Regras, Consequências e Imprevisibilidade – “Pequenos Incêndios por Toda Parte” - NoSet
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Regras, Consequências e Imprevisibilidade – “Pequenos Incêndios por Toda Parte”

A segurança de quem sempre seguiu regras rígidas julga errado tudo que é diferente disso, daquilo que conhece, esse é o grande embate entre duas mulheres de personalidade forte, Elena e Mia.

“Pequenos Incêndios por Toda Parte”, o livro que inspirou a famosa série da Amazon Prime Vídeo, é de autoria de Celeste Ng, trazido para o Brasil pela Intrinseca em 2018, com a tradução de Júlia Sobral Campos.

O pano de fundo dessa história cheia de ramificações é a primeira vila planejada dos EUA, Shaker Hights, ao lado da cidade de Cleveland, no estado de Ohio. Por lá as regras são prioridade, dando uma aparência de perfeição completa, desde a imponência das suas casas, as quais devem seguir o padrão de cores que a prefeitura planejou, até a qualidade exemplar de suas escolas.

A vila realmente existe, a própria Celeste Ng já morou lá, mas a história contada no livro é fictícia.

A principal família de Shaker Hights é do casal Bill e Elena Richadson, ele advogado de um grande escritório de advocacia, ela uma jornalista que trabalha meio período, no outro cuida dos interesses de seus quatro filhos, Lexie, Trip, Moody e Izzy. Assim como na vila, a vida de Elena é planejada, sempre foi, ela seguiu o roteiro direitinho, fez Bill entrar no jeito Shaker Hights de ser e tenta fazer com os filhos também sigam esse caminho.

Ela tem suas regras desafiadas quando Mia Warren chega por lá com sua filha adolescente, Pearl. Mia é totalmente o oposto, é uma artista nômade, muda de cidade conforme a sua criatividade manda, levando Pearl com ela nessa jornada. Agora elas procuram um lugar para alugar, algo que elas possam pagar com os empregos temporários de Mia, que ajudam quando ela não vende suas fotografias.

A parada dessa vez deve ser por mais tempo, isso porque Pearl, que tem 15 anos, quer ter a experiência de criar raízes, ter amigos, um quarto só para ela, evoluir no colégio, enfim, ser adolescente.

Elena tem uma casa de aluguel há algumas ruas da dela, onde mora com a família. Uma casa simples, de dois andares, transformados em dois apartamentos, o superior está desocupado há um pouco mais de um ano e Mia e Pearl conseguem alugar, afinal o preço do aluguel nunca aumentou como o da vizinhança, o local era mantido muito mais pelo carinho de Elena pela casa do que pela necessidade do lucro com aluguel.

Mia também recebe a proposta de trabalhar na casa de Elena, fazer faxina e cozinhar o jantar da família. Enquanto isso Pearl faz amizade com os filhos de Elena, primeiro com Moody, que tem a mesma idade que ela e compartilha alguns gostos, como pela poesia, depois com os mais velhos, Lexie e Trip (que complica as coisas depois de um tempo).

Com Izzy foi diferente. Enquanto Pearl se encantou com o jeito de Elena, tão diferente de Mia, acolhedora e com raízes bem firmes no chão, uma carreira como jornalista e uma casa linda, Izzy se encantou por Mia, porque ela simplesmente deu a liberdade de pensamento que a garota não sentia com a mãe.

Izzy era vista como a caçula problemática, era uma revolucionária sem causa quase, nunca seguindo as preciosas regras de Elena, que, por sua vez, não tentava entender a personalidade diferente da filha, tentava sim a encaixar naquilo que já conhecia. Nada disso ajudava no relacionamento mãe e filha, também fez a menina nãos ser tão próxima dos irmãos, encontrando em Mia um porto seguro que há muito procurava.

Na verdade, o pequeno apartamento que Mia alugara a Elena passou a ser refúgio dos quatro filhos dela em algum momento, o mesmo sentimento que Pearl sentia ao se sentar no grande sofá da casa de Elena e assistir Tv com os novos amigos.

