Crítica: Medo Profundo | Os eternos derivados do clássico de Spielberg ainda têm caminho a percorrer. - NoSet
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Crítica: Medo Profundo | Os eternos derivados do clássico de Spielberg ainda têm caminho a percorrer.

Em 1975, Steven Spielberg invadia e obrigava o mercado cinematográfico a repensar toda sua estratégia de marketing e exibição com Tubarão, filme que praticamente cimentou uma imagem eterna do predador como um vilão dos mais ameaçadores, além de ter mudado a cabeça da indústria e ajudado a inventar o blockbuster (alguns “detratores” afirmam que ele indiretamente foi fechando as portas dos estúdios para a onda de criatividade da Nova Hollywood*, que estava em seu auge na época, mas esse assunto fica pra depois…).

O fato é que o filme deixou tão icônica uma série de imagens imediatamente reconhecíveis – como aquela que eternizou o ponto de vista submerso em direção à vítima desavisada – que quase todas as tentativas de se repetir uma história similar soam como uma cópia malfeita e frustrada, que recorrem aos símbolos estabelecidos pelo clássico, mas sem sucesso em reproduzir o mesmo suspense preciso que o marcou. Basta observar que dá pra contar nos dedos quais são as obras de mesma premissa que realmente funcionam. Mar Aberto (Chris Kentis, 2003) talvez seja o que tenha mais levado em conta o fator “mostre menos e crie mais” e, recentemente, Águas Rasas (Jaume Collet-Serra, 2016) agradou o púbico e considerável parte da crítica com sua abordagem bem mais pirotécnica e espalhafatosa.

Steven Spielberg e seu tubarão mecânico apelidado de ‘Bruce’

Pois bem, chegando ao Brasil (com 8 meses de atraso em relação aos EUA) essa semana, Medo Profundo (47 Meters Down) é o mais recente exemplar do subgênero. O filme se passa no México, para onde as irmãs Lisa (Mandy Moore) e Kate (Claire Holt) viajam para passar férias e dar um tempo nos problemas pessoais. À sugestão de dois rapazes que conhecem numa festa, decidem fazer um mergulho de gaiola no mar a bordo de um barco comandado por Taylor (Matthew Modine), usado para observação de grandes tubarões brancos. Porém, um acidente faz com que as duas fiquem presas a 47 metros de profundidade, tendo que lutar para sobreviver enquanto o tempo passa e o oxigênio vai se esgotando.

Há duas consequências desafiadoras para o que se propõe aqui: trabalhar uma narrativa que se passa basicamente em um ambiente e apoiá-la majoritariamente nos ombros de duas intérpretes. Nos dois casos, há as partes boas e as ruins. Em uma história que pretende trabalhar na tarefa ingrata de fazer um “filme de tubarão” que não afunde (com o perdão da palavra…) é crucial que o expectador embarque na mesma urgência dos personagens e compartilhe o tormento de ser perseguido por uma criatura assassina perfeita dentro de seu próprio ambiente.

Para isso, um dos elementos essenciais é que sejamos capazes de ter alguma simpatia por Lisa e Kate, o que é parcialmente conquistado mais por nossa necessidade em torcer pela sobrevivência em uma situação de vida ou morte do que exatamente pela riqueza de suas personalidades. Convenhamos, não é preciso aqui nenhum estudo de personagem. Basta que haja alguma empatia para que, no mínimo, não torçamos para que sejam devoradas. Nesse sentido, curiosamente, o roteiro de Johannes Roberts acerta mais quando parece não ter muita consciência de que está tentando. Sempre que o drama envolvendo o ex-namorado de Lisa, por exemplo, aparece, nunca há o necessário para que desperte nossa atenção, servindo mais para justificar as escolhas da personagem e contrapô-la à irmã aventureira. Do mesmo modo, interromper o ritmo da narrativa para se dedicar à diálogos cheios de pieguice ajuda menos ainda. Já em outros segmentos, a maneira como aprendemos sobre a personalidade de Kate é bem mais eficiente quando ilustrada indiretamente, como quando esconde o próprio medo na frente da irmã com o intuito de acalmá-la para que, logo em seguida, desabafe seu desespero acumulado ao se afastar dela momentaneamente.

