Bryan Adams – Roll With The Punches Tour – Araújo Vianna
Como sempre falo: o artista só está aí lotando shows, vivendo de sua arte, se alguém compra e valoriza a sua arte. O público é quem comanda o artista, sem ele nada acontece. Quarta-feira passada presenciamos no Auditório Araújo Vianna um dos espetáculos de maior conexão entre atração e público, quase uma quebra de quarta parede e essa experiência não veio de uma estrela nacional e sim de um dos cantores mais famosos do mundo, com milhões de discos vendidos e uma carreira de quase 50 anos. Falo do canadense Bryan Adams que proporcionou, com seu talento, simpatia, e é claro, muita música boa, um dos maiores shows que o Araújo Vianna recebeu. O NoSet esteve lá e contará como foi essa catarse nas próximas linhas.
Depois de três shows pelo Brasil, chegou a vez do cantor desembarcar em Porto Alegre para apresentar a turnê Roll With The Punches para os gaúchos. O nome vem do décimo-sexto álbum de estúdio do artista. Nos shows anteriores tínhamos a informação que ele iria começar o show literalmente no meio da galera. Um praticável estava pelo meio do auditório, dando a pista que seria ali que começaria o show. Por volta das 21h20min, ao soar um gongo (no ritmo do nome da tour), surge o cantor com um pedestal, munido de um violão e começa a cantar Can’t Stop This Thing We Started, de 1991. Eu fiquei a três metros do artista, e ele com total tranquilidade, com um ou dois seguranças em distância boa para conter possíveis interferências, leve e solto, cantou ali mesmo no meio da galera. Segue ali com a linda Straight From The Heart do álbum Cuts Like A Knife, de 1983, e fechou esse inusitado e histórico início de show com Let’s Make A Night To Remember, balada de 1996.






Com o público em êxtase ainda, ele surge imediatamente no palco do Araújo e começa uma aula de como comandar uma plateia, com um caminhão de hits de 40 décadas de carreira. Se juntou ao guitarrista Luke Doucet, o tecladista Gary Breit e o baterista Pat Steward e mandaram o petardo Kick Ass. Voltou para 1984 com Run To You e Somebody. Mas como mostra que tem fôlego para coisas novas, manda ver sua última música de trabalho e que dá nome à tour, Roll With The Punches, com direito à clip da música no telão ao fundo do palco. O show não para e poucas vezes vi uma plateia ficar de pé o show todo, cantando junto e se emocionando. Bryan conversa com o público, agradece o carinho, lê as mensagens em cartazes, se declara ao Brasil. Muitos artistas locais às vezes nem boa noite dão, eles tem que aprender muito com um cara que é idolatrado no mundo todo e mantém a humildade e sua voz impecável. Sim, Adams canta como se tivesse em 1991, chegando nos incríveis agudos com perfeição e sua voz levemente rouca encantando o povo. Comanda com uma facilidade a massa com uma atitude de acolhimento, diálogo e alegria e não como a maioria dos popstars que se fecham no palco e parece que estão cumprindo uma jornada de trabalho monótona. Voltou para 1991 com Do I Have To Say To Words, mais uma balada. O artista intercala músicas com sua pegada hard rock com baladas, o que acaba agradando os fãs, já que além de ser um profícuo compositor de românticas canções, também manda bem em petardos rock and roll. When You Love Someone é outra balada no set e 18 And Till I Die é mais um rock poderoso.
O Araújo canta junto com ele Please Forgive Me derretendo os corações apaixonados. Its Only Love e Shine A Light vem em seguida. Mas é com Heaven, balada de 1985, que há 40 anos corre solta nas FMs e programas de love songs, aquele perfeito exemplo de power ballad, que o Araújo vem abaixo e os celulares levantam instantaneamente para registrar esse momento. Uma pena que não viram com os olhos essa oportunidade única de assistir ao vivo, ao invés de mãos levantadas e telas, essa emblemática canção.

