Conto: Por ti, Cassandra. - NoSet
Autoral

Conto: Por ti, Cassandra.

Conto escrito por Franz Lima, publicado originalmente na coletânea “Cassandras“.
Por Ti, Cassandra
I
  
Jacques está há  pouco  tempo como bombeiro. Em  seus dois anos  e  meio  de  serviço  já  passou  por muitas situações incomuns. Hoje,  para  variar,  uma  novidade  o  atingiu  absolutamente desprevenido.
São  quase 18  horas e  o  dia  correu calmo.  Chegou  às 07h30 para poder tomar o  café da manhã e entrar de  serviço. O plantão é de  24  horas  corridas  e  isto  implica  em  sua  saída  apenas  no  dia seguinte.
Formou e  acompanhou o  cerimonial  à  bandeira.  Por ser  uma sexta-feira,  todos  cantaram  o  hino  nacional  e  Jacques,  como  a maioria,  reclamou  disto,  apesar  de  ter  plena  convicção  da  importância desta demonstração de patriotismo. 
O  restante  do  expediente  correu  normal.  Não  houve  uma ocorrência  grande  o  suficiente  para  tirá-lo  do  quartel  e,  por isso,  a televisão foi sua leal companheira entre um cochilo e outro. 
Mas a calma acabou quando o Oficial de Dia acionou o grupo de socorro externo. Eles teriam que averiguar um  pedido de resgate a um  escritor famoso. O  homem  estava desaparecido há três dias e a vizinhança suspeita de sequestro  ou  algo pior. O apartamento do homem  está  fechado  e  ele  não  tem  parentes  ou  amigos, excetuando-se o agente e as pessoas da editora à qual ele trabalha, responsáveis  por  informar  à  polícia  de  seu  desaparecimento  e também da falta de retorno no celular, aparentemente desligado.
O resgate foi  composto com  um  médico, dois enfermeiros, um socorrista e um  motorista na UTI  móvel. Em  outra  viatura, seguiram Jacques e Pedro, para remoção de um possível cadáver.
Já uniformizados,  foram  ao  apartamento  indicado.  Apesar  de ser  um  prédio  muito  bonito,  não  havia  elevadores  e  subiram  as escadas  até  o  4º  andar,  onde uma  vizinha  mostrou  o  apartamento do escritor desaparecido.
Bateram  à  porta  por  mais  de  5  minutos  sem  qualquer resposta.  Olharam  pelo  vão  da  porta,  mas,  estranhamente,  algo impedia a visão.
Sem  outra  opção,  a  porta  foi  arrombada.  A   escuridão  era intensa,  exceto  por  uma  televisão  ligada,  fora  do  ar.  Um  dos enfermeiros  e  o  socorrista  entraram  e,  instantaneamente, vomitaram.  O  cheiro  de  podridão  atingiu os homens. Jacques ficou tonto  e  quase  caiu.  Lanternas  foram  acesas,  iluminando aleatoriamente algumas partes do apartamento. Havia muito sangue pelo  chão,  que  estava  pegajoso.  As  portas  receberam  borrachas para vedar e as janelas foram lacradas por pregos e cola.
Não  restava  qualquer  dúvida:  alguém  fora  assassinado.  O médico  acionou  a  polícia,  enquanto  a  equipe  de  socorro  avançava ainda  mais para  o  interior  do  lugar.  Dez  dedos  de  mãos  estavam dispostos  em  forma  de  seta  e,  com  esta  indicação,  encontraram algo indefinido.
Jacques  estava  mais  atrás  quando  os  gritos  começaram. Homens  o  empurraram  sem  se  importar  com  a  escuridão  e  os tombos  pelos  choques  com  os  móveis.  O  pânico  era  tangível, palpável.
O  jovem  bombeiro  estava  impregnado  pelo  medo,  porém  a curiosidade  era  maior.  Com  lentidão,  ele foi  à frente, ciente  de  que algo  iria  atingi-lo  de  uma  forma  diferente.  E  seu  temor  se concretizou  quando  a  lanterna  iluminou  o  que  parecia  ser  um quarto.  Lágrimas  brotaram  em  seus olhos  e,  naquele  momento,  a alma  de  Jacques  foi  consumida  pela  certeza  de  que  Deus  não estava naquele lugar.
Eram  19h26 do dia 6 de junho de 2010.  Dois seres humanos estavam  mortos  no  apartamento  do  escritor  Paul  Wolfghann.  Um tinha o  corpo podre.  O  outro estava com  a  alma e a mente  fedendo tanto quanto os restos desossados encontrados.
O promissor bombeiro nunca mais voltou a falar.
II 
 
