Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, 2026) é um filho da internet. O conceito de backrooms, um labirinto infinito de salas e escritórios vazios em uma espécie de dimensão alternativa, surgiu em uma creepypasta, que nada mais é do que uma lenda urbana da internet. O diretor Kane Parsons então, em 2022, criou uma série de curtas lançados no YouTube baseados nessa lenda. A série foi um absoluto sucesso; para se ter uma ideia, o primeiro episódio dela já tem 92 milhões de visualizações. Não à toa, em 2023, Parsons, com apenas 18 anos, foi contratado para adaptar a série viral a um longa-metragem para os cinemas.
Quando Clark acha um portal no porão de sua loja de móveis, que o leva para uma dimensão paralela, as backrooms, sua terapeuta, Dra. Mary Kline, é forçada a enfrentar o desconhecido para trazer seu paciente desaparecido de volta ao mundo real.

O grande trunfo de Backrooms é a forma como Parsons constrói a tensão crescente durante a exploração dessa dimensão bizarra. As salas vazias e gigantescas, configuradas em um desenho arquitetônico que não faz o menor sentido, nos dão uma sensação de estranhamento esmagador. Além disso, Parsons faz uma ótima escolha em nos mostrar, na primeira cena do filme, que há um monstro naquela dimensão; desta forma, quando Clark entra nas backrooms, nós já sabemos que ali não há apenas salas vazias e sinistras, mas que há um perigo maior espreitando o personagem. A cinematografia é peça fundamental para a construção dessa tensão. Toda vez que a câmera muda para um “POV”, o filme se torna aterrorizante, porque nos coloca no centro do perigo e do mistério. Parsons utiliza muito bem os designs das salas, pois com seus cantos e quinas nunca conseguimos ter uma visão aberta dos ambientes, e sabemos que sempre pode haver algo extremamente perigoso nas sombras.
Visualmente, Backrooms funciona perfeitamente, com todos os aspectos técnicos se somando para chegar ao resultado esperado: seu design de produção, sua cinematografia e sua direção. Parsons e o diretor de fotografia Jeremy Cox foram cirúrgicos nas escolhas de como cada take seria construído. As cenas que são filmadas em fitas VHS, por exemplo, dão um aspecto retrô muito charmoso ao filme e nos remetem imediatamente à websérie. Os cenários das backrooms são criativos e não caem em uma repetição enfadonha, porque em cada sala há alguma coisa bizarra e interessante que soma ao mistério e à tensão a que nós estamos submetidos.
No entanto, a dúvida inicial era se a série de curtas poderia funcionar como um longa-metragem. Como já dito anteriormente, em vários aspectos funciona, porém em outros, como no desenvolvimento dos personagens ou na construção de um clímax empolgante, a coisa muda um pouco de figura. O roteiro de Will Soodik tenta dar alguma profundidade aos personagens, dando-lhes traumas e inseguranças, mas a verdade é que nada é muito bem desenvolvido de fato, e acaba que essas questões parecem distrações em relação ao que realmente interessa ao filme, que é a exploração das backrooms. Chiwetel Ejiofor, no papel de Clark, e Renate Reinsve, no papel de Dra. Mary Kline, estão ótimos como sempre e seguram o carisma desses personagens na unha. Se a gente se importa minimamente com essas pessoas, é porque elas são Ejiofor e Reinsve, e por nenhum outro motivo. Até porque não é possível sentir o peso, dentro das backrooms, das questões tratadas nas sessões de terapia entre os dois ou dos flashbacks do passado traumatizante da terapeuta. Parecem dois filmes distintos: os dramas de Clark e Mary, e Backrooms; e quando esses dois filmes tentam conversar, o resultado é uma reflexão rasa, chata e sem peso algum.
Se nos curtas seria possível terminar a história com um final mais aberto, mais misterioso, ao se tornar um longa-metragem para o cinema, fez-se necessário criar um clímax mais cinematográfico para Backrooms. Uma conclusão que, se não respondesse a grandes perguntas, pelo menos parecesse o fechamento de um arco narrativo. O problema é que os arcos criados pelo roteiro para os personagens são fraquíssimos; desta forma, o clímax do filme se torna absolutamente vazio.
E para piorar, se o filme, ao longo de boa parte de sua duração, se escora, com muito sucesso, no mistério, nas sombras e no que não está sendo visto, em sua parte final Parsons decide jogar tudo isso fora e escancarar os perigos das backrooms de uma maneira boboca: ele mostra o monstro às claras e transforma todo o segmento final em Mary tentando escapar dessa entidade. Essa escolha até poderia funcionar, se não tivesse sido executada de uma forma boba e sem graça. O monstro é bizarro, mas é também muito cafona, e a perseguição em si é pouco criativa e muito abaixo do nível que o próprio filme tinha estabelecido em termos de tensão e estranheza.
No final das contas, o saldo é positivo, e a experiência de assistir Backrooms é boa, sobretudo por sua cinematografia, pelo design de produção e pela criatividade com que Kane Parsons constrói boa parte do longa. No entanto, o filme deixa um sentimento de decepção com o roteiro e, principalmente, com sua conclusão. Talvez seja muito mais legal a história de como Backrooms: Um Não-Lugar surgiu da internet, da mente de um criador de apenas 16 anos, e virou um filme de enorme sucesso de bilheteria e crítica, do que a história contada pelo roteiro do filme em si.