Outra curiosidade interativa é que todo mundo que entrou lá tinha uma pulseira de led, que mudava de cor conforme a ocasião, colorindo de vermelho, branco e azul conforme a canção, naquela vibe meio Coldplay, mas valeu pelo souvenir… Seguindo o show, ele apresenta Never Ever Let You Go, do último álbum, volta para a 1983 com a hard pop This Time e segue para 1987 com Heat Of The Night. Make Up On Your Mind é mais uma do disco de 2025 apresentada. De 2015, manda bala com You Belong To Me, pedindo pro câmera ir atrás de pessoas na plateia que estavam sem camisa! E segue o show com a trilha sonora do filme Don Juan de Marco, indicada ao Oscar, Have You Ever Really Loved A Woman. A música é de 1994 e Adams parece que está em 1994, tamanha perfeição vocal, para delírio da plateia, que não se senta em nenhum momento. Com direito a um carro inflável voando pelo Araújo, o canadense segue o baile com So Happy It Hurts. Segue apresentando novas canções como Will We Ever Be Friends Again do ano passado. Here I Am, mais uma balada com cara de hard rock de 2002, é tocada com ele ao violão e o pianista Gary Breit, e segue no formato acústico com When You’re Gone, com aquela que fez sucesso na época Spice Girl, Mel C., em uma grande passagem do show.



The Only Thing That Looks Good On Me Is You, do álbum de 1996, antecede a única canção que não é dele no set, o clássico Twist And Shout, que fez o Araújo inteiro vibrar com o hino imortalizado pelos Beatles. Findada a canção, o piano de Gary Breit solta os primeiros acorde de Everything I Do, I Do For You, música que foi trilha sonora do filme Robin Hood, O Príncipe dos Ladrões, de 1991, talvez é uma das baladas românticas mais conhecidas, principalmente no Brasil, e Bryan Adams entregou tudo com muito coração e talento, causando lágrimas na plateia que cantava junto a mágica melodia. No solo de guitarra, tem tempo de descer do palco e bater na mão da plateia, dar beijos no pessoal, tirar selfies e receber presentes, naquele momento de conexão e quebra de regras de um cara que tem tanto número um na Billboard e discos e mais discos de platina que chegamos a duvidar de tamanha entrega e respeito por quem faz ele ser o que é. Invejável, e que sirva de lição a painhos e patrões do rock e da MPB que gritam com músicos nos palcos e são verdadeiros chás de merda. Enfim, o nivel é outro. Ele levanta o público com Back to You, de 1998, e provoca mais uma explosão de alegria com o clássico Summer Of 1969, rockeiro dos anos 1980 fazendo todo mundo dançar.
O show chega ao o fim com uma de 1983, o clássico Cuts Like A Knife e no bis Bryan Adams apenas munido do violão fecha o histórico show com 31 músicas e quase duas horas e meia de duração com All For Love, que foi trilha dos Três Mosqueteiros, filme de 1993. Na gravação original ele dividia os vocais com Sting & Rod Stewart e aqui, só no gogó e no violão, emociona a plateia e se despede, sabendo que fez um dos shows mais incríveis que o Araújo presenciou na sua longa existência.

Bryan Adams é multi-instrumentista, toca violão, muitas músicas assume o baixo, manda bem na guitarra, gaita de boca e impressiona que sua voz e aparência não mudaram muito. Por vezes lembra aquele garoto dos anos 1990, um cara que se cuidou muito e mantém sua linda voz em dia, ainda mais em tempos que caras mais novos que ele não conseguem nem dar bom dia sem desafinar. Com sua simpatia e profissionalismo entrega tudo no palco e um balaio de ótimas canções, entre baladas românticas e rocks competentes. Um show impecável numa das noites mais inesquecíveis que o velho disco voador da Redenção teve o privilégio de receber e quem pode estar presente não vai esquecer jamais, o dia em que Bryan Adams hipnotizou Porto Alegre com boa música, um espetáculo refinado e uma sinergia poucas vezes vista entre artista e seus fãs!
Créditos das fotos: Edu de Ferrarri e Lauro Arreguy, essas tiradas de celular.