Ela despertou sem  saber o que ocorria. Sua cabeça doía e os olhos pareciam  querer explodir. As mãos formigavam, ao passo que seus  ouvidos  captaram  gritos,  cânticos  e  urros.  Algo,  pensou, estava terrivelmente errado.
Cassandra abriu  os olhos e sentiu a dor da luz a  penetrar-lhe as pupilas.  Suas mãos foram  amarradas com  extrema habilidade e força,  o  que gerava  a  sensação  de  dormência.  O  corpo  balançava em  um  ritmo  veloz.  Alguém  muito  grande  a  transportava  nos ombros, indiferente ao  seu sofrimento.  Por instinto, a jovem  mulher permaneceu  calada.  Em  seu  íntimo,  algo  indicava  ser  este  o caminho para viver mais.
Ao  redor,  homens,  mulheres  e  crianças  clamavam  por piedade,  força  ou  coragem.  Outros  pediam  colheitas  férteis  e mulheres  mais  férteis  ainda.  Mães  imploravam  para  deuses  sem nome  pelo retorno seguro  de  seus filhos. Filhos desejavam  adquirir a força dos pais ausentes.
A realidade  de tudo a atingiu com  intensidade. Então, os sons cessaram  e  apenas  o  crepitar  de  uma  fogueira  rivalizava  com  as respirações ofegantes.
Passos acelerados.  Uma  ordem  emitida  e, em  segundos,  um homem  eleva a cabeça da mulher pelos cabelos. A dor a impede de dizer qualquer coisa  e,  aterrorizada, emite algo próximo ao som  de choro.
Um  homem  magro  a  encara.  Não  há  brilho  em  seus  olhos. Não há compaixão. Sua presença ali era a prova de que os instintos de Cassandra não falharam.
Dos lábios do  homem  brotou um  leve sorriso, tomado por um hálito  tão  podre  quantos  os  poucos  dentes  restantes. Repentinamente ela percebe  algo que amplia seu pânico:  uma  faca feita de pedra, tão afiada quanto a língua dos maledicentes.
Ao  antever  o  que  a  aguardava,  ela  pôs  o  temor  de  lado  e profetizou:  “o  sangue  secará,  os  ossos  voltarão  ao  pó,  mas  meu espírito sempre será eterno.”
A última cena registrada por seus olhos foi  a  do  próprio  corpo sem a cabeça, pendurado nos ombros do homem.
Naquele mesmo instante, os cânticos recomeçaram.
III
A bela  mulher  cantava  algo  romântico. Paul  não  sabia  o  que dizia a música, porém  teve vontade de chorar ao ouvi-la. Ela é muito bela — já citei isso? — e , sem  dúvidas, jamais iria dar atenção para um  derrotado. E  sabe o que é pior?  Eu  sou muito mais desprezível que  um  derrotado,  pois  desisti  do  único  presente  que  ganhei  em toda  a  minha  existência:  a  vida.  Viver  transformou-se  em  algo totalmente sem  sentido. Não tenho um  trabalho, mulher, dinheiro ou amigos.  Vivo  em  um  mundinho  medíocre  e  insensato,  rodeado por pessoas sedentas de dinheiro, nada mais.
Saí  do lugar em  que  a  cantora  se apresentou e  retornei  para casa ouvindo o eco de suas canções.
Cheguei  a  meu  apartamento,  abri  o  chuveiro  e  aguardei  a água  esquentar.  Fui  para  baixo  do  chuveiro  e  a  água  lava  meus pecados.  O  frio  do  metal  me  assustou  e  vi,  rapidamente,  uma mulher sangrando pelo pescoço e, o mais estranho, sorrindo.
Era a minha hora de morrer. 
IV

