Análise da série "O Assassino Confesso" (Netflix). - NoSet
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Análise da série “O Assassino Confesso” (Netflix).

É cada vez mais comum o surgimento de séries, filmes, livros e outras formas de abordagem sobre o tema “serial killer”. Personagens do porte de Hannibal Lecter, Leatherface, Dexter Morgan e outros fictícios concorrem com monstros reais como Ted Bundy, Luiz Garavito, Elizabeth Bathory, Aileen Wuornos, David Berkowitz, entre outros. Todos foram cruéis, meticulosos e incapazes de sentir remorso ou dor pelas vidas que exterminaram.

Hoje há uma gama de tecnologias e recursos que facilitam o trabalho da polícia. Esses recursos, infelizmente, não existiam há apenas poucas décadas. Sem o reconhecimento facial, o DNA, as câmeras de vigilância e até mesmo os jornais sensacionalistas que ganham (muito) dinheiro com assuntos mais mórbidos e chocantes, era muito difícil identificar, localizar e prender os homens e mulheres que aterrorizavam comunidades inteiras. Honestamente, os casos conhecidos e fichados são apenas uma pequena parcela, já que muitos crimes ficam sem solução, isto é, assassinos permanecem impunes para poder voltar a praticar suas atrocidades.

Mas há um caso na história desses monstros que surpreende por sua singularidade. O nome desse indivíduo é Henry Lee Lucas, considerado durante um bom tempo como o mais prolífico serial killer da América do Norte. O número de vítimas de Henry oscilou, mas chegou a mais de 300 mortes.

Assassino Confesso é uma série em cinco episódios que conta a trajetória sombria e cheia de versões controversas da vida e da condenação desse homem que ainda é considerado um monstro para muitos, porém também é visto como um injustiçado por outros tantos. Os motivos para tal dualidade? Vocês terão que assistir essa ótima série que põe em Xeque-mate não apenas a justiça estadunidense como uma das mais respeitadas forças policiais: os Texas Rangers.

Continuem comigo para que possam compreender as nuances dessa terrível história de uma nação que sofre com esse fenômeno comportamental assombroso.


Culpado até que se prove o contrário.

A máxima acima serve para esclarecer um ponto importantíssimo da vida de Henry Lee Lucas: ele tinha culpa em crimes, porém havia algo muito suspeito sobre todos os crimes por ele assumidos. A quantidade de mortes a ele atribuídas despertariam a desconfiança do mais simplório investigador. Entretanto, a sede por solucionar crimes praticados em quase todos os estados do país levaram os Texas Rangers a não se preocupar com detalhes que jamais poderiam deixar de ser observados.

Uma pergunta fica no ar. O que levou esses patrulheiros – reconhecidamente respeitados nos EUA – a cometer uma falha tão crítica e que, anos depois, colocou em dúvida a eficiência dessa corporação? Mas esse não foi o único problema dessa investigação tão rápida. Henry confessou crimes que, provavelmente, não cometeu. O que o levou a assumir a autoria de tamanha violência? O que levou a força tática designada para intermediar com as outras polícias, a aceitar tão passivamente as confissões de um homem com visíveis problemas psicológicos e psiquiátricos sem uma investigação mais rígida?

Crime e Castigo.

Henry Lucas foi preso pelo assassinato da mãe. Essa prisão foi o estopim para uma gradual onda de confissões de crimes por todo os EUA. O que seria apenas uma investigação sobre as motivações do assassinato de uma mãe se transformou na maior ação policial para esclarecer mortes que somariam mais de 300 vítimas.

Um ponto curioso – muito bem esclarecido na minissérie – está na forma como Henry fornecia dados precisos sobre as mulheres mortas. Em muitos casos ele levou a polícia até o local onde os corpos foram enterrados ou escondidos. Isso, obviamente, deu força junto à polícia e à opinião pública sobre a veracidade das confissões de Henry Lee Lucas. A América ganhava seu mais prolífico e sombrio serial killer.

Mas será que era isso mesmo? A História (e essa minissérie documental) aponta negativamente.

Henry gostava da fama que as mortes trouxeram. Ser um dos mais temidos e odiados homens dos EUA era algo que trazia orgulho. Com essa premissa, não havia motivações para ele não aproveitar os benefícios de ser o único homem capaz de elucidar centenas de crimes ao longo de muitos anos. A população queria a verdade, as polícias de todos os estados com crimes sem solução estavam sedentas por mais detalhes e informações. Em suma, todos viam o seria killer como o responsável pela destruição de centenas de famílias.

Com tantas confissões – acreditavam familiares e policiais – seria questão de tempo ver Henry Lucas no corredor da morte. A América queria seu maior assassino pagando pelos crimes cometidos.

Justiça para todos.

Nos estados onde a pena de morte existe há uma demora até aceitável para a aplicação da pena capital. É preciso ver e rever o processo de forma que sejam excluídas todas as possibilidades de inocência (mesmo quando condenado) do preso. No caso de Henry Lee Lucas, um ponto interessante foi o rápido acatamento de cada uma de suas confissões. Sim, havia provas que incluíam a localização de vários corpos, a narração de fatos que eram só de conhecimento da polícia e, sobretudo, havia a necessidade de solucionar – por meio das confissões – um número jamais visto de crimes correlacionados a um único indivíduo.

Não resta dúvidas de que Henry seria levado a julgamento e condenado à morte, porém o processo para desvendar caso a caso (contando com o auxílio de policiais de vários estados) seria demorado.

No meio desta sinuca de bico estão os Texas Rangers, uma respeitada equipe policial cuja credibilidade e honras jamais foram maculadas. Assim, a união da opinião dos Rangers sobre a culpa de Henry e as confissões deste foram suficientes para que muitos, muitos detalhes fossem postos de lado.

