Doutor Sono: análise da aguardada sequência de O Iluminado - NoSet
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Doutor Sono: análise da aguardada sequência de O Iluminado

Certa feita em 2006, Stephen King, em entrevista a The Paris Review, explicou o porquê de nunca ter gostado da adaptação cinematográfica de seu livro de 1977 O Iluminado por Stanley Kubrick em 1980. King fala que o filme é muito frio, que Wendy, a esposa de Jack Torrance, é tratada apenas como uma máquina de gritar, que não tinha senso de dinâmica familiar no enredo, que Jack Nicholson parecia um psicopata de motocicleta (alusão aos filmes de motocicletas que fez nos anos 60), fez um papel de apenas um louco, que o final do filme é demais sombrio e principalmente: alega que Kubrick  jamais leu o livro. Enfim, parece que apenas o senhor King não gostou do filme O Iluminado (The Shining, 1980) que se tornou um dos maiores clássicos do terror da história. Em 2013 King escreveu uma sequência para o seu livro Doutor Sono (Doctor Sleep) que contava o que sucedeu os acontecimentos do livro original. Em 2019 coube a Mike Flanagan (Ouija – A Origem do Mal e Hush) dirigir a tão esperada continuação da saga de Danny Torrance agora adulto em Doutor Sono (Doctor Sleep).

O filme conta o que aconteceu com Danny e os traumas de sua vida após ter sobrevivido a uma tentativa de assassinato pelo próprio pai e tentando conviver com seu especial dom de ser ‘’iluminado’’ enfrentando os fantasmas que atormentam sua volta. Sua vida não é nada fácil, vai crescendo e praticamente sobrevivendo, se torna um alcoólatra sem rumo, fica pulando de cidade em cidade até que um dia consegue acolhimento na pequena cidade de Frasier. Ali consegue um emprego num hospital, conforta os moribundos e cria vínculos de amizade com a população, mas o que ele não imaginava é que começaria a ter contatos telepáticos com a menina Abra, uma ‘’iluminada’’ como ele. Mas Abra corre muito perigo porque existe um grupo de semi-imortais denominado de Verdadeiro Nó, comandado por Rose Cartola que busca a total imortalidade sobrevivendo a base de sugar a energia dos tais iluminados. Com isso, Danny e Abra se juntam para enfrentar o temido grupo.

De primeira já questiono o mestre King. O Iluminado do Kubrick é um excelente filme, e essa briga de egos de dois gênios apenas fez com que a adaptação de 1980 ganhasse cada vez mais admiradores (ao contrário da série adaptada com o aval do King para a Tv em 1997, um verdadeiro abacaxi). Mas voltando ao filme, uma continuação de um clássico, ainda mais 40 anos depois e com aprovação do King o cara já vai ao cinema pensando no pior. Mas não, Doutor Sono é um bom filme. Mike Flannagan consegue fazer um mix das ideias de King, misturar o enredo e recriar imagens do clássico do Kubrick com maestria. Ewan McGregor tem a incumbência de fazer o papel de Danny 40 anos mais velho e funciona, principalmente na transformação do Danny alcoólatra, traumatizado e brigão no Danny com uma razão de ser na vida, limpo e pronto para passar o seu bastão de ‘’iluminado’’. A menina Kyliegh Curran também dá um show como a ‘’iluminada’’ da vez, mostrando total controle da personagem, dando um ar de poder único a ela. Mas quem rouba o filme é Rebecca Fergunson como Rose Cartola. A atriz esbanja talento e vitalidade criando uma vilã que com certeza entra para o rol dos filmes do terror, com seu poder de persuasão, liderança e sede de vapor de vida, de preferência de gente iluminada.

Mesmo a duração de duas horas e meia do filme não cansa a plateia, uma vez que a trama é praticamente dividida em três partes e com várias histórias distintas (a saga de Danny, Abra e do grupo do Verdadeiro Nó) é muito bem costurada pelo roteiro adaptado e a direção de Flanagan, um já especialista no terror moderno. Aliás a terceira parte é um deleite aos fãs do filme de 1980. A parte final com sua recriação do Hotel Overlook quase 40 anos depois termina com chave de ouro e dignidade essa tarefa quase ingrata de fazer uma continuação de um clássico.

Doutor Sono consegue agradar tanto aos nostálgicos do filme de Kubrick e consegue ao mesmo tempo ter o mérito de dar um toque de terror moderno, misturando um pouco de ritmo de filmes de super-heróis (poderes telepáticos), com tensão, violência e suspense no ponto e sustos garantidos. Enfim, esse mix de geleia geral de Kubrick com King, mexido e batido por Flanagan consegue com maestria agradar a praticamente todo mundo, fazendo de Doutor Sono uma grata e segura adaptação.

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