Ao  longo  dos  milênios  ganhei  poder,  conforme  descobria como manter minha essência viva. 
A  carne  é  um  invólucro,  um  vidro  que  impede  a  perda  do perfume,  nada  mais.  O  que  somos,  essencialmente,  já  foi  gravado em  nossas  almas  e,  ao  vivermos,  apenas  aprimoramos  ou degradamos isso.
Demorei  muito  a  perceber  como  voltaria.  O  processo  é  difícil demais,  principalmente  na  escolha  do  locutor.  Os  seres  humanos sempre temeram  o desconhecido e, desde  minha  morte,  faço parte deste panteão.
Vi  mortos  a  vagar  junto  de  seus  entes  queridos,  apenas motivados pelas orações, na Roma antiga.
Deuses  de  inúmeras  civilizações  reinavam  entre  seus  fiéis. Isto duraria  até que  a  fé  neles perdurasse e,  para  isto, usavam  de todos  os  recursos  para  manter  as  preces  altas  e  os  joelhos dobrados.
O  primeiro  deles  eu  vi  assim  que  me  mataram.  Minha presença  não  fora  sentida,  já  que  ele  regozijava-se  entre  os membros  do  clã  onde  fui  sacrificada.  O  deus,  para  quem derramaram  meu  sangue,  foi  aquele  que,  inadvertidamente, iluminou o caminho que eu iria trilhar.
Era o início do caos.
V

Enquanto  a  água caía, comecei  a cantar a música da mulher do clube. Minha voz era um sussurro, tamanha a vergonha de mim. 
A água corrente  arrastou para os esgotos a essência má  que existia. Fiz várias preces,  todas pedindo por uma partida rápida e o perdão  pelo  que  faria.  Não  é  um  jeito  digno  de  partir,  mas  eu acreditava que minha permanência nada traria de bom.
Caso exista  mesmo  um  Deus, ele  sabe  tudo  que passei.  Não é  possível  ninguém  ter  presenciado  todas  as  humilhações  e  o desprezo e escárnio com  que me atingiram. — Não há testemunhas a meu favor? — questionou, enquanto o vapor embaçava o espelho.
Paul  olhou  para  baixo.  Seus  dedos  passearam  pelo  fio  da lâmina, criando leves filetes de sangue.
—  Vou  derramar isto por você.  Não  sou  um  covarde,  sei  que sabe,  porém  não  há  mais o  que fazer. Tudo  me  foi  negado. Se  ao menos eu  tivesse recebido  algo  e  depois  o  perdesse, como Jó, ao menos teria  a  certeza  de  sua  existência.  Por  que  me  abandonou? —  inquiriu,  enquanto  suas  lágrimas  se  mesclavam  às  águas  do chuveiro.
A faca subiu  quase  mecanicamente  ao  pescoço. No espelho, uma  mulher  sorria,  mesmo  com  o  pescoço  cortado,  de  onde  saía sangue demais. Pensei estar em  choque, ainda que não tivesse me cortado.
Forcei  a  lâmina  e  minha  pele  sangrou.  Hesitei.  Então,  antes que  a  coragem  voltasse,  ouvi  as  doces  palavras  da  mulher,  já  ao meu  lado.  Ela  não  sangrava  mais  e,  com  sutileza,  impediu-me  de prosseguir com o sacrifício.
—  Nada  disso  é  necessário.  —  disse. —  Vou  ajudá-lo  a  sair do limbo e, para isso, basta acreditar em mim.
A faca caiu de minhas mãos e seu som  ecoou, mesmo com  o barulho  do  chuveiro.  Senti  uma  proteção  indescritível  me  englobar e, junto com ela, o torpor de um sono calmo como jamais tive.
Era  o  recomeço  da minha  vida.  Eu  estava  no  ventre  de  uma deusa. 
VI

