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E SE EU DECIDIR MORRER?

Talvez nós passemos a vida toda perguntando quem na verdade somos, ou simplesmente sequer façamos essa pergunta pelo simples fato de morrermos de medo da resposta. O caso é que todos nós carregamos coisas dentro da nossa mente que nem sempre o mundo é capaz de entender. E não é que seja culpa do mundo, a final, como julgar algo que nem nós mesmos somos capazes de compreender? 

A dor por exemplo, cada um sente a dor de uma forma diferente. O torcedor fanático de futebol, sente dor quando seu time perde a última chance de gol e por este motivo perde o campeonato. A mãe que dirige até a escola e descobre que o filho foi atropelado e por isso morreu, sente dor, mas de uma forma diferente do torcedor fanático. Não importa que uma história seja mais triste que a outra, ou que o tempo cicatrize mais rápido uma dor do que a outra, o fato é que naquele momento, ambos estão sofrendo, e, bem, cada um chora sua dor de formas diferentes, mas ainda assim dói. 

Enquanto eu escrevo esse texto, milhares, talvez milhões de pessoas estejam chorando suas dores, não no sentido literal de derramar lágrimas e prantear alto, mas no sentido de sentir, seja com gritos e choro, seja no mais profundo e resiliente silêncio. Talvez eu mesmo, em cada frase que coloque neste texto esteja colocando de certa forma um pouco da minha dor. Pode ser a forma com que eu sofro, com que eu sinto a dor. O fato é que todos temos nossas dores, e, porque não falamos mais sobre isso? 

O mundo quer que todos sejamos felizes. As redes sociais exigem isso, fotos no Instagram, posts no Facebook, todos falando de como suas vidas são alegres, felizes, maravilhosas, mas os números não batem. O número de pessoas depressivas, com ideações suicidas, ou mesmo o número de suicídios consumados não bate com o mundo de felicidade mostrado nas redes sociais. Então, onde estão os tristes? Os que sentem dor? Os magoados, machucados, oprimidos? Onde foram todos?

Não, não é que eu ache que deveríamos apenas expor as coisas ruins nas redes sociais, mas o fato é que a vida, para a maioria de nós, não é nenhum mar de rosas, então, será que é tão feio assim demonstrar dor? Sofrimento? Tristeza? Tudo bem, quem sabe você pense que a dor é apenas sua, e por isso deve manter ela em segredo, apenas entre você, e você mesmo, mas esse é o real motivo, ou temos medo de parecer fracos? Vulneráveis? Quem é que anda por ai expondo suas fragilidades em um mundo onde somos feitos de escada para os mais espertos chegarem ao topo? Vivemos numa selva! Será que eu não me dei conta disso? Sou ingênuo? 

Eu sei que é um texto com muitas interrogações, mas eu tenho talvez muitas dúvidas, por isso seja meu ponto gramatical preferido, não? Eu sinto dor! Na verdade todos esses parágrafos foram um ensaio para dizer isso: Eu sinto dor! Existem milhares de coisas gritando dentro de mim, um monte de incertezas, de questionamentos, de medos, de inseguranças, de saudades, traumas, a bagagem de uma vida toda guardada em livros que somente eu li, em recordações que apenas eu tenho, em imagens que somente eu vejo, e, em dores, dores que apenas eu sinto. 

Você precisa procurar ajuda! Remédios? Quais? Os psicotrópicos? Os naturais? Quem sabe magia? Reza brava? Santidade e oração? Receitas, todos tem receitas para curar a dor, e no entanto todos, absolutamente todos, estão doloridos, cheios, transbordando de dor. De todos os tipos, você pode até escolher. Escolher o tipo de dor. Estranho, não?

Então alguns, quando não suportam mais a dor, recorrem as soluções mencionadas, alguns tomam remédios, outros recorrem a fé, outros fingem não sentir, outros vão a terapia, o fato é que tudo isso é feito de forma solitária. É algo para se fazer sozinho. De certa forma, preferencialmente, com certa descrição. Ninguém quer parecer frágil, fraco, ou pior, louco. 

