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MÚSICA

Andy Bell – Araújo Vianna

Andy Bell – Araújo Vianna
  • Publishedjaneiro 24, 2026

Existem fenômenos musicais, que fora o alcance global de seu sucesso, chamam atenção por marcar certas regiões ou países específicos. O Erasure, duo britânico de synthpop, foi uma banda de sucesso mundial, mas no Brasil entre 1987 até 1994, eles foram simplesmente gigantes. E indo mais a fundo, mais para o Sul do nosso país, o Rio Grande do Sul sempre idolatrou de forma especial Andy Bell e Vince Clarke, tanto que o grupo fez um show em 1990, no auge da fama, para um ginásio Gigantinho lotado. Entre outras passagens do grupo por nosso território, o carinho nunca se dissipou. A dupla ainda está firme em modo de pausa, mas quem não pára é Andy Bell, icônico vocalista da banda, que ávido por palco, anda divulgando seu show em carreira solo pelo mundo, não esquecendo de cantar sucessos da sua banda. Essa tour brasileira não esqueceu Porto Alegre e o cantor aterrissou no palco do Araújo Vianna, quarta passada, abrindo a temporada de shows no local e emocionando os fãs num show inesquecível.

Como era de se esperar, quem é rei não perde a majestade, e mesmo com o Erasure pela metade, 4 mil pessoas abarrotam o Auditório Araújo Vianna para cantar, dançar e se divertir numa noite que prometia demais. Com um atraso de quase meia hora, contradizendo a pontualidade britânica, antes do show com direito a Blue Monday do New Order nas caixas de som e acompanhado de uma banda com bateria, guitarra, uma backing vocal e um tecladista, Andy subiu ao palco de óculos escuros, com uma roupa em tom vermelho e muito brilho. Com a plateia de pé a Andy, seguindo o set da sua tour Ten Crowns, abre os trabalhos com a ótima Breaking Thru the Interstellar, canção de seu trabalho solo do ano passado. Com esse aquece, Andy sem perder muito tempo, emenda o super sucesso Blue Savannah, de 1990, super hit de sua banda famosa para delírio dos fãs presentes. Sometimes, dos primórdios do Erasure, segue o show que até ali era sem pausa, para Andy começar a falar. Ele interage muito com o público, conta história, não pára de agradecer e se sente emocionado com a presença de 4 mil pessoas nessa troca de carinho pelo artista.

Da sua carreira solo manda Don’t Cha Know, e já sem o casaco que subiu ao palco, com uma regata, ele dança, baila e continua com o auxílio de sua banda, onde todos mandam muito bem nos vocais. Do disco Wild, de 1989, eles tocam Drama e logo após, mais do seu disco do ano passado, Heart’s a Liar, que teve coolab com Debbie Harry, em que a talentosa cantora de sua banda, Chelsea Blankinship, faz a parte da icônica vocalista do Blondie. O Araújo era um verdadeiro clima de festa, uma ode ao melhor do pop dos anos 1980 e 1990 e com uma trilha com Chains of Love fazia a plateia viajar no tempo e se entregar à magia do Erasure. Mas com I Love to Hate You, de 1991, que a casa quase foi abaixo, com certeza o momento mais catártico do show até então. Andy Bell, então, foi tomar um ar e deixou para o guitarrista Jerry Fuentes e a vocal Chelsea fazer uma versão acústica de When I Need You, linda canção de 1988.

Com as baterias carregadas e agora vestindo uma regata do ACDC, do disco Hells Bells, o bailão do Bell segue com Always, de 1994, e depois com uma versão sensacional de Xanadu, sucesso de Olivia Newton John, que fez o Araújo cantar alto junto com ele. Da sua banda, além dos teclados e programação de efeitos do produtor Dave Audé, destaque para a baterista Sarah Tomek, que manda bem com o som orgânico da bateria, esbanjando simpatia e muita técnica entre caras e bocas de sua performance. Andy conversa muitas vezes com a plateia, se emociona, eu fico pensando o fato de como um cara que nasceu em Peterborough, na Inglaterra, deve se sentir tocado com 4 mil pessoas no Sul do Brasil cantando suas canções. Mas o set segue com o clássico Victim of Love e mais uma de sua carreira solo, Dance for Mercy, mostrando que por mais que o Erasure era o que iria mexer com a galera, ele soube pontuar bem, sem saturar, apresentando ao vivo o seu novo e excelente trabalho.

A celebração da música pop segue com Chorus, do disco homônimo de 1991, que vendeu demais no Brasil naquele icônico ano. The Chance One Come Again é mais uma contemplada de seu trabalho solo e ainda teve direito, no intervalo, a uma fã falar “eu te amo” no seu microfone e ele retribuir o carinho repetindo a expressão e agradecendo demais o afeto recebido. Mas é com as próximas duas que realmente a coisa pega de jeito. Stop, um dos maiores sucessos do Erasure, faz o Araújo virar uma pista de dança e mostra que Andy ainda está com uma forma vocal invejável. Mas é na seguinte música, com direito a um coração no telão que o povo delira, com o ultra hit Oh Lamour, do álbum de estreia de 1986 e que toca até hoje em qualquer rádio pop do Brasil. Um daqueles momentos mágicos das noites do Araújo, assim se define a execução da dançante e sofrida canção de amor. A banda sai de cena e menos de 2 minutos depois volta para fechar o show com Litte Respect, onde mais uma vez a casa vai abaixo e canta junto os falsetes, em mais uma balada dançante regada a drama amoroso que todo mundo adora, fechando um show que vai pra história de Porto Alegre.

Andy Bell quebrou barreiras, muito mais que o vocalista de uma das bandas mais famosas da música eletrônica e pop dos anos 1980 e 1990, sempre teve coragem de mostrar quem ele era de verdade, um dos pioneiros a assumir sua homosexualidade nos opressores anos 1980, e apesar de ser um ícone do movimento LGBTQ+, sempre defendeu bandeiras mais amplas e foi muito aceito e amado por muita gente. Seu estilo por vezes kitsch é exagerado, mas sempre autêntico, e como diz uma das suas canções mais populares que virou um hino, que pede ao menos um pouquinho de respeito. E hoje com muita vitalidade, caprichando na performance e cantando muito bem, consegue com sua arte e talento, muito mais que respeito e sim ser idolatrado por mais de 4 mil pessoas amontoadas no Araújo Vianna que só queriam ser felizes, celebrar as diferenças e tornar o local numa liberta pista de dança, que foi o que presenciamos na mágica noite do dia 21 de janeiro.

Crédito das fotos: Vívian Carravetta

Written By
Lauro Roth