Muitos foram  os homens  e  mulheres com  quem  vivi. Alguns, eu  acompanhei  desde  a  infância.  Vi  suas  ambições  se  tornarem realidade. Vi sonhos virar pesadelos, e impérios se converterem  em pó.  Também  presenciei  a  fraqueza  sucumbir  à  vontade  de  viver, vindo  a  se  tornar  algo  de  incomensurável  poder. Todos me  deram algo  em  troca  daquilo  que  lhes  ofereci.  Todos  aceitaram  minha dádiva  e  me  doaram  apenas  algo  essencial  a  seres  como  eu: crença. Não há um  deus sem  adoradores, assim  como não há líder
sem comandados. Esta é uma lei imutável.
Por  séculos,  suguei  cada  sílaba,  lágrima  ou  súplica  a  mim devotada.  Ganhei  sabedoria e  poder e,  em  troca, auxiliei homens a mudar o destino da humanidade. 
Octavianos,  Temujin,  Hirohito,  Mao,  Adolf,  Lee  Harvey, Lennon,  Dali,  Poe,  Christie  e  tantos  outros.  Papas  ou  políticos, pessoas  de  bem  ou  não,  todos  ficaram  sob  minha  influência.  De suas  crenças  no  que  sou,  de  seus  desejos  e,  principalmente,  da cobiça latente  em  cada ser humano, recebi  o  poder de  permanecer neste mundo.
Mas  eles  não  são  eternos,  assim  como  tudo  no  universo. Novos  fiéis  deveriam  ser  encontrados  e,  tal  como  um  parasita, partia  em  busca  de  um  novo  hospedeiro.  Mas  não  basta  ter ganância para me  atrair. É  preciso  ter algo  adormecido em  si,  algo que seja tão intrincado quanto a energia nuclear, instável, puro, letal e poderoso.
Hoje, achei o mais potencial deles.
VII

Cada  pessoa  da  qual  me  aproximei  tinha,  em  sua  alma,  a orça de um  grande oceano. Uns eram  maléficos, outros não. Nunca me  importei  com  esses  detalhes. Aprendi  que  a  essência  humana só é preservada  com  o  equilíbrio entre os bons e os maus,  pois as aparências apenas servem para disfarçar esta dualidade.
Paul era um  enigma muito complexo. Seus traumas o inibiam, suas fobias o impediam  de crescer e a imagem  que ele via refletida no espelho  o  incomodava  a ponto  de  buscar o fim  da sua vida. Era perfeito  em  todos os  detalhes.  Suas  fraquezas seriam  convertidas  em  meu poder.  Por um  período longo, ficarei  isenta  do cansaço de buscar alguém.
 
VIII
Não sei  se estou delirando. Tenho certeza absoluta de não ter usado  qualquer  tipo  de  droga  e,  mesmo  assim,  continuo  com  a sensação  de  torpor.  Estou  ficando  louco?  Claro  que  sim,  pois, segundos atrás,  tentei  ceifar minha  vida.  Isto é  o  mais doentio  tipo de loucura. 
A água continua  a escorrer por meu corpo.  Ela  está quente  e me  acalma. Não sinto mais vontade de partir.  Não  sinto  o  medo de olhar  nos olhos  dos  outros.  Flui  em  mim  a  força  de  quem  esteve preso  por milênios e,  repentinamente, foi  libertado.  Quero gritar até que as cordas vocais sangrem. Todos me ouvirão, acreditem. Todos.
IX

