O outro lado da bola. Orgulho, preconceito e verdades no mundo do futebol. - NoSet
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O outro lado da bola. Orgulho, preconceito e verdades no mundo do futebol.

O que define a competência e o profissionalismo de uma pessoa? Muitas seriam as respotas, mas certamente a sexualidade não seria uma delas. E o que isso quer dizer? Simples. A vida sexual de um indivíduo não é indicador para sua eficiência. Óbvio que os tabus e o preconceito ainda impedem que muitos fiquem restritos, isto é, revelem suas opções apenas aos parceiros e pessoas próximas, intimidados por uma sociedade que se autoproclama liberal, mas que não respeita ou aceita essa revelação como tal.

Pensando nisso, o desenhista Jean Dias se uniu aos escritores Alvaro Campo e Alê Braga para dar vida à ótima graphic novel “O outro lado da bola”.

A obra destaca a vida de um jogador de futebol e tudo que nela mudou após a revelação de sua opção sexual.

Coragem.

Assim como o protagonista Cris, os autores também tiveram uma alta dose de coragem ao expor magistralmente as várias faces de uma história. Mais do que falar sobre homossexualismo no futebol, a trama nos conduz por uma verdadeira rede de intrigas, redenção, causa e efeito. As ações por trás de cada uma das decisões dos personagens principais (Cris, sua “esposa” Suzana e a filha Kika) mostram o quanto a pressão pode afetar os atos das pessoas que sofrem ao revelar ao mundo quem realmente são. Mais do que isso, a atitude de Cris envolveu por completo sua família. Apesar de ser a decisão correta (mesmo motivada pelo emocional após o assassinato de um ex-namorado dele), restou a ele e seus familiares o julgamento por parte de todos.

Outro ato de coragem que merece ser admirado foi a da própria editora Record que, contrariando todas as expectativas, trouxe até nós uma obra única, contundente e crítica ao extremo.

Os pontos de partida.

A equipe criativa de O outro lado da bola fez escolhas acertadas durante toda a história. Ao mostrar o passado de alguns personagens e vinculá-los ao machismo exacerbado que existia há alguns anos, conseguiram destacar a mentalidade que predomina até hoje nos campos e torcidas. Essas passagens são mostradas em vários pontos da HQ e sempre amplificadas com as ótimas artes de Jean Diaz.

Ao olhar mais atentamente, fica perceptível que o trio preparou quase um storyboard para um filme, algo muito provável (e desejável) se levarmos em conta a qualidade da trama.

Nessa elaborada e intrincada história, o leitor será apresentado a muitos personagens, sendo Cris, Suzanna e Kika os que mais se destacam (e sofrem). Isso, entretanto, não significa que não tenhamos outros tão pertinentes quanto. Desde o assassino que mata por ódio aos gays até o cartola que tenta a todo custo desfazer a revelação da homossexualidade do camisa 10 de um dos maiores times de São Paulo, tudo está primoroso.

A vida real.

Um dos pontos mais interessantes da narrativa é a inclusão de alguns indivíduos que são tão reais quanto possível. As reações e ações são perfeitamente críveis, fato proporcionado pelo elaborado roteiro dos autores Alvaro Campos e Alê Braga.

Por ter esse nível de qualidade narrativa, o leitor terá uma gama de emoções ao longo da graphic novel. É impossível passar incólume por situações que provocam angústia, revolta, alegria e a sensação de que tudo o que está no livro pode realmente acontecer ou já aconteceu. Não há tempo para a leveza. O tema é pesado, as consequências desencadeadas também são tensas e, invariavelmente, o que temos retratado é a vida real… ou como diria Nelson Rodrigues: a vida como ela é.

Destruir o diferente.

Pode parecer brincadeira (de muito mau gosto), mas ainda existe uma cultura de ataque ao diferente. Aos poucos estamos mudando nossas atitudes e pensamentos – para aceitar e respeitar as diferenças -, porém é fato que resta uma resistência forte a isso.

E se você acha que isso atinge apenas os gays, está muito enganado. Negros, pessoas com síndromes, orientais, deficientes físicos, idosos… e outra gama de homens, mulheres e crianças de todas as idades e raças sofrem preconceito, ataques ou são desprezados por causa de suas peculiaridades.

Esse tratamento de repúdio é visto em O outro lado da bola, assim como é retratado o bullying, o ódio, a intolerância e, nas entrelinhas, o temor de ter algo igual a eles.

Motivações.

Falar sobre homossexualismo ainda é uma tarefa pouco vista em quadrinhos. Em alguns casos, autores optam por introduzir personagens do meio LGBT de forma caricata, quase como se cumprindo uma cota, algo que não acontecesse nessa obra.

A editora Record fez a escolha acertada ao publicar O outro lado da bola. A HQ não apresenta personagens vagos. Seja rico, pobre, torcedor, gay ou não, o que conta nessa história é, literalmente, contar a verdade dos bastidores do nosso futebol, ainda foco de muito preconceito e ódio. Cada personagem apresentado tem motivações convincentes, base e é desenvolvido de forma competente durante toda a trama.

O futebol brasileiro e o fanatismo.

Na minha opinião, esse é o segundo ponto mais importante da trama. Isso ocorre por ser uma obra cujo debate principal está focado no preconceito e seus efeitos sobre quem o sofre, mas há a problemática e algo muito comum no futebol brasileiro: o fanatismo dos torcedores.

Há uma clara indicação de que o time em pauta é o Corinthians, o que não significa que todos os outros times e torcidas tenham atitudes e políticas similares.

O primor da obra.

A editora Record fez uma obra com um acabamento absolutamente impecável. Papel couchê de alta gramatura, capa e contracapa cartonadas com abas (uma das capas mais perfeitamente elaboradas que já vi) e, obviamente, um conteúdo inesquecível. A graphic novel é um achado entre as publicações do gênero no Brasil e, como deve ter ficado claro ao longo do post, uma das histórias mais bacanas sobre o tema que já li na vida.

Assim, ao passar por uma das grandes livrarias ou navegar pela internet na busca por um material que vale a pena adquirir, pode buscar e comprar essa HQ. O outro lado da bola é uma obra que faz pensar, atual e corajosa ao extremo, principalmente se levarmos em conta que ela expõe tudo que nossa sociedade faz questão de varrer para baixo do tapete.

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