Embora as regras fossem diferentes, assim como as trajetórias, tudo correria muito bem, se outra coisa não estivesse acontecendo naquele momento. A amiga de infância de Elena, Linda, depois de muitos anos tentando, está no processo de adoção de uma bebezinha, Mirabelle, que fora abandonada pela mãe quando tinha apenas 02 meses de vida.

Acontece que Mirabelle se chama, na verdade May Ling, filha de Bebe Chow, amiga de Mia, elas trabalham como garçonetes no restaurante chinês da vizinhança. Bebe é chinesa e foi para os EUA alguns anos antes com o namorado, mas foi abandonada por ela quando soube da gravidez. Ela passou por grandes dificuldades e o desespero a fez deixar a menina na porta dos bombeiros.

Agora Bebe quer sua filha de volta, enquanto Linda não se ver mais sem a menina. Nenhuma das duas está totalmente errada, mas cada uma defende o seu lado com todas as forças, angariando aliados para cada uma. Uma cisão chega na casa dos Richardson porque Bill passa a representar o caso do lado de Linda e todos sabem que Mia é amiga de Bebe.

A relação entre Mia e Elena nunca foi totalmente pacífica, é basicamente impossível duas pessoas tão diferentes não julgarem uma a outra. Mia era misteriosa sobre seu passado, atiçando o lado de jornalista investigativa de Elena e ela já até tinha começado a investigar algumas informações no momento que Izzy pediu para ela confirmar que era Mia a estrela de uma foto exposto no museu da cidade.

Começando por aí, Elena descobre a maior parte dos segredos de Mia, algo que poderia usar para a afastar da família e, quem sabe, enfraquecer a influência em Bebe e no processo.

Qual eram os segredos? Primeiro que o sobrenome de Mia não é Warren, mas sim Wright, ela mudou o sobrenome quando o irmão, Warren, faleceu e ela teve uma briga definitiva com os pais. Na época ela morava em Nova York, tinha começado a cursar Belas-Artes e se mostrava muito talentosa, tornando-se a pupila de Pauline Howthorne, uma das fotógrafas mais célebres da época.

A foto que estava que chamou atenção de Izzy foi tirada por ela.

A mudança de nome foi necessária porque Mia havia feito uma decisão perigosa. Ela estava grávida de 06 meses, o bebê não era um projeto dela, ela era a barriga de aluguel para um rico casal de Nova York, mas, no momento que perdeu o irmão, algo fez Mia desistir de entregar a filha que estava gerando. Então ela desapareceu da cidade e começou sua vida de nômade com Pearl no ventre.

Agora sua história era jogada na cara por Elena. Aquilo não sustentava mais o relacionamento, nem mesmo como inquilina, então Mia e Pearl saíram da casa rumo a um novo destino, mas agora a garota sabia uma pouco mais do passado da mãe.

Quanto aos filhos de Elena … A única que sabia de todas as ramificações da história, que conseguiu ligar informações e tentava desfazer algumas notícias era Izzy.

Lexie poderia sentir falta de uma amiga, mas superaria. Trip talvez conhecesse pela primeira vez a sensação de coração partido (ele e Pearl haviam tido um relacionamento escondido e nem deu tempo de se despedirem). Moody estava chateado com Pearl, porque descobriu sobre o que acontecia entre ela e o irmão, mas pretendia se desculpar e tentar restaurar a amizade. Mas Izzy, que tudo sente com mais intensidade e ver com mais clareza, a situação tocou algo em sua alma e em sua mente.

Ela lembrou de uma metáfora que Mia usou na hora que se despediu discretamente dela (não foi uma despedida explicita), uma metáfora sobre incêndio, que depois de queimado o solo se torna mais rico e se regenera e assim também acontece com algumas pessoas.

Izzy levou o pensamento ao pé da letra e, achando que estava sozinha em casa, fez pequenos incêndios nos quartos dos irmãos, pegou o essencial e fugiu dali. A casa imponente desabou em chamas, que Elena se salvou por questão de minutos.

E assim o livro termina, com mais interrogações que certezas, só a sensação de que a verdade de dentro daquela casa finalmente havia se mostrado por meio dos pequenos incêndios por toda parte.

