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MÚSICA

Cidade Negra – Araújo Vianna

Cidade Negra – Araújo Vianna
  • Publishedjulho 15, 2026

O reggae no Brasil tem suas origens nos anos 1970. A conexão Jamaica-Maranhão e Pará fez um link entre o ritmo e o norte do país, mas foram as vindas de Jimmy Cliff e Bob Marley e a versão de Gilberto Gil para No Woman No Cry que o mainstream começou a olhar para  a música da ilha do caribe. Vamos Fugir, sucesso de 1983 do mesmo Gil, teve direito a The Wailers gravarem o instrumental e estourar no Brasil inteiro. Os Paralamas flertaram com o reggae, na Bahia, Edson Gomes se tornou ídolo do gênero além do pioneirismo. No fim dos anos 1980 e início dos 1990 o reggae internacional já tomava o Brasil inteiro com seus dubs pulsantes e guitarras marcadas e o Skank, da leva do rock dos 90, foi fundamental para  ligar o reggae nacional ao grande público. 

Mas uma banda surgida em Belford Roxo em 1986 com Rás Bernardo, Lazão, Bino e Da Ghama foi quem transformou o reggae nacional em referência. O disco Lute para Viver, de 1991, com o hit Falar a Verdade, mostrou que o Brasil sabia fazer reggae. Veio então o disco Negro no Poder que foi mais bombástico que o primeiro, mas menos midiático, fato que fez Rás Bernardo sair da banda e eles trouxerem Toni Garrido, ex banda Bel. Fato que, em 1994, o disco Sobre Todas as Forças transformou a banda num sucesso nacional, com seus inúmeros hits e mesmo assumindo uma sonoridade mais pop, mas não deixando a essência reggae de lado, fizeram do Cidade Negra a maior banda de reggae do Brasil. 

Os anos passaram, a banda emplacou muitos sucessos, discos e rupturas. A banda se dividiu, mas Toni Garrido, em 2025, com Bino Farias, reativaram o grupo para comemorar os 30 anos do primeiro disco com Toni na banda. Logicamente, se comemora isso fazendo tour pelo Brasil, e sábado passado o Cidade Negra, ou metade dela, se apresentou no Araújo Vianna e eu conto aqui embaixo como foi esse icônico show.

Todo mundo sempre espera alguma coisa de um sábado à noite, e as 3.200 pessoas que lotavam o Auditório mais emblemático da cidade queriam uma noite de reggae, sucesso, e é claro, muita nostalgia. Com um leve atraso, Toni Garrido e Bino, acompanhados por uma big band com sopros, teclados e backing vocals, tendo um telão com imagens vivas e coloridas ao fundo, abriram a reggae party com Pensamento, sucesso do aclamado disco de 1994.       

Poucas vezes tinha presenciado, em dezenas de coberturas, uma plateia tão animada e já levantada na primeira música. E não tinha como sentar, ainda mais com na sequência sermos brindados com, na minha humilde opinião, umas das melhores músicas da banda, Dowtown, que foi uma parceria com Shabba Ranks e uma ode ao reggae. O baile segue com Minha Irmã, do disco de 1994, e a plateia enlouquece de vez com a explosiva  Querem Meu Sangue. Mucama fecha mais uma do clássico álbum, mas como nem se podia respirar direito, eles atacam de Estrada, aquelas dos versos de “Você não sabe o quanto eu caminhei”, mais uma cantada fortemente pela plateia encantada. Bino Farias é um dos melhores contrabaixistas de reggae, esbanja performance e simpatia e Toni Garrido é um pop star, comanda a plateia com sua suave voz, que sabe conduzir tanto reggaes poderosos como canções mais românticas.

O público estava tão animado que até Minha Jóia, parceria deles com o Forfun, e Perto de Deus, canções menos famosas, funcionaram muito bem, e não motivou ninguém para ir ao banheiro ou comprar bebida. Mas o que veio em sequência foi covardia e de deixar qualquer fã ou amante da boa música animado. Firmamento, O Erê (aquele que tem que estar moleque), Ponto de Mutação e a lindíssima versão deles para A Lua e Eu, de Cassiano, foi aquecimento  para um dos momentos mais lindos que presenciei no Araújo. Onde Você Mora?, de Nando Reis, e sucesso absoluto do Cidade, fez todo mundo cantar junto, chorar e se emocionar. Valeu o ingresso para quem pagou, uma lição de boa música.

Outra pedrada, Johnny B Goode, de 2002, fez o Araújo cantar junto com a história do Johnny da baixada. E teve espaço pra canções novas, como Patuá, que seguiu o show com boa aceitação, mas o prumo da nostalgia voltou com a divertida Doutor, de 1994. Podes Crer e Você Nao Me Parou seguiram o baile, mas a apoteose veio com Girassol. Polêmicas à parte, com mudanças de letra para novos tempos, Toni Garrido já com as melenas soltas e sem óculos escuros, arrepiou a massa naqueles momentos que ficam pra eternidade dos corações e mentes de quem presencia. Sábado à Noite outro mega sucesso fez todo mundo dançar e ficarem satisfeitos de serem premiados com um belo sábado a noite. Esse foi um dos shows que todo mundo ficou de pé o tempo todo e pra findar a noite mais um sucesso arrasa quarteirão, A Sombra da Maldade. Findado o show, Toni Garrido faz questão de apresentar toda a banda, com Elber Santiago na bateria, Caesar Barbosa na guitarra e nos teclados Alex Meireles. Mas mais do que apresentar a banda, fez referências para toda a equipe, desde os roadies, produtores e a técnica, numa exaltação a quem faz o show acontecer de verdade. 

E depois de uma breve saída, a banda voltou para um inusitado e improvisado bis, onde pediam pro povo escolherem as músicas, então saíram canções como Casa, mas quem fechou esse valoroso espetáculo foi Enquanto o Mundo Gira, com a dupla Garrido e Bino emocionados com tanto carinho do povo gaúcho com a banda carioca.

Como Toni Garrido falou no show, se para ele foi surpresa tocar reggae no Sul em 1994, era mais uma falta de conhecimento perdoável dele, já que o Rio Grande do Sul, além de amar o reggae desde os primórdios, é um celeiro de bandas ótimas como Produto Nacional,  Sintonize, Armandinho, entre outros. Mas voltando ao show, as palavras são poucas para definir a história da noite de sábado passado, onde vivemos uma viagem no tempo, num dos shows com mais energia e boas vibrações que presenciei na nossa nave espacial pousada no Parque da Redenção. Por mais que fosse muito melhor a banda ter menos litígios com os ótimos Lazão e Da Ghama, Toni e Bino mantém o legado firme de 40 anos do grupo. E confesso que não tem como não ficar feliz em ouvir aqueles “Cidade Negra” na voz do Shabba Ranks, que está ate hoje na nossa memória dos anos 90 e trinta anos depois nos faz sorrir novamente.

Written By
Lauro Roth