Mas o que mais importa mesmo no filme é essa sensação de perigo e como a direção trabalha para que ele seja palpável. Conduzido também por Roberts, o longa consegue um ou outro momento de tensão ao entender a maneira menos prejudicial, digamos, de usar a câmera em favor do senso de ameaça. Mesmo não sendo muito sutil na criação de rimas visuais – como aquela que envolve a sequência de abertura e o ambiente onde se passa a maior parte da história – ou na inventividade de criar situações mais envolventes, o diretor exibe algum controle na hora de preservar um pouco a imagem dos tubarões, mantendo-os fora do quadro quando preciso e não apelando muito para a artificialidade (os realizadores parecem ter noção da possibilidade do CGI soar falso). Outras sequências são operativas o bastante para fisgar nossa atenção, como a própria queda da gaiola e a boa dinâmica geográfica que se estabelece nos momentos mais tensos – e em um deles, por exemplo, há um elemento esteticamente bem interessante envolvendo um sinalizador e os tubarões (mesmo que isso acabe ferindo nossa suspensão de descrença ao apontar a conveniência de como esses predadores escolhem suas presas).

Em contrapartida, não há nada que realmente faça com que haja algo mais inspirado e que diferencie este de outras obras semelhantes. Com certo tempo de tela, a estrutura logo parte para uma repetição sem muito o que arriscar e, infelizmente, quando tenta, logo é sabotado pelo texto expositivo e repetitivo, o que prejudica não só a naturalidade da trama como também a possibilidade de sermos surpreendidos. Em certo momento, desisti de contar a quantidade de vezes que alguém falava sobre o oxigênio acabando (enquanto a câmera focava no mostrador de oxigênio) ou repetia os mantras de sobrevivência (quando não havia motivo a não ser informar ao expectador). Por isso mesmo, o risco que o filme corre quando finalmente tenta o inesperado acaba resultando na frustração. Além disso, há as situações envolvendo a aparelhagem de mergulho que se esforçam para escapar da conveniência e até prejudicam a experiência de que tiver um mínimo de noção quanto às leis da física ou à própria atividade de mergulho** (não que grande parte dela seja crucial para a narrativa, mas vale a menção).

O que sobre no meio disso tudo é uma obra genérica que não atinge nada acima da superfície de outras derivadas do clássico de Spielberg. Longe de exibir o seu mesmo vigor e excelência no suspense, Medo Profundo é apenas um respiro discreto que fica ali no espectro mediano do subgênero. Com uma continuação já anunciada, vamos torcer para que o potencial escondido se transforme em algo um pouco melhor.

Nota: 

*Nova Hollywood, ou American New Wave, é um movimento cinematográfico ocorrido nos EUA do fim da década de 60 até o início da década de 80. Marcando o fim da Hollywood Clássica, este movimento transformou significativamente o cinema americano através de uma geração de cineastas influenciados por vanguardas europeias, como a Nouvelle Vague e o Neo-realismo Italiano. Dentre os mais famosos estão Robert Altman, Peter Bogdanovich, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brian de Palma, William Friedkin, George Lucas, Terrence Malick, Arthur Penn, Roman Polanski e Steven Spielberg.

**Uma matéria (em inglês) do site americano Sportdiver.com que fala sobre as incongruências apresentadas no filme em relação ao mergulho profissional pode ser lida aqui a título de curiosidade (a maioria delas não influencia diretamente na narrativa do filme).

Trailer

Data de lançamento: 08 de março de 2018 (1h 41min)

Direção: Johannes Roberts

Elenco: Mandy Moore, Claire Holt, Matthew Modine, Yani Gellman, Chris J.Johnson

Sinopse: De férias no México, duas irmãs estão prestes a passar pelos momentos de maior tensão em sua vida: presas em uma gaiola de tubarões a 47 metros de profundidade no oceano, eles terão que lutar contra o tempo para permanecerem vivas. Mas com apenas uma hora de oxigênio e com tubarões brancos rondando o local, as chances se tornam cada vez menores.

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