É uma história tão complexa que é difícil a resumir, mas, ao mesmo tempo, tão envolvente que te faz querer saber mais, ler mais. Ao terminar de ler fica a sensação de que é preciso saber onde Izzy está, se Lexie voltaria a ser esnobe como antes, se Trip procurou por Pearl ou se Moody que foi.

Um detalhe bem importante, a história de passa em 1997, com flashbacks no início dos anos de 1980, quando as trajetórias de Mia e Elena, cada uma ao seu tempo, são contadas para o leitor.

A forma da autora escrever contribui para a história ser envolvente, senão seria algo cansativo de ler. Ela mistura o presente com o passado conforme a situação pede, narrando mesmo o passado e não usando um personagem para o fazer. Então quando Elena procura os pais de Mia para saber do passado dela, a autora volta a história no tempo, como se Mia mesmo surgisse ali, descrevendo como ela e Warren cresceram e o que aconteceu quando ela foi para Nova York, como Pearl foi concebida., todos os detalhes,

Contudo, somente o leitor sabe desses detalhes, os personagens não. Então nós temos a capacidade de julgar as ações de cada personagem com o máximo de informação possível, de forma extremamente justa, o que é bom, mas faz com que nos sentimos impotentes diante de algumas situações.

Senti bem isso com o embate eterno entre Elena e Izzy. Tem um capítulo inteiro falando que Elena enfrentou sérios problemas na gravidez de Izzy, que nasceu prematura e com prognósticos médicos desanimadores. Isso não só fez Elena fugir das suas preciosas regras, como a fez se tornar extremamente atenciosa com a caçula, mas jeito de ser atenciosa não era acolhedor, ela sempre estava corrigindo a menina, o que a fez crescer oprimida e revoltada.

Só que Izzy não conhece essa parte da história, no máximo que nasceu antes do tempo, ela não sabe o pânico que Elena sentiu ao pensar que a perderia, a mãe nunca soube falar sobre isso. Então ela achava que mãe não a amava, não a queria (os irmãos achavam isso). Talvez se ela soubesse disso tudo agisse mais calmamente, talvez se Elena tivesse falado sobre isso elas teriam a conexão que lhes falta.

A questão central é a família e essas formas diferentes de a constituir e lidar com ela, perpassando por assunto como aborto e adoção, que ainda são tabus em 2020, avaliem em uma sociedade “perfeita” dos EUA do fim dos anos 1990!

Para além disso, também s e fala em imigração e o racismo, bem mais em relação aos asiáticos do que aos negros, embora ainda se levante o assunto, afinal Mia, Pearl e Brian (namorado de Lexie) são negros. Contudo, devido ao processo de adoção de uma bebê asiática por um casal estadunidense, a situação dos asiáticos, imigrantes e descendentes, é mais explorada.

Eu comecei a ler o livro sem ter assistido a série, então decidi combinar os dois, para ilustrar a história que eu lia, embora já fosse impossível para mim não imaginar Reese Witherspoon e Kerry Washington como Elena e Mia. Mas, para minha surpresa, a série é bem diferente do livro.

A descrição dos personagens não muda, até a fisionomia, mas a história em si muda muito. É como se eles tivessem pegado trechos diferentes e reorganizado, dando uma nova interpretação e incluindo alguns elementos.

Adaptações de livros para filmes e séries geralmente sofrem mudanças, mesmo com o ator do livro na equipe de roteiro (como aconteceu nesse caso), mas eu não esperava que fosse tão diferente assim.

Nesse caso as mudanças funcionam até certo ponto, a história continua forte e envolvente, o elenco é incrível (foco nas atrizes que dão vida a Izzy e Pearl), mas causa estranhamento para quem leu o livro.

Duas mudanças chamaram mais minha atenção:

– O foco do racismo na série é em relação aos negros, tem muitas cenas que usam frases e expressões tradicionais do racismo implícito, quase escondido em sorrisos falsos … causam revolta;

– A relação entre Trip e Moody. Trip no livro é mais humano, não é tão superficial, mas na série ele acaba se aproximando mais do irmão, pensando mais nele e até ajudando. É bom ver as duas versões deles.

A sugestão que eu faço é ler o livro e assistir a série, mas tentando separar as histórias, ambas as versões merecem atenção.

Até mais!

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