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J. R. R. Tolkien, o senhor da fantasia

Tolkien era um chato.

A frase queria chamar a sua atenção. Talvez até causar a sua indignação. Fazer com que a raiva leve você pelo texto até o final, movido pelo desejo de me desmascarar.

Esse é um expediente muito utilizado por críticos de arte, principalmente os literários. É só aparecer algum grande sucesso, que no seu encalço vão as críticas ferinas. Muitas vezes, os detratores da obra querem apenas surfar nas marolas laterais do sucesso, trazendo para si um pouco da luz lançada sobre aquilo que dizem abominar.

Edição comemorativa da biografia escrita por Michael White

Tolkien sofreu bastante com isso. O escritor Michael Moorcock, por exemplo, sentenciou que O Senhor dos Anéis era o “Ursinho Puff posando de épico” (em Wizardry and Wild Romance). Já John Goldthwaite, afirmou que a obra era “a resposta do universo das fadas a Conan, o Bárbaro” (em The Natural History of Make-Believe).

A biografia escrita por Michel White, J. R. R. Tolkien, o senhor da fantasia, publicada no Brasil pela Darkside (existem duas versões, ambas lindas e com o cuidado na confecção que é peculiar à editora) expõe essa resistência às obras de Tolkien. Ela, contudo, abarca muito mais do que isso. Revela-nos a complexidade do autor, das suas motivações, interesses, amizades e inspirações. Constrói um rico painel sobre a sua história de vida e, por consequência, transforma-se em um guia da construção do universo da Terra-Média.

O livro inicia com uma história digna de um romance de Charles Dickens.

Arthur é um laborioso funcionário de Banco, que se muda para a África do Sul no final do século XIX, em busca de ascensão profissional. Trabalha sem parar, sem férias e sem tempo para a família até morrer de febre reumática. Deixou a sua esposa, Mabel, e seus dois filhos, John Ronald Reuel Tolkien e Hilary.

Mabel sobrevive com uma pequena renda deixada pelo marido a qual se somava uma mesada do cunhado. Todo o apoio familiar, no entanto, cessa quando Mabel, cuja família é metodista, resolve se converter ao catolicismo. O pai, a mãe e o cunhado cortam relações. Enquanto ela e os filhos sobrevivem com recursos que lhes deixam um pouco acima da linha da pobreza, Mabel descobre estar com diabetes. A doença era grave e não havia tratamento eficaz na época.

Tolkien tinha doze anos quando a mãe desmaia em casa, na sua frente. Menos de uma semana depois, ela morre. Da família, apenas a irmã aparece para velar Mabel. Órfão, Tolkien é separado do irmão e passa a ter como tutor um padre, Francis, nomeado por sua mãe.

Essa infância dramática obviamente tem diversas consequências na formação da personalidade de Tolkien. Uma é marcante. A rejeição e discriminação que a sua mãe sofreu em virtude da opção religiosa acabaram por definir um acentuado grau de devoção do filho à Igreja Católica. E, no correr da vida, esse traço se acentua cada vez mais.

C. S. Lewis

Da sua fé e da sua capacidade de argumentação, originar-se-á a conversão do amigo C. S. Lewis (autor de As crônicas de Nárnia, entre outras obras) para o cristianismo, conforme este admitiu em correspondências da época. No campo literário, é interessante essa relação, pois será o trabalho de Lewis que passará à posteridade como aquele vinculado à religião. Já Tolkien buscou construir uma mitologia própria, utilizando-se, principalmente, de elementos da cultura e do folclore inglês e nórdico. Não se encontra, nas suas obras, referências diretas à mitologia católica, embora existam milhares de interpretações “criativas”, que equiparam, por exemplo, Frodo a Jesus Cristo, o anel a cruz e Galadriel a Virgem Maria.

Em meio a sua formação em Oxford, que cursava graças a bolsas de estudo e para onde, ao final, retornou como professor de inglês antigo, Tolkien alistou-se e foi enviado para lutar nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Por sorte sua e nossa, não morreu. Retornou para casa com a “doença da trincheira”, provocada por uma bactéria transmitida através de picadas de piolhos. A experiência na guerra, que incluiu a morte de colegas e amigos próximos, seria determinante para as suas narrativas de combates.

