Crítica: Aqueles que me Desejam a Morte

Como esquecer 2020? Além de ser o ano que o mundo parou devido à pandemia do coronavírus, foi um ano marcado pelo fogo. Os Estados Unidos, mais precisamente o estado da Califórnia, sofreu com intensas queimadas que devastaram 16 mil hectares de vegetação. Com mais de oito mil focos de incêndio foi preciso mais de 20 mil bombeiros em ação para amenizar as intensas labaredas que provocaram mais de 30 mortes, destruição e um céu alaranjado peculiar que se não fosse trágico seria belo. Negligência humana? Torres de eletricidade como focos de queimada? Seca ou excesso de rajadas de vento foram aperitivos perfeitos para essa hecatombe da natureza na terra do tio Sam, que marcou o ano mais esquecível da humanidade (até agora). Esse cotidiano dos bombeiros florestais, dessa vez nos parques silvestres de Montana, misturada a uma empolgante história de sobrevivência e fuga, é a premissa do filme Aqueles que me Desejam a Morte (Those Who Wish me Dead, 2021), dirigido por Taylor Sheridan que estreia nos cinemas essa semana.

O filme junta dois núcleos. Primeiro descobrimos que Owen e seu filho Connor correm grande perigo porque Owen sabe demais, então passam a ser perseguidos por dois assassinos profissionais que tem a missão de apagar pai e filho. Os dois resolvem fugir e partir para o interior de Montana onde mora seu ex-cunhado, xerife do condado, Ethan. No condado fica um parque florestal onde a ex-namorada de Ethan, Hannah, trabalha como bombeira florestal, com traumas de uma missão que falhou no passado, e que hoje é responsável pela torre de vigilância do parque. No caminho, Owen é assassinado pela dupla de matadores, mas Connor consegue fugir pelas florestas e acaba encontrando Hannah, que passa a proteger o garoto. Juntos têm que fugir da implacável perseguição da sanguinária dupla e ao mesmo tempo enfrentar um terrível incêndio florestal que se aproxima.

Adaptação do livro de MIcheal Koryta, que com mais quatro mãos transpôs sua obra para as telonas, Aqueles que me Desejam a Morte é uma gratíssima surpresa em um marasmo de filmes recentes totalmente desprezíveis. Taylor Sheridan tem uma ótima direção, conduzindo o filme num excelente tom, misturando muita violência, suspense, efeitos visuais robustos e uma história direta que tem o mérito de prender o espectador. Com pitadas de filmes de ação dos anos 1990, não temos como não torcermos pelos mocinhos do filme na disputa de gato e rato que é a perseguição da dupla de assassinos Jack e Patrick ao menino Connor, defendido arduamente por Hannah. Aliás, fazia tempo que o cinema não nos apresentava dois psicopatas tão cruéis que, por ordens ocultas, são capazes de fazer tudo para completar sua missão e o quanto torcemos para eles serem vingados e se darem mal. O roteiro pode ser considerado previsível, abusa de clichês, e talvez para uns pareça demorar a engrenar, mas a história consegue com seu jeito despretensioso e intenso, fazer o filme ser um excelente programa pipoca, sem grandes pretensões, porém excelente entretenimento.

O elenco talvez seja um dos acertos que fizeram a química do filme fluir intensamente. Angelina Jolie, como a traumatizada bombeira florestal Hannah, que se esmera para se redimir e proteger o menino Connor, está muito bem desempenhando seu papel visceral característico. Finn Little, que interpreta o menino, também nos apresenta uma intensa, sofrida e corajosa atuação. A dupla de assassinos, Nicholas Hoult e Aidan GIllen, consegue passar uma frieza e temor sem serem caricatos como há tempos não se via na telona, quase burocratas da violência. Destaque também para Medina Senghore como Alisson, esposa do xerife Ethan, que enfrenta com coragem ímpar os assassinos e tem uma cena sensacional num embate com Jack, que lembra os grandes faroestes do passado. Joe Bernthal como Ethan completa o afinado elenco.

Acredito, infelizmente, que o nome do filme, milagrosamente traduzido ao pé da letra do inglês, possa dar uma impressão negativa e afugentar o espectador. Esse é o tipo de caso que um nome sem noção em português poderia trazer mais gente para querer conferir o filme. Enfim, Aqueles que me Desejam a Morte é um grande achado, típico suspense, meio neo western com doses de crua violência, pitadas de cinema de ação do fim dos anos 1980 e meados dos 1990, com um elenco que entrou no clima do filme e uma história que nos remete ao tempo em que torcíamos para o mocinho acabar com o bandido e, de preferência, aniquilá-lo de uma vez sem dó e piedade. Confiram sem moderação e aproveitem o prazer de termos cinemas abertos!

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