Os Ciganos de Birmingham – “Peaky Blinders” - NoSet
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Os Ciganos de Birmingham – “Peaky Blinders”

Séries inglesas têm um charme adicional, seja pelo sotaque seja pelo encanto que temos com a ilha da rainha Elizabeth II.

A série “Peaky Blinders” tem o adicional, fala de uma das gangues mais conhecidas da Inglaterra, embora use bem as licenças poéticas, misturando fatos com literatura. É dirigida por Steven Knight e está se preparando para a sexta temporada (no caso, se não fosse pela pandemia, seria liberada em 2021).

A estreia desta foi em 2014, mas nos últimos anos ela tem tido mais atenção e ganhado mais fãs (vossa colunista inclusa). Os motivos são muitos, então vou começar contando a história.

Ambientada em Birmingham, cidade do noroeste da Inglaterra, formada principalmente por membros da classe trabalhadora, foi um dos focos da Revolução Industrial. Isso quer dizer também que, infelizmente, pode ser “esquecida” pelos governantes, então suas ruas eram dominadas por gangues.

Dentre essas gangues estavam os Peaky Blinders, cuja marca principal era o ataque de navalhas, inteligentemente escondidas em suas boinas. O alvo quase sempre os olhos dos inimigos.

A gangue é liderada pela família Shelby, formada pelos irmãos Arthur, Thomas, John e Finn, a única irmã Ada e a tia Polly (além de outros agregados). Embora Arthur fosse o mais velho entre os irmãos, quem realmente é o “rei” é Thomas, ou Thommy (para os íntimos).

Frio e calculista, Thommy é extremamente inteligente, mas igualmente perigoso e traumatizado. Ele serviu na Primeira Guerra Mundial ao lado de Arthur, John e outros amigos de Small Heath (era como se fosse a vila, a área sob o domínio deles). Eles serviram na França e eram responsáveis pelos túneis.

Todos voltaram para a cidade, mas nenhum com a cabeça boa, o menos traumatizado, talvez, foi John. Thommy mantem o semblante calmo e impenetrável, cuida de todos os negócios, planeja a vida da família, é o mais sonhador, mas o que nunca dorme.

A fonte de renda deles é a aposta em corrida de cavalos, algo que eles realmente sabiam fazer, especialmente Thommy, que sempre amou cavalos. Mas eles faziam clandestinamente, o objetivo principal dele era legalizar todos os negócios.

Negócios, no caso, porque as corridas eram o cargo chefe, mas eles negociavam transporte de bebida (rum, whisky, gin), algumas drogas, armas … Eram quase parte da economia de exportação e importação local.

E a negociação era entre as gangues, especialmente os italianos, os judeus e os ciganos. A família tinha sangue cigano, eles nasceram em caravana ainda, Polly chega a dizer certo ponto que tinha sangue da realeza cigana. A paz reinava, mas não era plena, era baseada nesses acordos.

Ao longo das cinco temporadas é possível ver essa gangue se tornando empresa de verdade, sempre sob o olhar de Thommy, que tenta superar cada obstáculo e sempre tem um plano infalível para cada membro da família.

Nem sempre a família está unida, muitas atitudes dele fizeram com eles tivessem perdas, ele mesmo se perdeu e se encontrou inúmeras vezes. Apaixonou-se pela espiã da polícia, com quem viveu o único amor verdadeiro que seu coração permitia, dez amigos e inimigos por toda Inglaterra, incluindo o próprio Winston Churchill.

É muito difícil resumir a genialidade de cada episódio, olhar o mundo por meio dos olhos de Thommy é quase como jogar xadrez ou entender aqueles mapas de guerra. Ele nunca está em paz, ele sempre está pensando no próximo passo, a mente dele é inquieta, mas nem sempre isso é um bom sinal.

É tanto que Polly (ela é o ponto central da família, a voz da consciência) tem medo quando Thommy a confidencia que tem uma ideia nova.

As temporadas contam com apenas 07 episódios, de uma hora de duração. É incrível notar como esses minutos são bem utilizados, são histórias extremamente complexas que conseguem se fechar dentro da mesma temporada, cativando o público para o próximo episódio ou para a próxima temporada.

Histórias essas que contam com temas difíceis, como os traumas de guerra, o feminismo, a questão da classe trabalhadora, relações familiares, as várias formas de luto, a revolução socialista e comunista (que permeia quase toda a trama), o crash da bolsa de valores de 1930. Tudo isso sem se tornar cansativo.