Eu sempre pensei que a loucura, é quando a dor não cabe mais dentro de uma pessoa, e precisa sair. Então a pessoa “enlouquece”. Claro que isso é uma teoria minha, sem fundamentação teórica nenhuma. Mas quem liga? Aliás quem liga para o que somos ou sentimos? Para nossas dores, tristezas, sofrimentos? As pessoas estão realmente interessadas naquilo que parecemos. O importante é aparentar. Se somos ou não? Que importa. Mas precisamos parecer! Ricos, bonitos, inteligentes, cultos, na moda, no padrão. Ainda que abominemos tudo isso, para ganhar um acento à mesa, precisamos mostrar que temos o que mostrar. Isso é tudo. 

Então ninguém tem tempo para as angústias da vida, as lamúrias pessoais, e todo esse papo sentimental de dores e depressão e tudo isso que a gente carrega dentro do peito. Se os remédios não ajudarem, ou a terapia, ou então a fé, as alternativas são bem restritas na verdade. Mas e se nada disso der certo? E se ainda continuar doendo? Como fazer para cessar? Parar com a dor?

É possível dar um fim nisso tudo? Desligar? Acabar com o núcleo do problema? Eliminá-lo por completo? Deletar? Excluir? Bloquear? Morrer? 

Não sei, mas penso que morrer acaba com tudo isso, acaba com a dor, com as angustias, os medos, apaga os traumas, e, quem liga para o que vem depois? Estamos falando em parar a dor. Apenas isso. É uma alternativa, certo? Eu queria poder dizer que não, que isso não é uma alternativa, que machucaria muitas pessoas, mas, espera, não estamos aqui falando dos outros, estamos falando da nossa própria dor, então sim, é uma alternativa. Drástica? Certamente! Mas ainda assim é uma opção. 

Você deve estar pensando: Não precisamos ir assim tão ao extremo. Mas quem é que sabe o tamanho da dor alheia? E se a dor for extrema? Insuportável? Como dizer para alguém o tamanho da sua dor e o “tratamento” para cada nível? 

O fato é que ninguém se importa. Se ao menos alguém ouvisse, se importasse, estendesse a mão, emprestasse o ouvido, dedicasse um pouco de tempo, mas ninguém tem tempo. Estão todos ocupados inventando maneiras de parar, diminuir, ou, não sentir dor. Fugindo a fuga sem fim. A corrida desesperada, que vai do nada a lugar nenhum. 

O fato é que o suicídio é uma alternativa, e a culpa por isso ser verdade é nossa. Campanhas, cartazes, propagandas na televisão, um mês amarelo, tudo isso, toda essa parafernalha midiática, tudo isso, não passa de um circo para mascarar a verdadeira tragédia: As pessoas são más! E não existe campanha no mundo capaz de mudar esse fato. Entretanto existe um oposto inversamente proporcional e verdadeiro: Existem pessoas boas! Fato é que não as enxergamos com tanta freqüência mas elas estão por ai. Tirar a própria vida talvez seja tirar a oportunidade de conhecer uma dessas pessoas, de apertar uma dessas mãos, e conhecer uma parte do mundo que seja menos sombria, menos assustadora, menos dolorida. 

Talvez você esteja pensando que eu não deveria escrever um texto assim, ou que essa escrita possa influenciar alguém a tirar a própria vida, ou coisas assim, mas o fato é que você não se importa. Se você realmente se importar você vai ler esse texto e pensar em como ajudar alguém que esteja morrendo de tanta dor bem ao seu lado. Como salvar seu vizinho, seu colega, seu amigo, seu filho, sua esposa, seu marido, como estender a mão para essas pessoas? Como impedir que suas dores sejam tão profundas a ponto de restar somente uma única alternativa? 

Esse texto não se trata de viver ou morrer, ele trata sobre como tem sido nossa postura diante do nosso próximo, e de como nossos atos os tem afetado. O que estamos fazendo para aliviar a dor dos outros? Eu estou disposto a fazer alguma coisa sobre isso?

A vida é um turbilhão de possibilidades e por isso é feita de escolhas. Eu poderia terminar esse texto dizendo: Escolha viver! Mas não vou fazer isso. Existem outras opções. Então eu vou terminar esse texto com uma interrogação: O que eu posso fazer para que você escolha viver?

Texto: Patrick Canterville
Publicado em: Portal NoSet e Canterville em 06/08/17

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