Ele é realmente perfeito.  Um  poço seco, aparentemente, mas com  um  grande lençol  pouco abaixo dele. Bastou cavar. Bastou  ter as  ferramentas  corretas e  agora  não  preciso  me  preocupar  com  o deserto que me cerca.
Paul abriu sua mente e seu coração para mim. Vi um passado pleno de tristeza, desprezo e intimidação. Não  há como um  homem crescer  sem  complexos,  após  tantas  agruras.  Contudo,  os  que construíram  estas  barreiras  não  contavam  com  um  fator:  a argamassa e as pedras não são indestrutíveis. Com  paciência, toda muralha cai. A história ensinou isto de diversas formas.
Com  calma, alcancei  o âmago de meu novo companheiro. Ele é belo, me  surpreendendo. Há uma existência mantida em  sigilo no interior  do  coração.  Com  um  leve  sussurro,  começo  a  mesclar nossas  essências.  Ele  nasceu  pronto  para  ser  meu  escriba,  meu confessor, companheiro  e  amante. O  destino  me sorriu: encontrei a parte  capaz  de  completar  minha  alma.  Em  breve  todos  ouvirão nossas histórias. Em  breve  escreveremos novas histórias, já  que o caos  nos  uniu  para  gerarmos  algo  grandioso.  Ouça  meu  clamor, homem  das palavras.  Liberte-se  dos  grilhões  da  tirania  do  mundo moderno  e  lance-se  comigo  no  abismo  das  incertezas.  Juntos, nossas vozes serão levadas a todos os cantos do mundo.
X

Os  caminhos  que  segui  foram  intrincados.  Desde  minha morte,  o  que  ditou  a  continuidade  da  minha  existência  foi  a persistência, alimentada pelo ódio.
Meu  corpo  jorrava  sangue  enquanto era  carregado  como  um pedaço  de  carne  podre,  sem  qualquer  respeito.  Eu  vi  tudo  aquilo com  um  misto  de  incredulidade  e  raiva. Os  humanos não  estavam totalmente  errados,  pois, para  eles, era  normal  sacrificar.  Em  seus corações, aquilo era a única forma de deter as desgraças.
O que não aceitei  era ver aquela entidade bebendo da crença e  nada  oferecendo  em  troca.  Todas  as  coisas  boas  e  ruins  eram fruto direto  de  fenômenos climáticos, acaso ou reflexo da índole do homem.  Se  há  um  deus  capaz  de  mandar  ou  influenciar  nisso, honestamente, ainda não o conheci.

XI

Eu  fui  um  homem  à  mercê  de  meus  próprios temores.  Tudo aquilo que um dia eu poderia ser, foi enclausurado pelo medo. 
A pior perda aconteceu exatamente no dia de meu aniversário de  quatorze  anos,  quando,  durante  as aulas, escrevia uma  história sobre  um  jovem  que vencia seus perseguidores pela influência  das palavras.
Meu  texto  foi  tomado  de  mim  e  não  reagi.  Dois moleques  o leram, mudando tudo, humilhando-me muito mais. Até hoje ouço as risadas. Até hoje nada saiu de minhas mãos e mente.
Até hoje…
XII

