Crítica: Submersão (Wim Wenders, 2017) - NoSet
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Crítica: Submersão (Wim Wenders, 2017)

Um dos nomes mais importantes do cinema alemão, Wim Wenders é o tipo de diretor do qual sempre esperamos um algo a mais. Não por é por mero exercício de história, mas alguém que foi um dos responsáveis pelo Novo Cinema Alemão, que floresceu nas décadas de 60 e 70, tem cacife o bastante para chamar nossa atenção. Só para citar algumas obras excepcionais: Paris, Texas (1984) e sua introspecção nos belos personagens de Nastassja Kinski e do saudoso Harry Dean Stanton; Asas do Desejo (1987), a história do anjo investigando as pessoas na Terra (ganhou uma versão americana açucarada no romance em Cidade dos Anjos); e para ser mais recente, o belo documentário O Sal da Terra (2014), sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

Dessa vez com um elenco da lista A hollywoodiana, o diretor investe em um romance filosófico adaptado de um romance de J.M Ledgard, que conta a história da pesquisadora oceanógrafa Danielle (Alicia Vikander) e do agente James (James McAvoy). Aos passarem as férias em local paradisíaco na costa francesa, os dois se conhecem enquanto se preparam para novas etapas de seus trabalhos; ela em uma exploração das regiões abissais no oceano em busca de importantes revelações científicas, e ele em uma missão secreta na Somália em busca de terroristas islâmicos.

Dividido em duas partes mais distintas, Submersão navega entre dois momentos na vida do casal: um que mostra como se conheceram e outro conta as consequências da inevitável distância que os separa devido à natureza de suas profissões. Iniciando no momento em que Dani se prepara para um mergulho decisivo, o filme nos coloca no ambiente conflituoso entre a expectativa da exploração pela qual a personagem espera há tempos e a insegurança causada pela breve e intensa relação com James. Não é muito difícil notar o pesar que as expressões da personagem carregam, mesmo que diante de um sucesso profissional – mérito de Alicia Vikander, que consegue transformar uma jovem determinada em uma pessoa que parece carregar os anos de uma alma veterana em sua postura. É, na verdade, o primeiro sinal de que um romance é apenas o meio pelo qual Wenders irá mergulhar nos anseios e nas reflexões de seus protagonistas.

Todo o segmento que toma a forma narrativa de um romance tradicional, aliás, é o que mais funciona na obra. O encontro entre eles é crível e suas personalidades se encaixam na medida em que suas diferenças surgem mais como um flerte mútuo do que uma incompatibilidade. São duas pessoas que tem motivos relevantes o suficiente para subitamente perceberem a necessidade um do outro, o que justifica bem a intensidade repentina na relação, mesmo com o tempo curto. A direção de Wenders, aliás, usa com inteligência a exploração do ambiente para colocar os personagens em uma lógica que hora os faz serem apenas componentes em grandes planos abertos, que exploram a magnitude do ambiente que os cerca; hora serem incisivamente enquadrados de frente quando revelam seus medos interiores causados pelas incertezas do futuro.

E o 1º ato funciona justamente porque o roteiro, adaptado por Erin Dignam, dá o suficiente em material para que os conflitos internos daqueles personagens caibam suficientemente no tempo de tela proposto, e é interessante indagar seus rumos baseados nas possibilidades do arco de cada um. É por isso que a decepção é inevitável quando a narrativa opta por querer expandir demais suas diversas propostas temáticas e jamais ter tempo ou substância para dá-las o tratamento necessário, servindo apenas para fazer uma ligação artificial entre as reflexões existenciais, cientificas e filosóficas e a necessidade cada vez mais grandiloquente de dar um ar épico à ligação amorosa entre o casal.

Costuradas pela montagem de Toni Froschhammer, esses temas, que vão surgindo em uma levada desproporcional, são necessariamente obrigados a coexistir com o vai e volta na estrutura que acompanha a divisão da trama. O que acontece é que a urgência de discutir uma miríade de reflexões acerca da vida, da ecologia, do homem, do meio ambiente, da morte, etc passa por cima do elemento tradicional de um simples romance, em moldes quase melodramáticos (como fez bem A Luz Entre Oceanos, com a própria Vikander). A pretensão é grande demais e o arco que transmitiria a ligação profunda entre Dani e James vai ficando megalomaníaco e desconjuntado, fazendo uma volta inversa em cima das propostas do filme, fazendo os questionamentos se parecem mais com filosofia de botequim do que qualquer outra coisa.

O que acaba acontecendo é que Submersão é um bom início de romance dentro de outro filme pretensioso e desajeitado em suas aspirações temáticas, tanto que o primeiro funciona por ser o que mantém o espectador investido no destino do casal dentro da trama. Apesar de errar na 2º parte, nossa simpatia por Dani e James é verdadeira. Dá até vontade de imaginarmos o filme se seguisse “apenas” como a história dos dois, e não a do universo, da vida e tudo mais.

Nota:

Trailer

Data de lançamento: 12 de abril de 2018 (1h 52min)

Direção: Wim Wenders

Elenco: Alicia Vikander, James McAvoy, Alexander Siddig, Celyn Jones

Sinopse: Danielle (Alicia Vikander) é uma exploradora do oceano que descobre um novo desafio: uma terrível, porém pioneira, descida ao abismo Ártico. James (James McAvoy) é um empreiteiro acusado de ser um espião e interrogado por jihadistas africanos que irá se unir à moça para ajudá-la em sua missão.

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