Revivendo clássicos: Fúria de Titãs (1981) completa 40 anos - NoSet
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Revivendo clássicos: Fúria de Titãs (1981) completa 40 anos

Em meados dos anos 1980, início dos anos 1990, a Sessão da Tarde, programação da Rede Globo que passava geralmente depois do Vídeo Show, criou uma verdadeira geração de aficionados por cinema. Era comum no meio da tarde nos depararmos com grandes filmes que faziam a cabeça da juventude e dos desocupados. Na sua fase áurea nos brindava com um leque de filmes de todos os gêneros, alguns lançamentos, outros mais antigos, mas a qualidade era sempre primordial. Numa era pré-censura indicativa, já o início do fim da ditadura, era comum ter pouco filtro e passava praticamente qualquer filme. Uns viraram clássicos como Lagoa Azul, Curtindo a Vida Adoidado, Ghost, Os Goonies, entre tantos.

Mas um em particular fez uma geração se vidrar num assunto fascinante: mitologia grega. Em 1981 era lançado ao mundo Fúria de Titãs (Clash for Titans) que logo se tornou um clássico instantâneo da Sessão da Tarde e encantou uma geração com seres mitológicos, lendas, deuses no Olimpo, muita bravura e aventura. Esse filme inesquecível completa 40 anos em 2021.

O filme nos apresenta a lenda de Perseu, filho de Zeus com a princesa Dânae, que devido ao ciúme do pai da moça, o Rei Acrísio, soberano de Argos, acabam sendo condenados ao sacrifício, colocados numa arca de madeira e jogados ao mar. Zeus fica furioso com a cena, salva a amante e o filho e provoca a destruição de Argos, libertando o Titã Kraken, mitológica e gigantesca criatura marítima. De Argos não sobra pedra sobre pedra. Perseu, são e salvo, cresce e um dia acaba em Jopa e descobre que a princesa Andrômeda, antiga paixão de Calibos (esse que devido à ira de Zeus é transformado numa besta) pretende se casar, mas todos os pretendentes são obrigados a decifrar um enigma e como não se dão bem acabam sendo mortos. Perseu resolve o enigma, ganha a mão de Andrômeda da mãe dela Cassiopeia, mas num deslize desta, que no dia do casamento ousou comparar a filhota com a Deusa Tetis, a própria deusa condena a cidade a sacrificar a noiva oferecendo ao Kraken, se isso não ocorrer a cidade terá o mesmo destino de Argos. Perseu então, filhão ajudado por Zeus, parte em uma aventura para buscar a única coisa que pode deter o monstro marítimo, a cabeça de Medusa, que mesmo morta tem o poder de transformar qualquer coisa em pedra.

Fúria de Titãs é dirigido pelo britânico Desmond Davis, mas se o filme tem um dono podemos dar esse crédito ao genial Ray Harryhausen. O americano Ray, um verdadeiro artesão, criador de monstros inesquecíveis e mestre da técnica de stop motion, já tinha premiado o cinema com polvos gigantes, ciclopes, dragões, crocodilos, hidras, esqueletos guerreiros, enfim um leque fantástico de criaturas, todas feitas de modo artesanal e filmadas quadro a quadro, numa época em que CGI era apenas um sonho. Tudo era feito no peito e na raça e suas incríveis criações inspiraram a imaginação de gente como George Lucas, Spielberg, James Cameron, John Landis, Rick Baker, etc. Para um jovem de 20 anos ver algum filme com os efeitos de Ray hoje pode provocar gargalhadas, mas na época o que ele fazia, transpor sonhos para as telas, era algo sensacional e uma experiência única.

Enfim, voltando à mitologia, Ray, um dos produtores do filme, sempre tinha um sonho de transpor a história de Perseu para as telas e criar os seres mitológicos na telona. Contando com o roteiro de Beverley Cross, conseguiu criar uma marcante história, com devidas adaptações da lenda original, com muita aventura, romance, destruição na medida certa, criaturas e muita provação. Vale destacar que não é uma aula de mitologia, digamos acadêmica, mas sim uma redonda adaptação que faz o espectador querer entrar e buscar mais sobre esse universo. Um bem costurado roteiro que, como se fosse um jogo, nos apresenta passo a passo a jornada de Perseu para as telonas. Aliás, Perseu, interpretado de maneira burocrática pelo norte-americano Harry Hamlin, era ficha dois na produção, conta a lenda que queriam um tal Arnold Schwarzenegger, como o herói grego, mas esse não aceitou. Enfim nosso brutamontes preferido largou Perseu para virar Conan. O elenco é digno de Olimpo mesmo. Para Zeus nada melhor que o deus do teatro e cinema Sir Laurence Oliver, que mesmo doente, esbanja talento como o rei do Olimpo.