Já  tive  outros  escritores  como  parceiros.  Edgard  foi  um  dos mais promissores,  porém  sua  mente  não  resistiu  por  muito  tempo ao mundo ao qual foi apresentado.
Uma  coisa  deve  ser  deixada  clara:  não  sou  um  parasita.  Ao contrário, desperto  o que há de mais promissor naqueles cuja  alma me uno. De seus legados, tiro a “vitae” para continuar minha senda. Alcunhas recebi, exorcizada fui e, ainda  assim, continuo a vagar no mundo dos vivos.
Hoje, completei  oito anos de ligação a  Paul.  Ele  se saiu  bem melhor  do  que  imaginei  e,  atualmente,  seus  livros  só  perdem  em repercussão  à  história  do  Cristo  e  à  loucura  de  meu  falecido guerreiro austríaco, cujo ego acabou por findar nossa simbiose. 
Estou ao lado de meu pupilo. Ele já pode me ver e eu também vejo  suas  novas  ambições.  Pobre  homem,  castigado  por  ser diferente,  excluído  por  não  se  encaixar  no  que  é  considerado normal.  Nossas  obras  lhe  trouxeram  poder,  pois  o  dinheiro  é sinônimo  de  influência  e  ele  possui  o  suficiente  para  abrir sorrisos, caminhos e  pernas.  Toda  mulher  cobiçada  vira  uma  meta. Não  há esforço ou recurso grande o suficiente para impedi-lo de alcançar o que  deseja.  Que  ele  siga  com  suas  caçadas,  uma  vez  que mantenha minha fonte de energia por intermédio dos livros.
Assim,  mais  uma  década  de  prazeres  e  cooperação  se passou.
 
XIII

O  escritor teve tudo o que desejou. Comprou corpos, almas e até o amor. Sua fortuna cresceu e seu apetite por tudo o que nunca teve  não  era  saciada,  apenas amenizada.  Foram  anos  agradáveis em  que  usou  de  seus recursos para humilhar e arruinar os que  lhe fizeram  mal.  Eles  sofreram  e  continuaram  vivos  para  sempre lembrar  quem  lhes  trouxe  a  derrocada.  A  vingança  foi  doce,  mas durou bem menos do que esperou.
Mulheres das mais lindas e sensuais foram  seus  brinquedos. E, como toda criança, um  dia ele as colocou de lado. Com  o tempo, Cassandra  se  tornou  sua  maior  cobiça.  Mas  como  conquistar  o amor  de alguém  que é  superior ao tempo?  Como  unir  um  corpo  a um  espírito? Não havia respostas a essas questões, apesar de suas ambições andarem  lado a  lado,  porém  nada  entre  os dois mundos iria impedi-lo de desvendar essa charada. 
 
XIV

Passo  ao  lado de seres antes considerados divinos. Criaturas etéreas  oriundas  do  Egito  antigo,  África,  tribos  sul-americanas, Oceania,  China,  Japão,  países  nórdicos,  dos  pólos,  das  grandes metrópoles  –  estes  são  os  de  existência  mais  curta  —  e  outras localidades deste pequeno planeta. 
Essas  antigas forças  já  não  podem  mais  influenciar.  Os  que neles acreditaram  feneceram  no  tempo.  Eu corri  este  risco  e,  com muita  astúcia,  sobrepujei  as  armadilhas  que  os  séculos  nos propõem.  Tornei-me  uma  candidata  á  real  eternidade.  Falta  muito pouco para conquistar essa dádiva. Muito pouco.
XV

Finalmente  chegou o momento que  mais temi. Era a  hora  de desfazer nosso acordo de  cooperação.  Meu escriba  já  havia caído em  desuso, como tudo nesse  mundo de consumismo desenfreado, de  informações  e  modismos,  e  nossos  livros  perderam  grande parcela  de  influência.  Eu  não poderia me  dar ao  luxo  de  ficar  com ele, faltando tão pouco para conseguir a eternidade.
Percebi,  anos  atrás,  que  o  comportamento  dele  mudou.  Os prazeres de outrora já  não  lhe importavam. Algo em  mim  despertou um  sentimento  real  na  alma  daquele  mortal  e,  infelizmente,  não poderia ceder a isso. Cedo ou tarde  ele morrerá e, como todos que conheci, apenas suas obras ficarão. A alma humana é muito volátil e se  desprende  desse  plano  com  muita  rapidez.  Eu,  ao  contrário, estou próxima de alcançar o inimaginável.
O  amor  é  belo,  contudo  não  será  suficiente  para  impedir-me de alcançar meus objetivos. E eles estão tão próximos.
 
