Bee e seus Dragões – “Em Queda Livre” - NoSet
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Bee e seus Dragões – “Em Queda Livre”

Controlar todos os aspectos da vida é impossível, ao longo dos anos alguns traumas podem ser contraídos. O mais triste é quando isso ainda ocorre quando criança, sem a ajuda e o apoio necessário eles podem nunca ser superados.

Brooklin “Bee” Turner sabe muito bem disso na obra “Em Queda Livre”, da autora Julie Johnson e publicada no Brasil pela editora Pausa.

A única que chamava Brooklin de “Bee” era sua mãe, morta por um assaltante na frente dela quando só tinha 06 anos de idade. Além da cena terrível, a menina ainda passou despercebida quando o bandido sequestrou o carro com ela dentro, que o fez bater o carro e ser preso.

Brooklin passou os próximos meses em um orfanato, porque não tinha nenhum parente próximo para cuidar dela. Ela não conhecia o pai, por isso foi difícil de o localizar. Ele até aceitou receber a menina, mas nunca deu o mínimo de atenção.

Isso tudo a fez chegar aos 20 anos de idade com a fama de fria e sem sentimentos. Ela só tem uma amiga (amiga verdadeira, quase irmã), Lexi, com pensamento nada saudável sobre sexo e pesadelos terríveis que a fazem reviver aqueles momentos de terror.

Já no segundo ano de faculdade, Brookie e Lexi se mudaram para o segundo andar de uma casa vitoriana, perto do campus. Elas eram opostos, enquanto Brookie era retraída e se importava pouco com a aparência, Lexi, uma legítima estudante de moda, ama uma produção e odeia acordar cedo. Mas amavam café na mesma medida (entendo tanto).

No primeiro dia do novo semestre Lexi fez Brookie sofrer um acidente porque estava mais focada no cara que atraía todas as atenções do campus, Finn Chambers. Por coincidência, foi ele mesmo que deu assistência a Brookie, mas deixando clara sua personalidade arrogante e um tanto quanto machista, o que fez a garota ganhar ranço dele.

A partir dali parecia que Finn estava em todos os lugares, mesmo contra a vontade de Brookie. Isso só se agravou quando Lexi começou a namorar o amigo e colega de banda de Finn, Tyler. Embora a primeira impressão tenha sido das piores, eles começaram a ter uma ligação quase inexplicável, tanto que, depois de muitas provas, Brookie cedeu e baixou a guarda.

Só que as coisas não seriam tão simples. Enquanto Brookie se debatia para baixar a guarda coisas estranhas aconteciam. Primeiro, seus pesadelos se tornaram sonhos ambientados no orfanato, com um amigo, na verdade eram lembranças que sua mente abalada a fez esquecer, depois ligações misteriosas.

Como ela se sentiu sobrecarregada ela decidiu fazer algo que nunca tinha dado certo (porque não partia da vontade dela), procurar uma psiquiatra e tratar seus traumas. Por causa das primeiras consultas, Brookie até conseguiu se apresentar em um karaokê, cantando e tocando “Blackbird”, que a fazia lembrar da mãe.

Também por causa disso ela começou a analisar os novos sonhos. O garoto contava histórias, diferentes daquelas que a mãe contava, de princesas e dragões, mas que a fizeram sair do transe e voltar a falar depois do choque. Ela disse para ele que poderia a chamar de “Brookie”. Ela queria saber o porquê de estar lembrando disso.

No momento que entregou o coração a Finn ela se deu conta que o garoto era ele. E ele sabia quem era ela, ele buscou por ela, só não planejou se apaixonar por ela.

As ligações misteriosas também tinham ligação com o passado, mas longe de ter algo a ver com Finn. Na verdade, era o assassino da mãe dela, que havia saído da cadeia antes do tempo e estava a seguindo de perto e quase a matava por vingança.

Essa é uma história de autoconhecimento e superação. Brookie tentou a todo custo esconder suas feridas mentais, não deixou ninguém se aproximar dela de verdade porque não queria que sentissem pena dela. Lexi só se conseguiu essa proximidade porque ela entendia quando deveria dar espaço, mesmo sempre querendo saber mais um pouco da vida da amiga.

Passado e presente se unem na forma de construir o livro, porque os sonhos de Brookie sempre eram detalhadamente descritos. Por isso mesmo dá para saber que Finn é o amigo do orfanato mesmo antes de Brookie fazer a ligação, afinal ele sempre soltava alguma pista, mesmo não tendo coragem de dizer a verdade. Sempre a chamava de Bee, falava que passou a vida a esperando, que sempre foi ela.

Essa é possivelmente a chave para prender a atenção do leitor, pelo menos me prendeu. Porque eu já tinha entendido a ligação, mas queria ver como é que ela iria fazer a ligação e qual seria a reação dela … Que não foi das melhores no começo, mas depois deu espaço para momentos meigos dela.

Uma sacada inteligente foi ter colocado esses dois pontos do passado de Brookie voltando ao mesmo tempo. Há momentos que, mesmo sem querer, imagina-se que o maluco que a persegue é Finn, o que é frustrante até certo ponto.

Finn não é um santo, na verdade tem momentos que ele parece maluco mesmo, mas ele tem um senso de proteção que o faz perder a cabeça quando algo de ruim acontece com Brooklin. Entre algumas discussões bestas entre eles, é um casal que torci para acontecer desde começo, seja pelo desenvolvimento da história ou pelo eterno clichê: garoto popular se apaixona por quem menos quer a atenção dele (amo clichês).

E quanto ao assassino e stalker, foi brilhante ter o colocado como alguém que nunca ninguém falou. Ele era o cara para quem Brookie pagava o aluguel, mas que ela nunca tinha visto, ficava no andar de baixo, observando cada passo dela e ela sequer desconfiou disso.

Eu amei que o final não é de conto de fadas, não tem grandes ápices, só Brookie sobrevivendo depois do ataque e pedindo que Finn contasse uma história para ela (como fazia no orfanato). Mas queria que tivesse tido um momento de ela contando tudo para Lexi, essa amiga/irmã que a apoiou em tudo mesmo não sabendo de quase nada, ela merecia esse momento!

Quais não são os grandes dragões que assustam nossos sonhos e simplesmente não nos damos conta disso? Será que precisamos de um gatilho como Finn para lembrar de momentos bons em meio a tanta tormenta?

 

Até mais.

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