Tolkien como combatente da Primeira Guerra Mundial

Ele era o que hoje se pode chamar de “machista”. Na época, deve-se entender, esse era o padrão do homem médio – o de defensor da mulher e de líder incontestável da família. Essa nota moral era mais acentuada em conservadores com profundas convicções religiosas, como ele. Tolkien se sentia bem na companhia dos colegas, principalmente os literatos. No correr da sua vida, participou e formou variados grupos de amigos. O mais famoso, os Inklings, reunia-se duas vezes por semana, em pubs de Oxford, para beber e descontrair. Havia, também, literatura. Os membros da confraria liam suas obras e comentavam as obras de outros. Para os Inklings, Tolkien leu pela primeira vez O Hobbit, assim como grande parte d’O Senhor dos Anéis. Nesse mundo masculino, as mulheres não eram bem-vindas. E essa falta de intimidade com o sexo oposto está refletida na sua obra. Os romances e amores são extremados e cavalheirescos, como eram nas canções, poemas e gestas que influenciaram sua mitologia.

Ele detestava o moderno. Suspeitava da tecnologia e foi um ecologista antes mesmo de o termo ser inventado. Tinha críticas ao mundo do consumo e da industrialização. Saruman, sua fábrica de Uruk-hai e o desmatamento da floresta de Isangard são manifestações críticas dessa visão.

A biografia escrita por White revela o sucesso inesperado que O Hobbit atingiu e como Tolkien foi pressionado por seus editores a escrever, logo em seguida, uma continuação. O público, principalmente o infantil, queria mais histórias do “povo

Tolkien com a mulher, Edith.

pequeno”.

Entusiasmado, atirou-se à empreitada e caiu prisioneiro da própria meticulosidade. Obsessivo ao extremo com as referências e com a coerência interna e a externa do universo da Terra-Média, reescreveu infindáveis vezes os mesmos trechos. Ao todo, demorou mais de doze anos para produzir aquela que seria a sua obra-prima, O Senhor dos Anéis.

Ilustração de Tolkien para O Hobbit.

Ilustração de Tolkien para O Condado.

Esta é uma das obras centrais em qualquer discussão que se faça sobre a literatura no século XX. É um livro que não poderia ser escrito, apenas, por um escritor bom e imaginativo. Não poderia ser escrito por um acadêmico com profundo conhecimento histórico e linguístico. Não poderia ser escrita por alguém obcecado pelo trabalho. Teria que ser escrita por Tolkien: ele unia todos estes atributos.

Se a meticulosidade era condição para terminar a obra com aproximadamente meio milhão de palavras, era também um entrave na relação dele com seus editores, amigos e admiradores. Ele via, por exemplo, O Silmarillion como parte integrante e necessária d’O Senhor dos Anéis. Insistiu por muito tempo para que fossem publicados juntos. Além do tamanho impeditivo das obras somadas, o problema central era que O Silmarillion não passava de um amontoado de textos. Uma obra na qual começou a trabalhar antes mesmo do Hobbit e que, ao final da sua vida, ainda estava inconclusa. Coube ao filho, Christopher, dar alguma ordem e finalmente publicá-la.

Ilustração de Tolkien para O Hobbit (A Desolação de Smaug).

O Senhor dos Anéis foi às livrarias em agosto de 1954. O editor havia convencido Tolkien a dividir a história em três livros, tanto pelo preço do papel, quanto pelo risco. Em verdade, mesmo com o sucesso anterior d’O Hobbit, não se esperava o mesmo desempenho da nova obra, pois não era um livro dirigido às crianças. Era fantasia para adultos, algo ainda inovador na metade dos anos 1950. Pelo risco, a editora não pagou adiantamento, propondo a divisão do lucro meio a meio. Péssimo negócio. O livro nunca parou de ser reimpresso e enriqueceu Tolkien e seus descentes.

O Senhor dos Anéis é um fenômeno de popularidade em escala mundial. Venceu sucessivas votações, entre leitores ingleses, de melhor livro e autor do século passado. É uma obra atemporal – você pode lê-lo em diferentes fases da sua vida e gostará por motivos diversos. Foi acolhido pela cultura hippie e renovou-se com as franquias de cinema dirigidas por Peter Jackson. Deu início aos role-playing games e, depois, aos jogos de RPGs digitais. Incorporou-se à cultura pop e à cultura nerd como uma obra seminal, sendo impossível medir hoje o tamanho da sua influência.

Capas de Tolkien para a divisão artificial d’O Senhor dos Anéis, que foi escrito como um livro único.

Neste ponto, a verdade.

Sim, Tolkien era um chato. Ainda bem. Se não fosse, não teríamos Gandalf e sua trupe enraizados em nossas vidas.

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