Judi Bowker está muito bem como Andrômeda, tendo uma bela simetria com Hamlin como o casal principal. Burgess Meredith, nosso eterno treinador Mick e o Pinguim da serie clássica do Batman, também brinca no papel de Ammon, espécie de tutor de Perseu na cidade de Jopa. Maggie Smith que dá uma belíssima atuação como a vingativa Deusa Tétis, sempre batendo de frente com Zeus e dificultando a vida do herói Perseu. Nesse grande elenco ainda temos Ursulla Andress e Claire Bloom como as Deusas Afrodite e Hera. Entre deuses e humanos quem dá a emoção ao filme são as criaturas mitológicas. Não tem como não sentir um pouco de medo do vingativo Calibos, amaldiçoado por Zeus, fica deformado se transformando numa espécie de um réptil com chifres. Pegasus, o branco cavalo alado, companheiro de Perseu. Cérbero, o cão de duas cabeças, que protege o esconderijo de Medusa (no original era para ter três cabeças, mas Ray achou que três iriam atrapalhar as cenas de ação). A coruja metálica Bubo, presente de Zeus para guiar Perseu, com seus grunhidos, que só ele entende. Kraken, que no original mítico é Leviatã, um dragão, mas Ray achava que criar mais um dragão seria mais do mesmo e resolveu criar o Kraken com uma aparência meio humana, estilo monstro da lagoa negra mas com uma altura de Godzila e, é claro, Medusa. A sacerdotisa que diziam ser linda, foi amaldiçoada (eita deuses vingativos) por Atena e virou uma mulher com cobras na cabeça e um olhar capaz de transformar em pedra, é uma das melhores criações do filme. Desde o seu perfeito covil, seu corpo em forma de serpente, com chocalhos de cascavel e um arco e flechas letal, além do seu olhar, faz a cena do confronto de Perseu com a ameaçadora besta umas das melhores passagens do filme, causando tensão e claustrofobia. Medusa do Fúria de Titãs, com certeza, deu muito medo na galera provocando pesadelos com a incrível personificação dela, uma criatura amedrontadora e perigosíssima.

O filme é recheado de grandes cenas, desde as reuniões dos deuses no Olimpo, que brincam com os mortais como se fossem bonecos dos seus caprichos, a destruição de Argos, as aparições de Kraken quando liberado das profundezas do mar pelo Deus Netuno. As lutas de Perseu contra Calibos, os voos de Pegasus, a visita às três bruxas cegas, a estátua sinistra e falante de Tétis, que também dava medo, além é claro, do famoso encontro de Perseu e sua batalha contra Medusa. A trilha sonora também contribui com o filme, dosando passagens românticas com passagens mais épicas e principalmente nas cenas de suspense uma trilha climática perfeita conduzida por Laurence Rosenthal. O filme teve como cenário diversas locações, desde o norte da Inglaterra, interior da Espanha, Malta, Itália e algumas cenas realizadas em estúdio. Fúria de Titãs custou na casa de 15 milhões de dólares e faturou uns 90, não foi um arrasa quarteirão de bilheteria, mas se pagou e deu um bom lucro. Em 2010 a Warner fez um remake em 3D, um filme extremamente ruim, frenético, abusando de destruição barata e CGI forçado… enfim um grande abacaxi, sem um pingo do charme e naturalidade do original. Fúria de Titãs já é um pequeno clássico e se não pode ser considerada uma obra prima do cinema, teve como mérito fazer uma geração se fascinar por mitologia grega e ir buscar mais informações sobre, conhecer os deuses, as figuras mitológicas e suas incríveis lendas como essa de Perseu. Um filme de um tempo em que se exigiam atuações convincentes, aventura, romance e suspense na medida certa e mesmo com toda a falta de tecnologia, a imaginação e o trabalho artesanal de caras como Ray Harryhausen conseguiam trazer para as telas a fantasia que encantava o público. Ou como ele mais ou menos dizia: “Cinema foi feito para entreter, dar asas à imaginação e ao sonho, se eu fizesse filmes sobre o banal cotidiano eu nem entraria nessa barca”.

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