua desmedida ambição arrasa com metade dele. E para contar essa história Inarritu flerta mais uma vez com os planos ousados e sequências teatrais lembrando por vezes Birdman( 2014) aliados a uma fotografia por vezes pálida e sem vida, ressaltando a frieza e a trajetória  vazia do personagem e de uma sociedade que brada demais, mas age de menos. E o tom farsesco do filme, um teatro do absurdo que usa e abusa de clichês e caricaturas dos desmandos de poderosos de hoje em dia, por vezes lembra também a loucura dos cavaleiros do apocalipse de Doutor Fantástico (1964). Só que se no filme de  Kubrick a destruição seria provocada por militares enlouquecidos, em Digger, mostra que o conluio de políticos, bilionários, militares e até progressistas, pode ser responsável por colocarem fogo no parquinho.

 John Goodman faz um sátira ao pior dos presidentes estadunidenses, como Compson. Com um cérebro limitado é facilmente dominado por seus assessores, militares, Digger e seu pastor religioso de ocasião, num retrato de uma América que primeiro se joga a bomba e depois se fazem as perguntas em nome do progresso e de Deus. Ganesh ,interpretado por Riz Ahmed, um cientista progressista do meio ambiente, até tem boas ideias mas acaba cooptado pelo sistema e perde literalmente o freio, jogando tudo pelos ares. Sandra Huller faz a meia irmã de Digger em papel mais discreto e o ótimo Jesse Plemons é Kenny.

 Mas o filme, como já anuncia o seu título, é de Digger. Ou melhor dizendo de Tom Cruise. Difícil a gente querer que um cara que há mais de quarenta anos em diversos papeis de tudo que é estilo  e um arrasa quarteirão de bilheterias, precise ainda nos provar algo. Mas Tom Cruise se entrega de corpo( literalmente) e alma num exótico personagem que é uma crítica perfeita ao pior do ser humano. Mas talvez o grande mérito do Digger de Tom, seja que por mais óbvio que pareça ser interpretar uma sátira de um grande magnata com todos aqueles clichês pavorosos deles, o ator  consegue fugir do meio comum abusando de monólogos, poder de persuasão no melhor estilo coach e reflexões dúbias. E se temos uma cena que coloca o ator como possível ganhador de prêmios é o memorável discurso no parlamento europeu pós tragédia global. Lá ele expõe de maneira enfática e teatral todas as feridas de uma sociedade hipócrita que por mais que saiba quem são seus inimigos e tem suas causas virtuosas, pouco sabe como combater seus inimigos. Acaba muitas vezes conivente e passiva com os desmandos do poder e suas benesses. Uma atuação entre próteses e maquiagem pesada, carregada de talento e profundidade. Não sei se é sua melhor performance da carreira, mas com certeza é uma das melhores atuações do ano.

  Digger pode ter se perdido um pouco na sua pretensão e reviravoltas, se tivesse segurado a farsa sem apelar para surpresas, forçando o nonsense e o absurdo. Quem sabe até teríamos um moderno e necessário novo Doutor Fantástico. Mas essas decisões não  apagam o brilho do filme, uma crítica satírica sem freios a um pouco admirável, atual e real mundo .Um espelho do absurdo que presenciamos hoje em dia em um planeta onde governantes misturam suas vaidades, crenças, ideologias, poderio econômico e bizarrices em busca de glória e progresso. E grande parte da população só tem como arma a vaia ou o aplauso, assistindo passivamente e sem reação a um mundo cada vez mais cheio de goteiras sem solução como em algumas cenas do filme e que haja baldes para segurar essa dura realidade.

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