Revisitando clássicos: Assassinato no Expresso do Oriente (1974, de Sidney Lumet) - NoSet
Cinema

Revisitando clássicos: Assassinato no Expresso do Oriente (1974, de Sidney Lumet)

Na próxima semana entrará em cartaz a mais nova adaptação do romance policial Assassinato no Expresso do Oriente, escrito pela célebre Agatha Christie, ou a “Dama do Crime”, como ficou conhecida por sua seminal influência no gênero literário.

A história já foi recontada diversas vezes. Falando só das adaptações para o audiovisual, com esta de 2017 já se somam cinco: duas para o cinema e três para a televisão. E não é difícil entender o porquê a história foi tão aproveitada para outras mídias. Sua simplicidade aliada à sua sagacidade e à facilidade em captar a atenção do leitor pela sua trama repleta de mistérios e com um uso exemplar das ferramentas de pista e recompensa faz com que a obra seja um material perfeito a ser lapidado durante qualquer adaptação. O enredo envolvente e os personagens peculiares já estão lá. Assim como um protagonista curioso – o famoso detetive Hercule Poirot, um dos personagens mais conhecidos e constantes nas obras da escritora – que conduz naturalmente o leitor a acompanhá-lo enquanto monta o quebra-cabeça criminal.

Histórias assim são, como dito, uma matéria-prima quase perfeita nas mãos de um bom diretor. O único ponto que, cinematograficamente falando, poderia se transformar num empecilho (teoricamente) seria o fato de 90% dos eventos se passarem num só ambiente: o trem Taurus Express. A linguagem do cinema foi se estruturando, com o tempo, em cima do fato de que sua câmera é seu lápis de escrever, e as imagens existem para terem a força de contarem a história por si só. Por isso mesmo o cinema ganhou sua própria gramática quando se afastou da dependência de características teatrais no início de sua existência: câmera estática, ponto de vista único e, geralmente, frontal (imitando o teatro) e visão contínua do desenrolar do enredo (pois o benefício da edição e montagem é do cinema).

Mas um bom cineasta sabe explorar o ambiente, mesmo que este seja limitado. E aqui estamos falando de Sidney Lumet, responsável por Doze Homens e uma Sentença, um obra-prima que tem como característica marcante justamente desenvolver uma narrativa excepcional se passando em uma sala de um júri de tribunal (falando do diretor, Rede de Intrigas não se encaixa no meu exemplo, mas é outra obra-prima que merece ser vista por qualquer cinéfilo). Como já tinha provado em 1957, Lumet tinha alto domínio da mise-en-scène (habilidade de colocar e organizar os elementos em cena, como os atores, os objetos e o cenário, trabalhando a composição física do quadro) e na sua versão do livro de Agatha Christie, teve um desafio semelhante: despertar a atenção do espectador para uma trama que dependia basicamente de uma investigação conduzida por diálogos.

E aí entra o poder da inventividade de um cineasta. Num livro, a nossa capacidade descritiva e imaginativa é a que impera, mas, num filme, o diretor tem que ser o responsável por dinamizar o máximo da ação, mesmo que esta seja calcada numa série de diálogos (mérito também do roteirista Paul Dehn). Aqui, é preciso estudar com cuidado o arsenal para a confecção de uma narrativa visual: o movimento de câmera, os closes na hora certa, os planos que se fecham nos momentos mais importantes, os flashbacks que ajudam a unir as pontas soltas e um ritmo que mantenha a trama sempre em movimento. Lumet, nesse sentido, é hábil e consegue afastar a sensação teatral de acompanhar o personagem Poirot enquanto interroga, nos mínimos detalhes, 12 passageiros suspeitos.

O diretor Sidney Lumet

Mas suspeitos de quê? Bom, a história (premissa) é a mesma do livro: o detetive está numa viagem para Istambul no Taurus Express com 12 passageiros, um médico e um amigo. Durante uma nevasca mais forte, o trem é obrigado a parar para a retirada da neve. Enquanto isso, se descobre que um dos passageiros foi assassinado em sua cabine durante a noite, restando a Hercule Poirot a responsabilidade de solucionar o mistério antes que o comboio chegue ao seu destino.

