Análise Fílmica: Mandela - Longo Caminho Para A Liberdade (2013) - NoSet
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Análise Fílmica: Mandela – Longo Caminho Para A Liberdade (2013)

ATENÇÃO: Contém spoilers.

O longo caminho de Mandela é retratado, também, em um longo filme de quase duas horas e meia de duração que faz valer cada segundo. Essa, de certa forma, supera todas as películas anteriores sobre a história de vida de Nelson Mandela. Um dos fatores que mais pesam para isso talvez seja o fato da narrativa contar praticamente toda a vida do ícone mundial e, claro, por ser baseado em sua obra autobiográfica. Mas não é por ser um filme baseado na obra que o próprio Mandela escreveu que este deixa de ser crítico à postura de Mandela para com a sua família: seu primeiro filho e sua primeira esposa.

Palmas para a produção por não transformar Mandela em uma figura platônica. Mas por retratarem um ser humano, repleto de falhas. Apesar de seu protagonismo na luta pelos direitos do povo negro, fica claro que o homem fora um péssimo pai, que arruinara seu primeiro casamento com traições. Enfim, um homem grandioso, com os defeitos que lhe são de direito.

Desde muito cedo Mandela fora criado em sua tribo com o propósito de servir a um bem maior. Estava nas bases de sua formação a filosofia de que sozinho ele não seria nada, mas unido a seus semelhantes poderia ser muito forte. Mandela tinha esse senso de obrigação de que deveria servir ao seu povo, e sua maior meta talvez fosse dar orgulho a sua família. Me fica bem claro, que todos os negros da África do Sul eram, para Mandela, sua família.

A maior parte da narrativa é pautada pela história do Apartheid. Uma política governamental de segregação racial. Política essa que considero uma das passagens mais vergonhosas da história humana. Fico enojado, sinto repulsa, ao tratar do assunto. Para mim é inconcebível que um governo, composto por seres humanos, tenha oficializado algo dessa natureza. O Apartheid foi a institucionalização da discriminação e do racismo em sua pior forma. Algo que devemos lembrar incansavelmente, para jamais esquecer do quão abominável o ser humano pode ser. É preciso se recordar para jamais permitir que coisas parecidas se repitam.

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Nelson Mandela (Idris Elba) e sua esposa Winnie (Naomie Harris)

A África do Sul vivia o Apartheid, um regime onde homens negros eram mortos a troco de nada. Assim como é retratado logo no início do filme, os negros eram espancados até a morte, por motivo nenhum eram detidos e torturados, muitas vezes levados a óbito. Não existia lei para quem tinha a pele mais escura. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, já diria Elza Soares. Lamentavelmente, isso é algo que se repetiu por décadas.

No filme é contado o Massacre de Sharperville, em 1960, quando tropas do governo abriram fogo contra um protesto matando 69 negros. Entre eles mulheres e crianças, muitos atingidos pelas costas. Tudo em prol da tal “supremacia branca”. Este episódio resultou na decisão de Mandela abandonar a resistência pacífica e partir para a luta armada. Se seguiram então pequenos atentados de sabotagem contra o governo. As ações eram efetivadas pela “Lança da Nação”, o braço armado da ANC (Congresso Nacional Africano), o partido que Mandela integrava.

Desde o início Mandela sabia que não poderia dar a sua família o marido, o pai, o ente querido que eles precisavam. Lutar pelos direitos do povo negro lhe custou muito caro: 27 anos preso em um regime fechado e totalmente separado de qualquer contato físico. Isso retirou dele a oportunidade de ver seus filhos crescerem, nesse meio tempo, o seu primeiro filho, do primeiro casamento, faleceu. No período em que esteve preso, a mãe de Mandela também morreu. Assim como não pode se despedir de seu filho e de sua mãe, Mandela não viu sua filha crescer. A prisão onde ele ficou detido não permitia a entrada de menores de 16 anos. A última lembrança que ele tinha da menina era de quando ela tinha apenas 3 anos, quando ele finalmente pode voltar a revê-la, ela já era uma moça feita.

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Mandela (Idris Elba) em discurso pelos direitos do povo negro

Apesar de tudo pelo que passou, Mandela não se deixou amargurar, não foi tomado pelo ódio, e foi isso que manteve sua integridade e seu caráter inabaláveis. O mesmo pode se dizer da sua ideologia e da sua fé no povo negro. Pelo contrário, a esposa Winnie não conseguiu suportar do mesmo modo que ele, e se deixou dominar pelo ódio, pela raiva, pela vingança. Isso a destruiu por dentro, destruiu seus laços de afeto com Mandela. Winnie passou a militar de forma incisiva, hostil e muito violenta. Ela, com certeza, contribuiu muito para a eclosão de uma guerra civil na África do Sul. Winnie chegou ao ponto de até mesmo mandar assassinarem alguns negros que não eram a favor de sua causa. A força motriz de Winnie era o ódio, já a de Mandela era a esperança.

Mandela: Longo Caminho para a liberdade é um grande filme. Não tanto por seus próprios méritos, porém mais pela história retratada. Também, o modo como retratam essa história é que conta. Há de se registrar que o filme é bem consistente, com boas atuações, principalmente a de Idris Elba que interpreta o Mandela. A trilha sonora também é muito boa, emocionante. A tensão estabelecida durante toda a narrativa, a fotografia são todos elementos bem realizados. Nada que salte aos olhos, mas o filme cumpre o seu papel. Um grande ponto positivo é que o diretor conseguiu manter o filme interessante e atrativo não permitindo que o espectador se distraia. Apesar de suas duas horas e vinte e um minutos, Mandela: Longo Caminho para a liberdade não é daqueles filmes que nos dão sono.

Nelson Mandela foi um homem dedicado, incondicionalmente, à sua causa. Para tal sacrificou relacionamentos, família e boa parte da própria vida. Pagou o preço por lutar pelo que julgava ser o justo. Quase foi sentenciado a morte, junto de seus companheiros de ANC. Acabaram, ele e seus companheiros, passando 27 anos na prisão, em uma ilha, realizando trabalho duro em uma pedreira. Entretanto, graças a luta destes homens, milhares puderam desfrutar de uma vida melhor, um pouco mais justa. Mandela é uma daquelas personalidades que ficam marcadas para sempre na história da raça humana. É um personagem que seguirá inspirando milhares de pessoas por décadas. Seus feitos são memoráveis, e ecoarão por muitos anos ainda, em todas as partes do mundo.

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“Mas, se necessário for, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer” (Nelson Mandela)

Nome original: Mandela – Long walk to freedom

País de origem: Estados Unidos

Direção: Justin Chadwick

Informações adicionais: O filme é baseado no livro autobiográfico de Nelson Mandela: Long Walk To Freedom, lançado em 1994. O filme foi lançado (28 de novembro de 2013) na África do Sul exatamente uma semana antes do falecimento de Mandela (05 de dezembro de 2013). Já em Londres, por exemplo, o lançamento coincidiu com o dia do falecimento do ícone mundial.

Principais premiações: O filme teve três indicações ao Globo de Ouro, incluindo Melhor Ator, para Idris Elba.

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