O Estranho Amor de Ana e Gael – “No Silêncio do Mar” - NoSet
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O Estranho Amor de Ana e Gael – “No Silêncio do Mar”

A famosa frase de efeito, “as aparências enganam”, encaixa-se perfeitamente na intricada história da obra “No Silêncio do Mar”, da autora Juliana Dantas e publicada pela editora Harlequin.

Ana é a filha de Fernando Mondiano, um grande empresário, dono de vários restaurantes pelo Brasil e de uma fortuna, mas com muitos segredos. Embora tenha crescido só com o pai a relação não é nada boa, ninguém nunca lidou com a ausência da mãe de Ana, o que causou alguns problemas na vida adulta dela.

Ela era uma adolescente bem típica, sendo o centro das atenções de Florianópolis pelo simples fato de poder pagar os luxos de amigos mais próximos. Tinha dinheiro e poder, mas sentia um vazio em si que nunca conseguiu entender.

Gael, por outro lado, passou por grandes dificuldades. Nasceu na Argentina, mas veio para o Brasil com a mãe quando tinha 07 anos, quando os pais se separaram. A mãe dele trabalhava em restaurantes e trabalhava dia e noite para dar uma vida digna.

A vida deles se cruzaram quando Gael foi morar na grande mansão de Fernando, o jovem talentoso (arrogante também) havia sido contratado para ser o secretário pessoal do famoso empresário. Só que Ana não gostou nada disso, ela viu Gael como um concorrente, afinal ela via o pai o tratando como um filho, com mais carinho e dedicação do que lidava com ela.

Entre idas e vindas do mundo eles se casaram e estavam vivendo na isolada casa de praia de Gael, com “Alice”, a suposta filha do casal. Tudo parecia calmo e tranquilo, até outro casal aparecerem na vizinhança, Lívia e Rui.

Acontece que havia mais coisas acontecendo que aparentava. A bebê que Ana chamava de Alice seria sua filha com um namorado da faculdade, Jonas, que terminou o relacionamento antes de ela descobrir que estava grávida. Na mesma época o pai de Ana estava à beira da morte e, para não dar mais desgosto ao pai, ela decidiu se casar com Gael e dizer que o bebê era dele.

Até então Gael e Ana nutriam sentimentos entre si, mas nunca confessaram, só se sabia que Gael protegia Ana sob todas as circunstâncias.

A decisão de irem para casa de praia surpreendeu, afinal Ana tinha muito medo do mar (apesar de amar a piscina da casa do pai), mas tinha uma razão. A bebê de Ana não sobreviveu muito tempo depois de nascida e ela entrou em depressão, em um possível surto ela acabou sequestrando uma bebê que aparentava estar abandonada em um parque.

Aos poucos Gael entendeu todos os problemas de Ana. Ela tinha traumas antigos pelo o que aconteceu com a mãe dela, que havia tentando a matar afogada no mar e, dias depois, se matou na banheira de casa (e Ana presenciou, com apenas 06 anos).

Ana passou a criar situações em sua mente e acreditar que aquilo era a verdade, por isso nunca dizia que a mãe havia morrido, mas sim abandonado, e que acreditava piamente que a bebê que sequestrou era dela. Gael, que a amava muito, tentou solucionar o caso do sequestro da melhor forma possível e esse processo fez com que Ana conseguisse encarar tais traumas.

Demorou, mas ela conseguiu lidar com tais problemas e finalmente ter uma vida normal.

Embora não se diga hora alguma qual o real problema de Ana, aos poucos o leitor entende que ela sofre de graves problemas mentais, provavelmente de origem genética, por causa de sua mãe. Os problemas se agravam ao longo da vida, quando o pai se recusa a lidar com eles e acaba afastando a filha. A perda da filha foi o estopim.

Em vários momentos da narrativa é possível encontrar pistas sobre o problema, em especial quando a narrativa é pela “voz” de Gael, afirmando ter tido momentos particulares e assustadores com Ana e depois ela simplesmente “esquece”, finge que não aconteceu. Foram momentos em que ele a salvou de tentativas de suicídio, tanto na banheira quanto na piscina.

Outra pista, agora na narrativa de Ana, era a forma como ela se referia a mãe, dizendo que ela tinha simplesmente sumido e que usava mangas cumpridas sempre, até no verão. Lá no final, voltando para a narrativa de Gael, descobre-se do suicídio da mãe de Ana. Dá para supor que as mangas cumpridas eram para cobrir cortes de outras tentativas.

É uma história muito pesada e muito emocional, tanto do lado emocional, quando se descobre todos esses problemas mentais de Ana, quanto da questão do sequestro. A narrativa de Lívia também é importante para entender esse outro lado da história, entender que a bebê não era abandonada e que existia outro problema além do de Ana.

A forma como o livro é escrito faz com que o leitor de apegue ao livro e queira ler entender todo o quebra-cabeça de uma vez só. Até a metade toda a narrativa é da visão de Ana, só que a cada capítulo era mostrada a situação atual e os “flashbacks”, colocando Gael quase como um vilão com cara de mocinho ou mocinho com cara de vilão.

Enfim, se você é mulher e ler o livro até aí com certeza vai odiar Gael. Ele se mostra altamente arrogante e o relacionamento deles parece ser abusivo, sempre ele dominando todos os passos dela.

Daí chega a segunda parte do livro, mostrando o lado de Gael, também misturando passado e presente, falando de detalhes que Ana fingia não lembrar. Nessa etapa eu consegui ver o outro lado, confirmando um pouco da arrogância dele, mas entendo a razão para tanta preocupação.

Na verdade, ele não queria dominar Ana, queria a proteger dela mesma, tanto das escolhas quanto das ações perigosas, que pareciam ser realizadas sem planejamento e sem consciência alguma. Ele não é um santo, mas também não é tão ruim quanto Ana tenta descrever nos primeiros capítulos.

A figura de Sara, a misteriosa dona da barraquinha de artesanato, é essencial. Ela se diz sensitiva, por isso entendeu a história toda conforme foi desenrolando, mas o que mais chama atenção dessa personagem foi a conversa dela com Ana sobre religiosidade.

Sara não tentou converter Ana a nada, nem a convencer da sua crença, mas afirmou que ajudaria a passar por tudo aquilo e, talvez, a entender sua história com a mãe e o pai. Acima de qualquer religião, ela foi capaz de sensibilizar Ana sobre culpa, atos falhos, perdão e novas oportunidades pelas razões certas.

O mais emocionante nisso tudo é que se baseia em uma história real. Uma corajosa decidiu dividir sua história com a autora, que a transformou em algo brilhante.

Conseguiu tirar algumas lágrimas minhas e muita reflexão também. É daquelas histórias que você fica imaginando o depois!

 

Até mais.

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