Lutas Ancestrais (Fight World): série amplia o alcance, o sentido e o respeito pelas lutas no mundo. - NoSet
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Lutas Ancestrais (Fight World): série amplia o alcance, o sentido e o respeito pelas lutas no mundo.

O instinto humano de sobrevivência envolve – e sempre envolverá – a arte de lutar. Lutamos por incontáveis motivos. Lutamos por orgulho, pompa, dinheiro, paz, amor, ódio. São os mais distintos motivos e, não importa o lugar, a busca inserida nessa luta é a de vitória. Lutar é sobrepor um inimigo, neutralizar e garantir a própria segurança, a vida e a continuidade de sua história. Mas há muito além do que isso. Como dito no início da série, o foco dessa obra é o lutador, a pessoa por trás da arte de combate representada.

Lutas Ancestrais (Fight World) é uma série em cinco episódios, produzida pela Netflix e apresentada pelo ator e lutador Frank Grillo. Frank é um praticante do Muay Thai e conhecedor de outros estilos. Lutar é algo muito importante do que ostentar um cinto ou ser declarado vencedor. E é a busca desses sentidos diferentes da luta que Frank e sua equipe vão buscar em outros países, outras culturas.

México, Tailândia, Mianmar, Senegal e Israel. Culturas diferentes, realidades diferentes e um ponto em comum: a luta. Os estilos são variados. O México prima por seu mais importante esporte: o Boxe. Tailândia é o berço do Muay Thai. Mianmar tem um estilo de luta chamado Lethwei, um Muay Thai onde o uso da cabeça como arma é permitido. Senegal nos brinda com uma luta quase tribal, onde os rituais e as crenças se mesclam para a luta, onde o Laamb (um wrestling onde socos são permitidos) é a modalidade de luta nacional, um agregador de multidões. Por fim, em Israel, a luta é levada a seu mais alto patamar: a sobrevivência. Ser um judeu é estar preparado para o combate a todo instante, pois disso depende a soberania nacional, a segurança e a vida daqueles que ama, além da sua própria vida.

Ainda que sejam apenas cinco episódios com média de duração de 40 minutos cada, Lutas Ancestrais é uma das mais importantes produções da Netflix que vi até o momento. Não digo isso apenas por ser um admirador das lutas e de tudo aquilo que está por trás delas. Digo isso por encontrar um documentário feito com extremo zelo, respeito pela inteligência do espectador e, sobretudo, respeito pelas artes abordadas na produção.

A narração e a participação de Frank Grillo são fundamentais para ampliar a qualidade da série. Frank se mostra um grande lutador, um homem com um respeito extremo pelas lutas e por aqueles que as praticam e, mais ainda, um indivíduo com uma sede de conhecimento impressionante. O cara que era apenas um ator (na minha visão antiga) se transformou em um homem merecedor do meu respeito, pois em todos os momentos ele se mostra um admirador das artes de combate, da cultura dos povos apresentados e das pessoas que estão ao seu lado.


Todos os episódios servem para adentrarmos em um mundo muito mais complexo do que os ringues e octógonos do mundo. Ao nos aprofundarmos na cultura por trás dos lutadores, descobrimos que há motivações fortes que os levaram a praticar e aprimorar suas qualidades como guerreiros e seres humanos. Por trás do estereótipo de lutador violento, encontramos homens e mulheres que fazem de suas artes marciais um modo de vida, algo necessário para que eles e suas famílias cresçam e sobrevivam. Não há glamour; há orgulho por fazer do sacrifício próprio uma maneira de melhorar a vida daqueles que são amados.

Em prol da melhoria da qualidade de vida dos familiares, esses lutadores colocam a própria integridade física em risco, mas consideram o preço justo. Mais do que justo, isso é questão de honra, já que a maioria deles provem da pobreza quase absoluta, uma triste realidade em todos os países englobados pela série. Tal situação também é comum no Brasil.

Lutas Ancestrais é uma obra para ser assistida por todos os fãs dos mais diversos estilos de lutas do mundo. Profunda, emocionante, realista e respeitosa, a série documental chega para marcar a Netflix como uma das mais gratas surpresas de 2018. Por abordar a vida, o sofrimento, as realizações, sucessos e fracassos de lutadores anônimos em sua maioria, mas respeitados entre seus pares, certamente os espectadores guardarão na memória e no coração as lições passadas em cada episódio.

Aguardo ansioso por uma segunda temporada e também pelos comentários de vocês que, assim como eu, amam as lutas por tudo aquilo que elas verdadeiramente representam: disciplina, superação, respeito, hierarquia, amizade e uma oportunidade real de uma pessoa comum sair do anonimato através do sangue, suor e esperança.

Lutar por um objetivo maior que a própria vida. Lutar por honra. Lutar pela família…

2 Avaliações

2 Comments

  1. Andries Viljoen Configurações

    21 de dezembro de 2018 em 19:28

    Agradável abordagem ao mundo das lutas, preocupando-se com todas as variáveis que rondam o ambiente destas, e não focando só na velha pancadaria.
    Pena que foi curtíssima, 5 episódios de 40 minutos. Frank Grillo ótimo, nada a reclamar.
    Para mim, a série deveria focar mais nas artes marciais mais desconhecidas. Curti muito ver a arte marcial de Myanmar(Lethwei) e a de Senegal(Laamb), são coisas que dificilmente o ocidente se interessa em divulgar ou produzir conteúdo.
    Boxe e Muay Thai tiveram bons episódios.
    Israel e seu Krav Magá talvez seja o episódio mais interessante, justamente por ter abordado perfeitamente toda a parte de Geopolítica e focar em uma arte marcial com uma finalidade bem distinta de qualquer outra.
    Fica a crítica para certas falhas graves. O capítulo de Senegal me irritou profundamente.
    Passaram o tempo todo falando na luta entre duas lendas locais, aí na hora H mostram pouquíssimo tempo de luta e sequer dão o resultado… caramba, a gente cria empatia por um dos lados, torce e acaba nem sabendo quem vence?

    • Franz Lima

      Franz Lima Configurações

      26 de dezembro de 2018 em 14:10

      Obrigado pelo comentário, Andries. A série realmente é agradável e feita com extremo zelo. Concordo com relação à luta no Senegal, mas é válido
      lembrar que o foco da série é a história dos lutadores. De qualquer modo, compreendo a empatia gerada no episódio. Grande abraço. Franz.

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