Naquela época, aparentemente, o que importava era dar um rumo às incontáveis investigações que estavam estagnadas ou mesmo arquivadas, mas receberam novo fôlego com os relatos do serial killer.

Viagens.

As investigações prosseguiram e alguns dos familiares não aceitaram a simples confissão de Henry Lee. Havia muitos crimes cometidos em datas próximas e muitos detalhes passados pelo assassino eram claramente mentira.

Até este ponto, provavelmente o leitor irá se questionar: como o cara conseguia fornecer tantos detalhes e achar os corpos? A resposta estava na Força Tarefa que conduzia os interrogatórios de Lucas. Por estranho que possa parecer – mesmo frente a um indivíduo considerado como de QI baixo – a polícia, os Rangers, foram manipulados por Henry. Ele teve acesso a depoimentos, fotos dos locais das mortes, mapas e também aos relatos dos próprios policiais. Com tanto material, o lado “ator” dele mostrou que tinha competência para ludibriar uma legião de policiais.

Essas assunções de culpa por parte de Henry não eram apenas um alento para as famílias das vítimas, eram também uma forma de mantê-lo (por mais estranho que isso possa parecer) longe da execução no corredor da morte, além de lhe dar um certo prestígio. Em outras palavras, o matador era visto como uma celebridade, até mesmo entre os policiais.

Mesmo com tanta pompa e mídia envolvidas, a questão sobre como um único homem consegue atravessar mais de dois mil quilômetros com seu automóvel em apenas um dia. Essa óbvia controvérsia já dava força aos pedidos de revisão das confissões, porém um retrocesso nas investigações seria uma confissão de incompetência por parte dos Texas Rangers… e isso era inadmissível.

O que prevaleceria então? Uma mentira reconfortante ou a verdade vergonhosa?

Provas.

Estranho é apenas uma palavra usada para a situação geral de Henry Lee Lucas. Ele confessou assassinatos e provocou um pandemônio nos EUA. Muitos queriam sua execução imediata, outros queriam uma análise mais aprofundada dessa história. Com essa queda de braço ocorrendo até mesmo entre as polícias, chegamos a um ponto onde um promotor resolve ir contra os Rangers. Seu nome é Vic Faezell, o responsável por alertar a nação sobre algumas inconsistências nos depoimentos e no processo de captação das informações fornecidas por Henry.

Mas nada seria tão fácil assim…

Para ser mais explícito, a vida de Vic Faezell se transformou em um verdadeiro inferno. Apesar de não haver uma acusação direta à condução do caso pelos Rangers, fica fácil compreender que eles tinham interesses nessa trama. Mais do que isso, Vic teve que confrontar não apenas os Rangers como uma verdadeira conspiração contra sua pessoa e família. Resumidamente, o promotor foi crucificado perante a opinião pública, fato que demorou muito a ser revertido.

O desgaste foi indescritível. Vic Faezell saiu enfraquecido dessa caçada. Contudo esse processo serviu para trazer à tona algumas famílias que conduziram investigações por conta própria, algo que levou muito tempo.

De um lado havia os Rangers (representados pelo xerife Jim Boutwell) e seus apoiadores; do outro lado havia Vic e os familiares que não aceitaram as confissões cheias de falhas. Contudo também era possível perceber forças que não queriam a reversão das investigações. Para essas forças, Henry Lucas deveria ser enviado ao corredor da morte e executado.

Entre mortos e feridos…

O Assassino Confesso é uma série polêmica por ter a coragem de expor o sistema policial estadunidense. Os egos inflados e a fama temporária serviram, assim como a sede em fechar centenas de casos de homicídio, para atrapalhar esses mesmos casos. A facilidade em ter um assassino confesso que queria indicar caso a caso seria um presente para a polícia, desde que houvesse um mínimo de preocupação em apurar fatos. Henry Lee Lucas viveu dias de celebridade e teve um tratamento diferenciado enquanto esteve preso junto à Força Tarefa dos Rangers. Ele sobreviveu a tudo e a todos, assim como fez a vida inteira, mas seus atos e mentiras resultaram – com o auxílio de policiais que buscavam a fama – em uma crise na polícia, na redução da credibilidade desta e no desapontamento por parte de várias famílias que perderam suas filhas e não tiveram solução nos casos.

Henry envelheceu na cadeia. Ele continuou um mentiroso compulsivo e foi conduzido ao corredor da morte, onde sua vida ficou na dependência do perdão presidencial que comutaria a pena para prisão perpétua. Ele, segundo investigações posteriores e o próprio documentário, era culpado de assassinato, porém jamais esteve na maioria dos locais dos crimes que lhe foram atribuídos. Sua mente doentia foi cada vez mais destruída pelo medo da morte e pelas mentiras em que o envolveram. Não há compaixão para esse homem que usufruiu da fama e teve sua vida prolongada em prol da solução de crimes que ele nunca cometeu e nada poderia fazer para solucionar.

As conclusões finais eu deixo para você que assistirá essa série e, assim como eu, ficará chocado com a intrincada rede de mentiras e vaidades que só serviu para ampliar a dor de pais, mães, maridos, filhos, familiares e amigos das vítimas. Henry Lee Lucas foi o protagonista de um vergonhoso capítulo da história policial dos EUA, porém sua trama serve de lição para que jamais esses erros sejam cometidos novamente.

Ao assassino e mentiroso restou uma vida na prisão onde a fama foi apagando gradualmente e, então, apenas a solidão e o remorso por seus erros o acompanharam. Não é necessário ter pena, já que ele viveu infinitamente mais que suas vítimas e as outras vítimas de assassinos que, por conta de suas histórias fantasiosas, escaparam da justiça.

 

 

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