O Que é Ser Bom? - “O Bem-Aventurado” - NoSet
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O Que é Ser Bom? – “O Bem-Aventurado”

Qual seria a reação de um padre se um demônio chegasse até ele pedindo para o ensinar a ser bom? Bizarro pensar nisso, né? O longa brasileiro “O Bem-Aventurado” leva para as telas essa situação.

Em uma cidade de interior, tradicional em costumes e pequena no tamanho e pensamento, um padre faz suas missões há muitos anos, desde celebrar missas e ouvir confissões até dar conselhos. Ele é daqueles tradicionais mesmo, trajes de franciscano e crenças muito rígidas.

Um dia, depois de uma missa, aparece um rapaz da cidade querendo fazer uma confissão e parecia desesperado. Depois de muita insistência ele conseguiu a atenção do padre e aí veio o mais impressionante, ele era um enviado do inferno, um demônio que trabalhava por ali há uns 40 anos.

O desespero dele é porque não aguentava mais fazer o que os chefes pediam, sentia-se estranho a cada maldade que realizava, ele queria aprender a ser bom e um dia, quem sabe, ser aceito no céu.

De primeiro o padre nem queria ver a pobre alma, mas depois foi se afeiçoando e pensando em como poderia ajudar. Primeiro ele disse que para entender a palavra de Deus não bastava ler a Bíblia (o que o demônio já havia provado que conhecia bem), tinha que conhecer as obras dos santos e anjos, entregou-lhe alguns livros. Sem nada para fazer, lá foi ele para o alto da torre da igreja ler.

No dia seguinte foi ao encontro do padre, disse que havia lido tudo, mas não tinha entendido nada. Dizia que em um livro o bem era uma coisa e no outro já era o oposto, então o ajudaria em nada. O padre então lhes disse que ele deveria fazer o bem e citou algumas coisa, como dar a própria roupa para alguém lhe pedir ou dar a outra face caso alguém batesse em seu rosto.

Ele levou os conselhos literalmente, não entendeu que dar suas roupas significava doar-se a alguém que precisa e que dar a outra face era não aceitar a briga. Voltou todo machucado, porque não quiseram bater no rosto com a mãe, mas sim com uma enxada, ele achou que não se encaixaria no conselho.

Quase em esperanças o padre, já doente, disse-lhe que ira fazer uma cartilha de como ser bom, nem que fosse a última coisa que ele fizesse em sua vida, mas que iria demorar. Enquanto esperava ele começou a ajudar o padre de alguma forma, como levar uma freira cadeirante para passear… E conhecer umas aventuras da vida.

Por fim o padre, acamado e sentindo os últimos dias chegando, entregou a cartilha, disse que era para ter cuidado, não havia cópias. O demônio saiu feliz, disse que iria conhecer o mundo, agora que poderia ser bom. Antes das aventuras ele decidiu descer e falar com o chefão, ele queria mostrar que o mal não era necessário e que sabia como ajudar o seu povo a ser bom.

Todos do inferno riram da cara dele, fizeram festa zoando da situação e ainda espalharam as páginas, escritas como tanto carinho e esperança, fazendo o rapaz perder parte da obra do padre. Ele voltou para a cidadezinha, conseguiu dizer adeus ao padre em seus últimos momentos e tentou remendar o que estava perdido, mas não conseguiu.

Sem o padre para o guiar e não sentindo que o inferno era para ele mais, lá foi ele subir a torre da igreja, onde o sino ficava, à mercê da chuva, do sol e do sereno da noite, virando uma gárgula, uma estátua indecisa no ponto principal da cidade.

Ao ler a sinopse simples desse filme eu não fazia ideia do que me esperava, achava que era terror mesmo, mas acabou sendo uma filme muito lindo de se ver, cômico em vários momentos e uma mensagem tão singela quanto a vontade daquele demônio em ser bom.

É uma animação com bonecos de espuma, mas, de alguma forma, fizeram parecer argila, alguns personagem ganharam alguns detalhes humanos (quem operava o boneco usava a própria perna, por exemplo). Parece um filme independente, resultado de trabalho entre um grupo de amigos, é tanto que o diretor e o autor é a mesma pessoas, Túlio Viaro.

O que não significa ser ruim, pelo contrário, é intrigante.

O visual ajuda no ar de terror no começo. O boneco do demônio é normal, a diferença são os dois chifres no meio da cabeça, quem o operava ficava escondido num pano preto, o que me fazia susto nas primeiras cenas. Parecia que tinha uma sombra preta atrás dele, comprovando a sua descendência maligna, só depois de muito me arrepiar foi que percebi que num era isso.

Um outro elemento de terror era o mendigo da cidade, seu rosto era deformado, cheio de feridas, seus olhos vermelhos e sua companhia era um cachorro tão horrível quanto ele. Lembrou-me a forma como os textos antigos descrevem os leprosos e acredito que ele representa isso, todas as mazelas daquela cidade tão aparentemente santa.

Esse mendigo é queimado vivo como um herege, o padre foi o maior entusiasta na ocasião, parecia que estava numa festa. Isso significa que ele não era tão melhor que o demônio, mas ele estava usando algumas passagens bíblicas (má interpretadas) para argumentar que estava certo.

Uma alegoria muito boa para a hipocrisia de alguns religiosos, que pregam tantas coisas, mas acabam fazendo pior do que seus seguidores, aqueles pecadores. Ele poderia ser uma autoridade na igreja, mas fizera tanto mal quanto alguns representantes do tinhoso na terra.

A partir da metade do filme você já começa a torcer que o rapaz com chifres aprenda a ser bom, tem até compaixão quando ele não consegue seguir os conselhos do padre. E pior, sente pena quando a pobre alma se transforma na estátua!

Um filme simples, com recursos simples, mas que traz para o agitado mundo de hoje, cheio de recursos visuais, o questionamento de “o que é ser bom?”, “o que é fazer o bem?”.

E você, já realizou alguma ação do bem hoje?

Beijinhos e até mais.

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