Crítica: Clube dos Vândalos

Filmes de motocicletas sempre fizeram sucesso no cinemão dos Estados Unidos. Marlon Brando, nos anos 1950, chocou as audiências no filme O Selvagem. Roger Corman também nos proporcionou grandes pérolas do gênero sobre duas rodas como Wild Angels. Existe uma teoria que o cinema da América foi salvo por um filme que virou ícone sobre a liberdade sobre as duas rodas, o clássico Easy Rider, de 1969. E no ronco inebriante das motocicletas, Jeff Nichols dirigiu um filme que conta a ascensão e queda de um grupo de motociclistas em Chicago, estou falando de Clube dos Vândalos (The Bikeriders, 2023), estreia da semana nos cinemas.

O filme é narrado quase em tom de documentário jornalístico, os dias em que Danny Lyon passou a registrar em fotos e entrevistas um clube de motociclistas de Chicago, o Chicago Outlaw Motorcycle Club. Clube criado em meados dos anos 1960 por Johnny, a cada ano reunia mais adeptos para suas jornadas em estradas sobre duas rodas, regadas à velocidade, bebida, brigas e um sentimento de irmandade. Conta também o conturbado e apaixonado relacionamento do rebelde Bennie com Kathy pelo passar dos anos. Tempos que também marcam as transformações do clube, que daquela irmandade unida, com regras um tanto quanto invisíveis mas sagradas e respeitadas, e que com tempo passam a se perder com a chegada de  novos adeptos, com ideias diferentes que acabam acelerando o fim os anos de ouro do grupo e abrindo uma era violenta do movimento.

Clube dos Vândalos é um péssimo título nacional para um bom filme. Gratíssima surpresa com direção e roteiro de Jeff Nichols, baseado no livro de fotografia e reportagem de Danny Lyon, é um retrato cru, direto e realista de um lado obscuro dos anos 1960. Sem aquela romantização que transforma muitos rebeldes sem causa em heróis modernos, o filme consegue nos passar de uma maneira amarga e em tintas realistas aquele mundo de um clube de motociclistas. Numa atmosfera regada a fumaça, álcool e pneus queimando, onde homens de todas as idades se reuniam para jornadas cortando vias e asfalto, sem uma motivação definida, unidos por símbolos como jaquetas e regras não definidas, mas seguidas rigorosamente pelo bando.

O filme tem o mérito de entrelaçar a história do tal clube de vândalos com três personagens. Austin Butler dá seu ar como Benny. Usando e abusando de clichês, faz um papel mais do mesmo, mas que é salvo por seu carisma e talento, apesar de parecer que misturou todos os rebeldes selvagens do cinema, deu uma pitada de Elvis e criou seu personagem. Jodie Comer como a esposa de Benny, Kathy, esbanja talento como a faladora e corajosa mulher que larga tudo para ficar com o errante marido. Como o filme é contado muito pelo seu ponto de vista através das entrevistas a Danny, o jovem jornalista, Kathy tem um brilho próprio e com sua expressiva atuação tem grandes momentos na película. Mas é Tom Hardy, como Johnny, o chefão dos motociclistas, que tem a grande atuação do filme. A transformação de um pacato trabalhador, pai de família, em um líder de motociclistas temidos de Chicago, faz da atuação de Hardy o ponto alto do filme. Mesmo com seu jeito discreto mas fielmente respeitado, Johnny, como um lider das antigas, consegue comandar um bando de porra loucas com uma sutil disciplina e uma camaradagem exemplar.

O filme também se destaca por não abusar demais de uma trilha sonora constante. Usa rocks clássicos no tempo certo, pontuando cenas conforme a necessidade. Já a violência do filme não faz economia, mostrando com crueza uma vida de vendetas, brigas sem sentido, e no final da era de ouro dos motocicletas, a desenfreada ida do movimento para o crime, tudo isso em imagens inclementes e diretas. E outro mérito da trama é que apesar de falar de motos, não abusa de cenas de velocidade, ação frenética, e sim, chega a ter um ritmo arrastado na primeira parte e engata de vez na trama do meio pro fim, com seu emaranhado de histórias e personagens, num estilo Scorscesiano de contar uma boa história.

Clube dos Vândalos (eta nome ruim) chega tardiamente aos nossos cinemas, mas merece ser conferido. Um retrato de uma América que enterrava seus sonhos límpidos de perfeição e os motociclistas e suas velozes máquinas de duas rodas, com seu hedonismo e ausência de ideais, mas nutridos por amizade, muito álcool e liberdade, varriam as estradas dos Estados Unidos, muitos sem destino, em um viagem sem volta.

 

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