A parte visual da série é um espetáculo a parte, e não é só porque o elenco é bonito, é a fotografia e o cuidado da produção com os detalhes visuais, desde a fumaça dos cigarros (eles fumam mais do que comem) até as tatuagens, a caracterização em geral.

A fumaça é um elemento interessante, além dos cigarros, eles também estão envoltos à fumaça de carvão (cidade de operários, muitas fábricas) e disparos de armas e bombas. Há um cuidado meticuloso para que a fumaça enalteça a cena no momento certo.

A caracterização é impecável. Os irmãos Shelby sempre estão muito bem vestidos, ternos completos e com o penteado característico, além de portarem suas boinas e usarem os sobretudos, completando o visual. Contudo, se adaptam a cada situação, conforme a família vai subindo socialmente. É notável quando há uma crise, algum desses elementos está ausente. O figurino deles e de Polly dizem muito sobre as atitudes em cada momento.

Não tem como falar em caracterização e não falar dos inimigos principais de Thommy (da gangue), Lucca Changretta representando os italianos, Alfie Solomons representando os judeus, Grande Duque de Petrova com os russos e Oswald Mosley, o projeto de Hitler.

Imaginem todos os símbolos característicos dessas representações históricas, esses atores receberam em seus figurino e maquiagem. Logicamente que eles também foram capazes de carregar tais personagens, atores muito bem escolhidos.

Antes de começar a falar de elenco tenho que falar alguns detalhes interessantes. A série tem reunido grandes nomes, começando pelos personagens principais, mas eles conseguem desmistificar esses atores e atrizes, o que vemos deles nas séries é diferente, é até chocante saber quem são as pessoas por trás (minha opinião).

O outro detalhe é que eles passam a impressão que o elenco é próximo, que eles realmente fizeram laços de amido, não é nada difícil encontrar alguns desses atores e atrizes trabalhando juntos em outras produções. Isso pode parecer besteira, mas me fez ter um “carinho” pela produção, porque parece que eles têm tanto prazer de fazer quanto eu tenho de assistir.

Além de me fazer querer assistir essas outras produções (Netflix e Amazon Prime Video, ajudem aí).

Vou começar a falar pelos inimigos porque já estava falando deles.

Lucca Changretta é vivido por Adrien Broden, conhecido por obras como “O Pianista”, “Houdini” e “O Grande Hotel Budapeste”. Confesso que só lembro dele como Salvador Dali, em “Meia Noite em Paris”. Ele encarnou o próprio italiano mafioso com Lucca, deu medo só de ouvir a voz dele, mas me encantei com a elegância dele. Uma das minhas cenas preferidas da quarta temporada é com ele e Thommy fazendo ameaças por código, falando de ternos.

O Grande Duque de Petrova foi vivido por Jan Bivoet, um ator belga que, confesso, nunca tinha ouvido falar (não conheço nenhuma obra dele). Mas ele foi o típico nobre que não sabe largar a mordomia, me lembrou em alguns momentos Christopher Waltz.

O projeto de Hitler, Oswald Mosley, é interpretado por Sam Clafin. Famoso por ser o reizinho das comédias românticas por causa de “Como Eu Era Antes de Você”, mas também pela saga “Jogos Vorazes”, encantando com o sorrisinho charmoso. Em “Peaky Blinders” ele toca o terror mesmo.

Alfie Solomons, a minha maior surpresa nessa série, é vivido por Tom Hardy. Sim, o mesmo Tom Hardy que esteve em “A Origem” (tem resenha aqui), “O Regresso”, “Mad Max” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, mas que você só reconhece depois. Eu confesso que nunca entendia quando as pessoas o elogiavam, ele me conquistou com Alfie, trabalho perfeito.

Falando de Alfie eu posso falar de Thommy. Por que isso? Porque Eles são amigos e inimigos, vão e voltam durante toda a série, além disso os atores estão sempre trabalhando juntos.

Lembram da sensação de amizade que a série passa? Esses dois representam bem!

O frio e calculista Thommy Shelby é vivido pelo irlandês Cilian Murphy. Ele é, sem dúvidas, um dos meus atores preferidos e a série só veio me confirmar isso. O primeiro trabalho que eu vi com ele foi “Batman Begins”, não sabia nem o nome dele, mas sempre amei o ver em outros trabalhos. O olhar dele combina completamente com Thommy, é de arrepiar ver os altos e baixos do personagem.

