Sarah Bernhardt foi uma das primeiras grandes estrelas da atuação. Durante o século XIX, a atriz fez diversas turnês teatrais pelo mundo, além de ser uma das pioneiras do cinema no início do século XX. Em A Divina Sarah Bernhardt (Sarah Bernhardt, La Divine, 2024), a atriz Sandrine Kiberlain dá vida a essa lenda das artes de maneira visceralmente apaixonada.
Em Paris, 1896, Sarah Bernhardt está no auge de sua glória. Ícone de sua época e considerada a primeira estrela mundial, a atriz é também uma mulher livre e moderna, excêntrica aos olhos da sociedade por desafiar as convenções. Vinte anos depois, enquanto Sarah se recupera de uma cirurgia à qual foi submetida, flashbacks nos mostram momentos-chave da vida da atriz.

A Divina Sarah Bernhardt acerta ao fazer um recorte muito específico da personalidade de sua biografada. O filme mostra basicamente dois momentos: o pós-cirurgia de Sarah, em 1916, e as lembranças que ela tem do Journée de Sarah Bernhardt (em tradução livre: O Dia de Sarah Bernhardt), um evento ocorrido vinte anos antes em que a atriz recebeu uma homenagem nacional. O diretor Guillaume Nicloux e a roteirista Nathalie Leuthreau decidem que, mais do que fazer um filme no estilo “tópicos de Wikipédia”, eles querem retratar a personalidade rebelde e progressista de Sarah; então, condensam vários acontecimentos que dão conta desse aspecto de sua personalidade. E funciona, porque o longa sabe sobre o que quer discutir e segue essa linha de maneira muito clara, sem perder o foco. Destacando principalmente os relacionamentos da atriz, o filme consegue retratá-la como uma mulher apaixonada por viver da maneira que quer, independentemente da forma como a sociedade possa julgá-la.
Apesar de funcionar, é importante que se diga que o roteiro fica no limite de resumir Sarah Bernhardt a apenas uma mulher excêntrica e emocionalmente instável. O recorte é acertado, mas o roteiro poderia ter aprofundado um pouco mais as complexidades de Sarah, contando mais sobre seus interesses para além da vida profissional e afetiva, mais sobre suas motivações, e até mesmo investigando melhor qual era a visão dela sobre o impacto monumental que ela mesma causava no final do século XIX. A maneira como ela lidava livremente com o sexo e as relações afetivas é obviamente importantíssima, ainda mais pela época em que ela tinha esse posicionamento; porém, isso não significa que a atriz deva ser resumida apenas a isso e ao sofrimento de um coração partido.
De qualquer forma, com todos os poréns, o retrato de Sarah Bernhardt feito pelo longa é extremamente potente, e muito do mérito deve ser dado a Sandrine Kiberlain. Nunca é fácil dar vida a uma lenda; no entanto, Kiberlain consegue protagonizar o longa com maestria. Além de tecnicamente perfeita, a atriz retrata uma Sarah Bernhardt que preenche a tela de uma forma impressionante e, ao mesmo tempo, muito crível. Ela nos faz acreditar que estamos vendo a verdadeira Bernhardt ali em tela — ou, pelo menos, a melhor representação possível dela. E não se trata exatamente de precisão histórica; afinal, para retratar uma figura com tão poucos registros em vídeo, há uma boa dose de interpretação, ainda que tenha existido um esforço de estudo nesse sentido. O que Kiberlain consegue mesmo é dar vida à ideia do que Sarah Bernhardt representa para a sociedade.
Vale destacar também o trabalho de design de produção, que retrata o final do século XIX de maneira muito palpável. A produção inteligentemente pensou o filme quase todo em locações internas, onde a equipe pôde ter um controle muito maior ao recriar essa época. Os cenários, os figurinos, os adereços: tudo é muito bem feito e efetivo para nos transportar ao final da Belle Époque. Inclusive, o design de produção consegue mostrar de maneira muito sutil o crepúsculo dessa era da história francesa, quando comparamos o glamour das lembranças de 1896 ao desgaste de todos esses aspectos visuais no presente da personagem em 1916, o que acaba refletindo o contraste do que essas duas épocas representam para a vida e para a identidade dela.
A Divina Sarah Bernhardt é um filme que extrai toda a sua potência do retrato de uma lenda. Com uma atuação muito forte e um recorte bem executado, é, de maneira geral, uma obra importante para jogar luz sobre uma figura incontornável para a arte mundial, que nem sempre é tão lembrada quanto deveria.