É um jogo bastante tradicional, que se trata de unir as peças que vão sendo plantadas no enredo à medida que o espectador tenta acompanhar o raciocínio do protagonista – este sempre um pouquinho mais à frente de nós, o que é usado como ferramenta para que a solução apresentada por ele tenha o choque necessário para configurar o clímax da narrativa. E no filme, essa narrativa é povoada por diversos personagens diferentes e recursos que entram nos momentos certos para que, no final, sejamos capazes de reconstruir a solução por nós mesmos.

É interessante notar como Sidney Lumet é um cineasta que se encaixa perfeitamente de acordo com sua experiência num tempo onde o cinema tinha se transformado bastante num espaço de duas décadas. Vamos nos lembrar que ele é, de certa forma, um “produto” do cinema clássico: uma época onde os grandes estúdios eram os chefes de toda a produção e detinham um poder imenso e restritivo sobre os rumos de uma obra. Em termos de linguagem, Lumet realizou trabalhos calcados na rigidez cirúrgica da Hollywood clássica, com suas narrativas bem costuradas e seguindo o ABC do cinema quase didaticamente – aliás, é uma época onde esse “didatismo” não deve ser confundido com algo fácil ou raso. A construção clássica dos filmes dessa época é incrivelmente influente e detém uma habilidade nostálgica de ter estabelecido bases cujas fundações são ensinadas até hoje para qualquer cineasta iniciante.

Mas Assassinato no Expresso do Oriente foi feito em 1974, quando o cinema já tinha deixado de ser “clássico” e passava por um momento onde já se diferenciava quase totalmente de algo que tivesse sido feito alguns anos antes, quando o mundo do cinema começava a ser chacoalhado pelas vanguardas. E é bastante evidente que este é um filme que mantém características que já pareciam datadas na década de 70, como trilha sonora mais orquestral e contundente, transições em flips e fades que lembram os anos 40, planos mais longos e até a escalação de astros que marcaram época entre os anos 40 e 50.

E que elenco tem este filme! Como Hercule Poirot, o britânico Abert Finney retrata com brilhantismo os maneirismos do detetive. Personagem repleto de trejeitos estranhos e um comportamento que mistura descrição e excentricidade, Poirot vai tomando conta da narrativa aos poucos, sempre usando da experiência para arrancar o máximo dos suspeitos sem parecer agredi-los (na maioria das vezes). Assim, é interessante notar como este age de maneira mais calma e descontraída quando interroga alguém cuja personalidade julga ser semelhante, quando em outras ocasiões, se eleva intempestivamente quando sabe que está diante de um suspeito mais suscetível ao descontrole.

O restante do elenco une figuras estelares do cinema. Como Mrs.Hubbard, a eterna musa noir Lauren Bacall (falecida em 2014) em uma atuação divertidíssima. Na pele da condessa Andrenyl, a belíssima Jacqueline Bisset, conferindo a vulnerabilidade necessária à personagem. Sean Connery empresta sua altivez e charme certeiros para o coronel Arbuthnot. O filme ainda conta com a presença de Anthony Perkins, o eterno Norman Bates, de Psicose, e de Vanessa Redgrave como a misteriosa Mary Debenham. Por último – e por minha paixão particular – a inesquecível musa Ingrid Bergman, como a sueca Greta.

Assassinato no Expresso do Oriente é a velha história que sempre irá funcionar como nova e a adaptação de 1974 cumpre muito bem a transposição literária para a cinematográfica, além de contar com um elenco icônico e um diretor lendário. Agora resta esperar se o novo filme conseguirá algo de diferente para o que Agatha Christie deixou para nós. E mesmo se ficarmos tentados a questionar a necessidade ou não de outra versão (e as posteriores que virem) é inegável termos o privilégio de ver o cinema trabalhando com um material que já tem tanto tempo (o livro é de 1934) através de estilos tão diversos.

Nota:

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=u0ykCP1AYlk&t=32s

Direção: Sidney Lumet

Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Martin Balsam, Jean-Pierre Cassel, Sean Connery, Ingrid Bergman, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave

Sinopse: O mais famoso personagem de Agatha Christie, o inspetor Hercule Poirot, tenta desvendar um intrigante caso de assassinato a bordo do Expresso Oriente. A vítima era o sequestrador e assassino do famoso bebê dos Lindbergh e, todos os passageiros têm um segredo a esconder. Um extraordinário desfile de astros consagrados com atuações inesquecíveis, num filme de requintada direção de arte e de roteiro empolgante.

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