Cilian Murphy e Tom Hardy trabalharam juntos em “A Origem”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” e “Dunkirk”. Eles estão no top 10 de Christopher Nolan.

Outros trabalhos relevantes de Cilian Murphy, só para vou influenciar vocês para amarem (alguns ainda não assisti): “28 Days Later”, “A Moça com Brinco de Pérola”, “Voo Noturno”, “Ventos da Liberdade”, “The Edge of Love”, “O Preço do Amanhã”, “No Coração do Mar”, “Antropoid” e “Anna” (tem resenha desse).

Passando para o resto do Shelbys …

O mais louco deles, Arthur, é vivido por Paul Anderson. É por causa dele que a frase “By the order of the Peaky f****g Blinders” virou sucesso, o sotaque que ele faz é incrível e contagiante, nem parece ser uma ameaça. Ele é conhecido por “Sherlock Holmes – O Jogo das Sombras” e algumas obras com seus colegas de elenco.

Com Tom Hardy ele fez os filmes “As Lendas do Crime” e “O Regresso”, com Cilian Murphy ele fez “No Coração do Mar”, com Ian Peck ele fez “Robin Hood” (tem resenha dele).

Ian Peck faz Curly, quem cuida dos cavalos e outros trabalhos, ele não é família, mas é tratado como tal. Braço direito de Charlie, vivido por Ned Dennehy, o irmão da mãe dos Shelbys. Esses dois atores são daqueles que sempre estão presentes, vez por outros você ver o rosto deles, como o caso de Peck em “Robin Hood” e de Dennerhy em “Outlander”.

John Shelby é vivido por Joe Cole, ele é mais desconhecido, o que ajuda a construir o personagem, ele é o mais relaxado dos irmãos, o único que já tem uma família formada, mas não deixa de ser ácido e perigoso. O único filme que eu conheço dele me deixou traumatizada, inclusive tem resenha aqui, é “Sala Verde”, de 2015.

O caçula dos irmãos, Finn, teve dois intérpretes, na primeira temporada ele ainda tinha 10 anos, então foi o ator mirim Alfie Evans-Meese, a partir da segunda temporada Harry Kirton assumiu o posto, sendo o primeiro trabalho relevante da sua carreira.

Polly Gray, praticamente a matriarca da família, dolorosamente sincera e incrivelmente sofrida, é vivida por Helen McCrory. Alguns exemplos de sua longa lista de obras está: “A Invenção de Hugo Cabret”, “Penny Dreadful” (tem resenha dos dois aqui), “Casanova”, “O Conde de Montecristo”, “A Rainha” e saga “Harry Potter”.

Ada Shelby, a irmã que começou uma rebelde, renegou os negócios da família, mas se tornou uma das únicas que conseguem colocar juízo em Thommy, é vivida por Sophie Rundle. Ela tem em seu currículo uma longa lista de séries, especial “Bodyguard”, com Richard Madden.

Michael Gray, filho de Polly, parecia ser alguém em que Thommy poderia confiar, mas tem se tornado uma ameaça dentro de casa. Ele é vivido por Finn Cole, que se divide entre as ruas de Small Heath e a série “Animal Kingdom”. Ele esteve ao lado de Sophie Rundle em “An Inspector Calls”.

Ah, ele é irmão de Joe Cole!

Não desistam ainda, preciso falar de mais três atores … Eles são Sam Neil, Aiden Gillen e Annabelle Wallis.

Sam Neil, conhecidíssimo pela saga “Parque dos Dinossauros”, viveu o inspetor Chester Campbell, determinado a acabar com a história dos Peaky Blinders, começando por colocar uma espiã entre eles.

No caso, a espiã era Grace, que se tornou o grande amor de Thommy. Ela é vivida por Annabelle Wallis. Trocadilho ou não, ela é conhecida por ter feito o filme de terror “Annabelle” (mas parece que ela não é a boneca), mas também por filmes como “A Múmia” (a de 2017, com Tom Cruise) e “Rei Arthur – A Lenda da Espada”.

Aiden Gillen deu vida a Aberama Gold, um cigano de uma caravana não muito confiável, tinha tudo para ser a ameaça à gangue, mas tem se mostrado fiel. Gillen é famoso por sua participação em “Game of Thrones”, mas ele também esteve em “Rei Arthur – a Lenda da Espada” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”.

Mais uma vez, eles o elenco sempre se reencontra em outras obras e, sim, isso me encanta.

“Peaky Blinders” é o tipo de programa que você quer esquecer que assistiu para assistir novo!

Até mais!

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