Revivendo Clássicos: Ghost - do Outro Lado da Vida completa 30 anos - NoSet
Cinema

Revivendo Clássicos: Ghost – do Outro Lado da Vida completa 30 anos

Em um passado cinematográfico não muito distante corria uma lenda que de dez em dez anos, mais ou menos, um filme de amor, às vezes despretensioso, encantava uma geração. Em 1970, tivemos Love Story (idem), um sucesso arrebatador de público, um drama lacrimejante que mostrava para o mundo que amar é não ter que pedir perdão. Em 1980, vinha às telas Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time), um drama que mexia com um amor do passado, uma viagem atemporal e um amor impossível. Mais uma vez um sucesso de público com filas nos cinemas para ver o drama estrelado pelo nosso eterno e saudoso Superman, Cristopher Reeve. Pulamos quase duas décadas: uma história real de um transatlântico que afundou em 1912 e que misturava uma paixão proibida tendo cenário o naufrágio mais famoso da história, simplesmente conquistou o mundo em 1998, sendo Titanic (idem) o filme mais visto da história até o momento. Voltando menos de uma década apresento mais um filme que também arrebatou corações, consumiu pilhas de lenços e emociona até hoje: falo de Ghost – do Outro Lado da Vida (idem). Todos esses quatro filmes apresentam elementos parecidos: amores impossíveis, drama intenso, uma trilha sonora que marcou época e o principal: foram sucessos de bilheteria e tem até hoje fãs que os reveem e se emocionam. Mas enfim, escolho a história de um amor que era além da vida e que faz 30 anos em 2020, falarei do Ghost, a maior bilheteria entre 1990 e 1991, estreia solo na direção de Jerry Zucker.

No filme, logo somos apresentados a um trio de amigos: o casal Sam e Molly, ele bancário e ela uma artesã que compram um amplo apartamento em Nova York e sempre estão na companhia do colega de banco de Sam, Carl, sempre prestativo ao casal. A vida do casal nos é apresentada como um relacionamento de amor intenso até que em uma noite, voltando de uma peça numa rua escura e deserta de uma violenta Nova York do início dos anos 90, são assaltados e Sam é assassinado. Seu espírito sai do corpo e nada entende o que se passou com sua matéria e acaba vagando como um fantasma perdido demorando a assimilar sua nova condição. Sam passa a vagar não se desprendendo de sua velha vida, mas acaba vendo que sua amada Molly está em perigo e que seu assassinato não foi uma mera fatalidade. Mas como não tem como se comunicar, resolve ir atrás de uma médium e acaba encontrando a divertida charlatã Oda Mae Brown para ser seu elo material de comunicação com o mundo e com sua ameaçada Molly.

Realmente poucas pessoas poderiam apostar no sucesso estrondoso de Ghost em 1990. Primeiro pela direção de Zucker. O diretor juntamente com seu irmão Zucker e Jim Abraham, o trio ZAZ, revolucionaram a comédia americana da década de 1980 com Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (outra pérola que faz 40 anos esse ano) e Top Secret com seu nonsense e besteirol na medida certa. Ficava difícil acreditar que sozinho e num filme romântico e com temática espírita Jerry conseguiria êxito. E bota êxito aí, com orçamento de 22 milhões de dólares o filme faturou 505 milhões de dólares, garantindo a aposentadoria dos filhos dos cinco produtores e de Jerry. Apesar de o roteiro não ter nada de surpreendente, a história de Bruce Joel Rubin, muito bem dirigida por Zucker, conseguiu fazer um mix de ideias que funcionou como nunca em uma película. Ghost tem uma linda história de amor, tragédia, traição, humor, sobrenatural, espiritismo, suspense, ação, efeitos especiais, uma trilha sonora belíssima e atuações corretas do quarteto principal de atores. Na época do filme Patrick Swayze era apenas um galã já quase beirando os 40 que tinha feito sucesso em alguns filmes de ação como Matador de Aluguel e tinha provocado suspiros pela sua atuação no cult musical Dirty Dancing, em 1987, que até hoje inspira coreografias estapafúrdias em casamentos ao som de Time of My Life. Ghost caiu como uma luva para Swayze, atuando muito bem como o perturbado, apaixonado e errante Sam. Demi Moore também aproveitou com unhas, dentes e lágrimas seu papel como a fragilizada Molly. Antes disso, Demi tinha feito filmes oitentistas como Sobre Ontem a Noite, O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas, além de abacaxis como A Sétima Profecia e O Feitiço do Rio, mas nunca fora protagonista de destaque. Com Ghost tudo mudou. Demi ficou poderosa, fez filmes como Questão de Honra, e foi se tornando a atriz com cachês mais valorizados do cinema com filmes como Proposta Indecente, Assédio Sexual e principalmente Strip Tease (1996), onde ganhou o maior cachê feminino da história até então. Tony Goldwin como o “amigo” Carl do casal também faz uma atuação perturbadora, densa, um dos destaques do filme. Whoopi Goldberg, que literalmente rouba a cena do filme, na época vinha apenas de um grande filme no currículo A Cor Púrpura, de 1985, e algumas comédias medonhas nos anos 80, mas ela consegue encarnar com perfeição a trambiqueira médium que passa a ser atormentada por Sam, dando o tom brilhantemente de comédia ao filme, atuação que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante merecidamente. Aliás, dali em diante também sua carreira deu uma guinada estrelando comédias de sucesso como Mudança de Hábito nos anos 90. Bruce Joel Rubin também venceu como roteiro original superando o favorito Woody Allen que concorria por Simplesmente Alice.

