O Imaginário de Maria - “Unicórnio” - NoSet
Cinema

O Imaginário de Maria – “Unicórnio”

A mente trabalha de formas inexplicáveis ao senso comum, às vezes nem parece que um detalhe faz a diferença, mas faz sim. Em “Unicórnio”, filme de 2018, mostra um pouco desse meandros.

No meio do nada, numa casinha com um poço na frente, vivia uma família, pai, mãe e a filhinha. De um dia para o outro, sem explicações, o pai sai de casa, some no mundo, ficando só mãe e filha naquela casinha, cuidando da própria vida.

Em meio à calma rotina daquele lugar, a menina, Maria, gosta de passar o tempo no pé de romã. Um dia apareceu alguém diferente, um pastor de cabras, aparentemente novo por lá.

A falta de companhia naquela região faz com que desconhecidos se tornassem conhecidos. E assim o pastor passou a frequentar a casa de Maria, aproximando-se cada vez mais da mãe dela. Isso cultivou um sentimento ruim em Maria, algo que ela nunca sentira, mas que estava crescendo a cada vez que os via juntos.

Ela tentou chamar mais atenção do que a mãe, parecia estar enciumada. Até que um dia Maria pensou em uma forma de se livrar daquela situação, lembrou de algo que sempre ouviu falar, a romã tinha veneno, poderia matar uma pessoa caso ela ingerisse.

Numa noite Maria decidiu fazer o jantar para a mãe e para o pastor, com direito a sobremesa… de romã! Ela viu a mãe se contorcer de dor a noite inteira, dormiu abraçada nela, mas sim, ela matou a mãe.

Com direção de Eduardo Nunes, cinematografia de Mauro Pinheiro Jr., produção de Fernanda Reznik e Izabella Faye e estrelado por Patrícia Pillar, Zé Carlos Machado, Lee Taylor e Bárbara Luz, é um filme silencioso, com toques que só depois de assistir é que se consegue entender.

Ele é narrado pela voz do pai e tem flashes de um diálogo entre Maria e o pai, eles estão onde se parece uma sala de um manicômio, com paredes brancas e praticamente sem mobílias. E não há um assunto definido nesses diálogos, nem tem relação com a mãe de primeiro plano, lembra mais epifanias filosóficas entre pai e filha.

Não há nada óbvio no filme, pouco se é explicado, são pouquíssimos os diálogos, que também são curtos, fala-se simplesmente o necessário. De primeiro imagina-se que o pai de Maria, que some no mundo, é quem está no manicômio e que ela foi lá visitar o pai, contar as novidades da mãe e da casa, mas daí vem o desenrolar da história dela e a visão muda.

Vê-se agora uma menina que já tinha problemas (em algumas cenas ela machuca as mãos, azulanhando a árvore, como se fosse uma descarga nervosa), só que agravada pela situação. Ela se apaixonou por aquele pastor, mas era nova de mais e, talvez, ingênua, para entender o que sentia, quando viu a mãe interessada nele, achou que deveria fazer alguma coisa, então acabou com os problemas dela definitivamente.

Então, dá para entender que quem está internada no manicômio e imagina uma conversa com o pais, talvez por saudades, possivelmente o único parente vivo e que ela “confiaria”. Tem uma cena na metade do filme que dá para desconfiar, quando um funcionário vai deixar a refeição, do nada o pai some de cena, o prato é entregue a Maria, que chama pelo pai quando o funcionário sai (como se ele não existisse para o funcionário).

O filme é um pouco lento, não é muito atrativo para a maioria, as relações são um pouco estranhas, o silêncio se torna um incômodo, mas isso parece ser o objetivo da direção e da produção, porque as atuações em si são boas, não só os consagrados Patrícia Pillar e Zé Carlos Machado, mas a da Maria, vivida por Bárbara Luz, é muito boa para o estilo.

Para mim é um pouco cansativo, não tem muita lógica, nenhuma fio da meada para entender, porém a ideia é boa. Dá mesmo para enganar o público com os diálogos no manicômio, até o semblante dele fazia pensar que ele era o louco aprisionado no hospital.

Assistiria novamente? Não, prefiro filmes com mais diálogos, mas vale a pena conferir!

Ah, duas observações:

1 – Até aparece um unicórnio no começo do filme, mas não entendi a relação entre o animal mitológico e a trama (não consegui nem formular uma teoria);

2 – Pelo amor do unicórnio, romã não mata ninguém, tem muitas funções maravilhosas para a saúde. Acredito que foi só uma alegoria usada na trama.

Beijinhos e até mais.

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