Crítica | Aves de Rapina - NoSet
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Crítica | Aves de Rapina

Em 2016, o diretor David Ayrer passou para as telas a adaptação dos quadrinhos baseada em uma equipe de anti-heróis da DC Comics, O Esquadrão Suicida. A reunião de uma trupe de bandidos recrutada para salvar o mundo de uma ameaça sobrenatural, que contava com atuações como Will Smith, Jared Leto, Viola Davis, Margot Robbie e grande elenco, fez muito sucesso. Pena que sucesso não quer dizer que automaticamente o filme seja bom. Aliás, O Esquadrão Suicida é uma verdadeira bomba. Apenas a interpretação patética de Jared Leto no pior Coringa das telonas poderia deixar o filme no esquecimento, mas foi nele que vimos o nascimento de um novo ícone da cultura pop nas telas, a personagem Arlequina, interpretada magistralmente por Margot Robbie, que foi a única que se salvou na constrangedora adaptação. Tivemos quase uma “Arlequina mania” pelo mundo, o visual colorido e irreverente da personagem provocou uma febre no mundo inteiro e eram raras as festas à fantasia que alguém não ia travestida de palhaça do crime. Até que demorou para DC e Warner explorarem o filão da valiosa personagem novamente e, em 2020, Arlequina está de volta e agora acompanhada por um seleto grupo de heroínas que estrelam Aves de Rapina – Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey and the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn), com direção de Cathy Yan.

O filme começa contando a ruptura de Arlequina com o Coringa. Aliás, explosiva ruptura, que a faz ficar vulnerável e sem proteção, já que Arlequina fazia o que queria por ser a garota do Coringa e, como consequência, passa a ser perseguida por uma horda de desafetos. Enquanto isso, o mais temido mafioso de Gotham City, o excêntrico e cruel Máscara Negra, sempre com seu escudeiro, o esfolador Zsasz, precisa urgentemente encontrar uma jovem ladra chamada Cass, que furtou um valioso diamante do gangster. Com a cidade em polvorosa, as duas histórias se encontram e Arlequina e Cass acabam se juntando à vingativa Caçadora, a policial Renne Montoya, e a cantora mestre em artes marciais Canário Negro. Encurraladas, não resta nada além das cinco se juntarem e enfrentarem o sádico Máscara Negra e seu mercenário exército.

Não se via a hora de Margot Robbie estrelar novamente a Arlequina. Um personagem como esse seria tiro certeiro em qualquer filme e a diretora Cathy Yan, apenas na sua segunda direção de um longa, acerta em cheio na condução de Aves de Rapina. Direção ágil, edição moderna, às vezes frenética até demais, com idas e vindas na história e uma narração da própria Arlequina que praticamente conversa com o espectador, dão o tom perfeito ao bom roteiro apenas didático, sem grandes inovações do filme. A DC também dessa vez acertou em fazer um filme divertido, violento, mas em tom mais leve, abusando da fotografia colorida de uma Gotham City poucas vezes retratada assim em filmes e uma despretensão psicológica de seus personagens, como fazia em outros filmes de seus heróis. Aves de Rapina vieram para divertir. Se o filme explora a violência, ela surge em contraponto com as pitadas de um humor às vezes non sense, quase sempre comandos por Arlequina. Aliás, o nome Aves de Rapina podia muito bem ser substituído por Arlequina – o Filme. Margot Robbie mais uma vez encanta como a temperamental, irônica e violenta personagem, distribuindo chutes, tiros e socos e charme sem nunca perder o tom irreverente das situações. Margot parece que nasceu perfeitamente para o papel e fica difícil imaginar alguém um dia superar a sua atuação única como Arlequina. O time de apoio dela, as Aves de Rapina é mais discreto, mas conseguem ser boas coadjuvantes. Rosie Perez como Renne Montoya, a policial honesta de Gotham, parece brilhar mais, com boas cenas e tiradas. Jurnee Smollett Bell também está bem como a Canário Negro, enquanto Mary Elisabeth Winstead, a Caçadora, e Ella Jay Basco, como a caçada Cassandra Cass, apenas completam o time na sombra de Arlequina. Ewan McGregor como Sionis, o Máscara Negra, está excelente como o temperamental, explosivo e afetado vilão tendo um belo embate com a pseudo-heroína e o grupo de justiceiras. O filme tem uma cena que com certeza pode entrar para a história dos filmes de adaptação de quadrinhos: quando Arlequina invade a delegacia para libertar Cass, onde a câmera lenta pontua seus tiros de pressão e os acrobáticos golpes derrubando um a um os policiais parecendo um balé irresistivelmente coreografado pontuado por uma trilha sonora hipnotizadora. O crème de la crème de Arlequina.

Aves de Rapina (Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa) consegue libertar Arlequina do fiasco do filme O Esquadrão Suicida. Aqui ela está livre e solta (sem o “Mc” Jared Leto…) esbanjando seu humor, cravando de vez seu nome na cultura pop. O filme pode ser taxado de violento, ele é sim, mas nunca perde a essência do humor com belas tiradas e situações cômicas e o principal: por mais que Margot Robbie tome a história para si é um filme onde a sororidade está explícita na união das forças das cinco mulheres em busca de um objetivo que apenas juntas podem enfrentar, mas uma sororidade longe de ser panfletária que pode servir de exemplo por ser realista, empoderada e extremamente atual.

Sinopse: Você já ouviu aquela piada sobre a policial, a cantora, a psicopata e a princesa da máfia? Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa é um conto distorcido narrado por Harley, como só ela poderia contar. Quando o mais terrível e narcisista vilão de Gotham, Roman Sionis, e seu braço direito, Zsasz, começam a cassar uma jovem chamada Cass, a cidade é virada de cabeça para baixo em busca da garota. Os caminhos de Arlequina, Caçadora, Canário Negro e Renee Montoya se encontram e o quarteto improvável não tem escolha a não ser se unir para derrubar Roman.

Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Ewan McGregor, Jurnee Smollett-Bell, Chris Messina, Rosie Perez, Matthew Willig, Derek Wilson

Direção: Cathy Yan

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