Ghost entrou no imaginário popular e cenas como a do casal abraçado fazendo um vaso de cerâmica ao som de Unchained Melody ficaram imortalizadas. A trilha de Maurice Jarre também fez bastante sucesso, mas a canção tema do filme interpretada pelos The Rigtheous Brothers, em 1965, se tornou um dos maiores sucessos do início da década de 1990. A canção nem era novidade no cinema sendo inclusive feita para o filme Unchained (um filme de temática social e prisão), de 1955, com música do maestro Alex North e letra de Hy Zaret que chegou a concorrer ao Oscar com a interpretação de Todd Duncan. Unchained Melody teve diversas regravações, como as de Leo Sayer, Cindy Lauper, U2, Air Suplly e foi a última música gravada (captada de um show ao vivo) de Elvis Presley. Aliás, conta-se que foi a última canção que ele cantou na vida em um show, dia 21 de junho de 1977, com uma interpretação marcante e visceral e fácil de achar e se emocionar assistindo-a no YouTube. Mas voltando a Ghost, não tem como não associar a canção ao filme e à beleza e sensibilidade da interpretação de Bobby Hattfield, arrepiante.

O filme é muito lembrado e cultuado principalmente no Brasil pela temática espírita. O Brasil há décadas é um dos países mais adeptos da doutrina espírita e o filme, apesar de dar algumas escorregadas, abusando da materialidade provocada pelo espírito (dando mais um ar de filme de terror que conjuntura espiritual), em certos momentos explora algo da doutrina como os socorristas de luz, as trevas que podem lembrar a ida ao umbral, os espíritos que não se desligam da Terra, como o fantasma do metrô e até a busca de uma missão antes da elevação, enfim, mesmo com derrapadas funciona. O brasileiro se encantou com o filme, ficando quase um ano em cartaz e quando passou pela primeira vez na televisão, no fim do ano de 1993, a Tela Quente da Rede Globo na última semana daquele ano, teve sua maior audiência da história até aquela data.

Jerry Zucker realizou apenas mais dois filmes após Ghost, praticamente se aposentando das câmeras em 2001. Patrick Swayze seguiu uma carreira irregular nos anos 90 e 00 e acabou falecendo em 2009 após dois anos lutando contra um câncer de pâncreas. Demi Moore virou uma mega estrela dos anos 90 marcando história, mais pelos seus cachês que pelas atuações. Whoopi seguiu na comédia dos anos 90, mas depois dos filmes que era a freira mais famosa do cinema dos anos 1990, também viu sua carreira cair em filmes fracos e de pouca expressão.

Ghost – do Outro Lado da Vida é um daqueles filmes que acabam marcando uma época, sua história de um amor além da vida, com roteiro simples, mas com todos os elementos que transformam uma história redondinha em um belo filme. Ghost, 30 anos depois ainda emociona, diverte, empolga e nos faz acreditar que independente de qualquer crença ou falta dela sabemos que o amor verdadeiro, aquele de verdade mesmo é eterno e por mais piegas que possa parecer, se ele for lembrado sempre, segue por mais que toda uma vida.

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