Nightbreed - Raça das Trevas: a farsa editorial revelada. - NoSet
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Nightbreed – Raça das Trevas: a farsa editorial revelada.

Caros leitores.
Não sei quantos de vocês conhecem as obras literárias de Clive Barker (Hellraiser, Nightbreed, Livros de Sangue, Abarat, O Ladrão da Eternidade, Imajica, etc). Os livros que Clive lançou foram comparados aos trabalhos de Stephen King e, inclusive, elogiados pelo próprio. Algumas destas publicações são muito difíceis de encontrar hoje em dia, bastando citar como exemplo os seis volumes da coleção “Livros de Sangue” que, infelizmente, acabaram se tornando raridade até mesmo em sebos ou lojas especializadas.
Algumas de suas produções foram transpostas para o cinema e foram responsáveis pelo surgimento de verdadeiros ícones do terror. Pinhead, os cenobitas, os habitantes de Midian são, enfim, apenas uns poucos exemplos sobre este incrível escritor.
Barker também investiu na literatura infanto-juvenil (Abarat) e até nos quadrinhos, obtendo grande sucesso e prestígio em várias mídias de comunicação. Nos quadrinhos, sua principal produção foi “Nightbreed”. Lançada por aqui como uma minissérie de 10 edições, a série relatava a vida de humanos envolvidos com criaturas fantásticas, habitantes de um lugar conhecido como Midian, a terra onde moram os monstros.
Apesar da trama aparentemente simples, os personagens foram bem construídos. Há uma explicação, algo como uma justificativa, para cada um deles. Suas aparências podem causar desconforto a quem deles se aproxime, mas isso não os torna menos humanos (a maioria já foi igual a nós). Entender o que os fez se tornarem monstros é uma grande idéia presente nesta minissérie, porém apontar monstruosidades e comportamentos absolutamente terríveis em pessoas “normais” é o auge do enredo.
Boone é um cara com problemas. Sua vida não o agrada e muita coisa dá errado. Pesadelos o atormentam e lhe indicam que há um lugar para diminuir esta agonia: Midian, a cidade dos monstros. Obcecado por descobrir o que há neste lugar (a localidade chamada Midian não existe apenas em seus sonhos), Boone une-se a Narcisse, um sociopata que usa lâminas nos polegares, e os dois saem em busca da terra prometida.
Um fato interessante é que Boone acredita ser o responsável por assassinatos recentes no lugar em que mora e, por isso, resolve partir, após ouvir seu analista, para um lugar onde há seres iguais a ele.
Enfim, Boone e Narcisse encontram Midian. O lugar é mais aterrador do que esperavam e eles são recebidos de forma bem diferente da que esperavam. Envolto em um covil de predadores, Boone não consegue convencê-los de que é um matador e, então, inicia-se a saga para que se descubra realmente quem ele é, sua essência e o destino que o aguarda.
No decorrer da história, muitas outras coisas ocorrem, leis são quebradas e Midian sofre as consequências de aceitar um ser humano comum em suas terras sagradas. O caos é instalado e, com ele, uma guerra entre os que veem em Boone uma pessoa capaz de restaurar a “ordem” e outros que o enxergam como um agente a serviço do fim de toda uma era de prosperidade aos habitantes de Midian.
A minissérie foi publicada em 1990 em 10 edições. Eu adquiri a série completa, mas, recentemente, tive o desprazer de descobrir que a Editora Abril não publicou na íntegra a minissérie. Raça das Trevas – versão original – é composta por 25 edições, contrariando o que acreditei ser a verdade por mais de duas décadas.
Não vou pesquisar para descobrir os motivos que levaram os editores da época a fazer isso. O descaso é evidente com o leitor brasileiro, com o colecionador, que mostra fidelidade ao adquirir todas as edições e, baseado nas informações da capa e das propagandas da época, pensa estar recebendo um material na íntegra.
Agora imaginem qual seria a decepção de vocês se, ao entrar em um cinema para ver um filme, descobrissem que o filme tão esperado teve inúmeras cenas cortadas? Ou, ainda, como reagiriam ao comprar um livro de 200 páginas e, tempos depois, descobrirem que o original era de quase 900 páginas?
Eu poderia me manter em silêncio e esquecer isso, porém não é aceitável que uma empresa do porte da Abril faça uso de manipulação de informações para vender algo parcialmente como se fosse a versão integral.
Infelizmente constatei que a pressa em ganhar dinheiro sobre a fama de Clive Barker na época, foi maior do que o respeito merecido pelo leitor fiel.
Para comprovar esta desconfortável constatação, eis as 25 capas da série original. Lembrem-se que, aqui no Brasil, apenas as 10 primeiras foram publicadas (e que, apesar de tudo, são excelentes).
As dez edições publicadas no Brasil
As quinze edições publicadas nos EUA
A verdade é que até a edição 10 um arco de histórias é fechado. Talvez, com base nisso, a editora da época tenha preferido não publicar as edições restantes que só teriam seu fim no ano de 1992. As edições originais foram publicadas entre maio de 1990 e abril de 1992. Contudo, muitas lacunas permanecem na série e não é possível imaginar o que poderia decorrer. Falta de planejamento ou falta de respeito pelo leitor dependerá de como você olhará para essa situação, mas é bom lembrar que essa não foi a primeira e certamente não será a última vez que temos nossos direitos como leitores, espectadores ou ouvintes desprezados ou negados, restando-nos migalhas da arte oriunda de outros países.
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