XVI

Nunca  fui  cego.  Nunca  deixei  de  perceber  o  desprezo  com que  me  olhavam.  Porque  seria  diferente  agora?  Cassandra  não valoriza  o  que  posso  lhe  dar.  Ela  não  se  importa  com  meus sentimentos e irá partir. Ela confidenciou a mim suas ambições. Não a culpo por isso. Séculos de solidão só podem  ser minimizados pelo poder.
Tudo  o  que  pude  fazer  em  prol  de  sua  busca  eu  fiz.  Meus livros perderam  gradualmente a influência, sendo postos de lado em troca de vídeos, podcasts, videologs, livros digitais e aparelhos cada vez  mais  dotados  de  recursos.  A  era  do  consumismo  estava  em desenfreado avanço. Tudo perde o sentido  de  um  dia para o outro. Calamidades  são  esquecidas  segundos  após  acontecerem.  Um novo celular é  suficiente para  tirar a  atenção  sobre o que  acontece nesta esfera imunda.
Minha musa disse que faltava pouco para ela chegar ao ápice do poder. Pequenas parcelas dos legados de seus antigos parceiros foram  acumulando  em  sua  essência  e,  em  breve,  ela  poderia dispensar definitivamente esse tipo de troca.
O  que,  entretanto, atrapalhava era que a cada dia  ficava mais difícil  conseguir notoriedade  em  um  mundo  disperso  pelo  excesso de informações, benefícios e tecnologia.
Só  um  ato  de  grande  destaque  lhe  daria  a  parcela  final  de poder para ascender ao patamar de uma Eterna e  eu lhe  daria  este presente.  Era  o  começo  da  eternidade  para  ela  e  o  começo  de minha própria morte.
 
XVII

Ele  fez  tudo  da  forma  certa.  Sua  áurea  ficou  escondida  de mim,  à  base  de  magia.  Muitas  pessoas  foram  envolvidas  nesta trama. Muitas pessoas foram  escondidas com  o uso de sua fortuna. O  dinheiro  gerou  uma  complexa  rede  de  colaboradores  e,  enfim, Paul conseguiu seu intento.
Senti  o  exato  momento  em  que  sua  alma  partiu.  A  dor  foi grande,  pois ele  se  vinculou  a  mim  pelo  amor,  algo  desconhecido até então por mim.
Fui até o local do ritual. O  choque de vê-lo naquele estado me abalou,  outra  sensação  esquecida  há  tempos.  Seu  corpo  foi desmontado e exposto metodicamente. A  aura de sofrimento estava impregnada  em  tudo.  Alguém  o  desossou  cirurgicamente,  sem  a menor piedade.  Em  todas as  paredes  do  apartamento,  meu  nome estava escrito em sangue.
E  o pior de tudo: ele foi  o mandante de sua própria morte. Ele ordenou  que  o  esquartejassem  para  mostrar  ao  mundo  seu  amor por mim.
Um  vídeo  foi  espalhado  pela  internet  de  forma  viral.  A curiosidade mórbida dos homens por cenas daquele porte lhe deu a notoriedade  necessária  e,  assim,  a  lenda  de  Cassandra  ganhou fama.  Paul,  por meio de  seu flagelo,  deu  a  última parcela de poder necessária para eu alcançar a imortalidade.
Jamais  esqueci  seu  ato.  Ele  seria  recompensado  de  alguma forma.
XVIII
Uma  alma  é  algo  imortal.  Eu  fui  uma  alma  e  reneguei  a imortalidade que lhe é devida. Ser eterno sem  um  propósito não me atraía.
Eu  sou uma divindade, agora.  Paul fez um  sacrifício por amor a  algo  incompreendido.  Muitos  questionaram  seu  ato,  muitos comentaram,  muitos  fizeram  preces  por seu  espírito  e,  em  muitos, esta  história  estará  sempre  viva.  Isso  me  deu  o  que  faltava  para
ascender  ao  panteão  dos  Eternos.  Agora,  uma  nova  busca  se iniciava.
O  sofrimento  de  meu  antigo  companheiro  era  a  prova derradeira  do  que  ele  sentia  por  mim.  Sua  morte  deveria  ser  um ponto  final  à  sua  existência,  mas  morrer  por  amor  é  algo  que poucos fizeram.  Qualquer  um  que  faça  algo  dessa  magnitude  não passa incólume.
Muitos anos se  passaram  e,  em  um  sombrio dia, encontrei  a essência, a alma de Paul. Ele não partiu. Ele ainda estava vinculado ao seu amor não correspondido. Chegara a hora de retribuir tudo o que  fez  a  meu  favor,  colocando  para  sempre  ao  meu  lado,  como meu único amor.
 
XIX

Não entendo o que está acontecendo.  Eu sempre tive grande dificuldade  em  pôr  as  palavras  no  papel.  Agora,  entretanto,  uma história  passa  diante  de  meus olhos, e minhas mãos não param  de escrever. Já estou a quase seis horas trabalhando sem  parar e não sei  quando  tudo  irá  terminar,  mas  não  tenho  pressa.  Este  é  um momento sublime e vou saboreá-lo até o fim.
Muitas  horas  mais  transcorreram.  Meus  dedos  doem  e  há pequenos sangramentos,  o  que  não  me  incomoda.  À minha  frente vejo  o  trabalho  definitivo  de  um  escritor.  Uma  história  de  amor diferente, eterna e sinistra.
Os  detalhes  me  deixam  curioso.  Há  citações  de  lugares  e épocas  que  não  conheci  e,  entretanto,  existem,  todos detalhadamente  transcritos.  Nunca  acreditei  em  espíritos,  mas  vou abrir uma exceção dessa vez.
 
XX
Paul  me  conta  detalhes  de  sua  jornada  pelo  mundo  dos mortos.  Ele  sofreu  torturas  por  parte  de  espíritos  obsessores, homens  presos  a  seus  amores  mundanos,  às  suas  paixões materiais  e  desejosos de  continuar  entre  os vivos.  Ele  relata,  com tristeza,  seu  encontro  com  o  jovem  que  encontrou  seus  restos mortais e a destruição de sua mente. Uma perda que foi gravada no espírito  de  Paul,  já  que  ele  nunca  teve  a  intenção  de  destruir alguém, além de si próprio.
XXI

Fui  até  um  hospício,  uma  casa  para  tratamento  de  doentes mentais,  em  busca  de  pistas  sobre  o  que  realmente  estava ocorrendo.  Aquela  história  poderia  ser  apenas  fruto  de  minha imaginação, mas antes de acreditar nisso, era  necessário  averiguar as informações que recebi.
Cheguei à recepção e citei o nome do jovem. Foram segundos de espera  longos e nervosos. A única  coisa que eu queria ouvir era que ele não existia.
Então,  com  um  leve  menear  de  cabeça,  a  atendente confirmou  que  o  bombeiro  estava  realmente  internado  naquele lugar.
Por pouco não permaneci ao lado dele.
 
XXII

Meu objetivo foi atingido. O  romance sobre minha história com Paul foi publicado. Sucesso imediato.
Do  fruto  disso,  o  espírito  de  meu  companheiro  ganhou  mais substância.  Ele  ainda  era  um  bebê,  perto  do  que  hoje  sou,  porém estava no bom  caminho. Comigo, em  apenas alguns séculos ele iria se  tornar  uma  divindade,  usando  de  todos  os  recursos possíveis.
Comigo,  sua  história  iria  se  perpetuar pelas  gerações vindouras e, um  dia, iremos enfim  selar a união do sangue e do espírito. O tempo provaria que, mesmo separados, sempre fomos um só.
Obrigado a todos que prestigiaram meu trabalho ao ler este conto.
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