Crítica: Se a Rua Beale Falasse | Barry Jenkins consolidando seu talento. - NoSet
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Crítica: Se a Rua Beale Falasse | Barry Jenkins consolidando seu talento.

Era natural esperar com certa expectativa o próximo trabalho do cineasta Barry Jenkins. Quando levou o prêmio máximo da Academia em 2017 com Moonlight – talvez na gafe mais histórica da história da cerimônia, quando “perdeu” momentaneamente para La La Land – saiu com o peso de grande promessa, simbolizada por um longa sensível e representativo na medida para o que pedia o momento atual da indústria. Dois anos depois, ele retorna com Se a Rua Beale Falasse, nova obra que vem para confirmar o talento do diretor em unir o olhar social crítico com um cinema bem feito.

Adaptado do romance de James Baldwin (célebre escritor americano cujo o manuscrito Remember This House deu origem ao ótimo documentário indicado ao Oscar, Eu Não Sou Seu Negro), a história se passa na década de 1970, em Nova York. A trama acompanha a jovem Tish Rivers (Kiki Layne) enquanto corre para acelerar as investigações sobre o suposto crime que levou o namorado, Alonzo “Fonny” (Stephan James), a ser preso. Contando com o apoio de seu pais, Sharon (Regina King) e Joseph (Colman Domingo), ela vê a chegada de seu filho com Fonny se aproximar enquanto tem de enfrentar um processo que vai revelando os profundos conflitos raciais existentes no seu meio.

Se juntando a outros longas indicados ao Oscar de 2019 que tocam na temática similar do racismo (Infiltrado na Klan, Pantera Negra, Green Book), este é, provavelmente, o que ganha a abordagem mais dramática. Se nos outros, o tema vai de blockbuster de super-herói a roadmovie dramédia, aqui a adaptação do próprio Barry Jenkins prefere mostrar as consequências do preconceito na família Rivers e no relacionamento de Tish e Fonny. Embora o roteiro reserve seu espaço para dar um peso próprio aos questionamentos acerca do motivo da prisão do rapaz, o foco está no arco dramático de Tish e como ele está invariavelmente conectado aos problemas raciais da comunidade negra em Nova York.

Para isso, ao invés de construir uma história que se move unicamente pelos conflitos sociais, o longa desenvolve primeiro o comovente romance entre a dupla principal. Dessa forma, o alvo atingido não é primordialmente o escopo geral, mas a esfera pessoal, pois é mais fácil o espectador sentir as consequências desses conflitos na universalidade de uma história de amor do que através de um retrato com o qual, talvez, haja chances bem menores de se identificar. Não que o discurso não esteja presente – inclusive, em relação a Moonlight, por exemplo, o tema se apresenta bem mais direto e não muito preocupado com a sutileza –, mas ele entra como uma cartada final após o terreno já ter sido preparado pela excelente evolução dos personagens.

O que realmente faz com que o filme atinja ótimos resultados é que essas duas coisas nunca parecem desconectadas. A narrativa transita de forma absolutamente orgânica entre a importância do discurso e a fluidez cinematográfica. Esse caminho encontra um balanço perfeito através da montagem de Joi McMilon e Nat Sanders (indicados por Moonlight em 2017), que intercala com um equilíbrio admirável o romance com ares de “classicão” e a tensão que surge do futuro incerto de Fonny. Com a união dos dois, o discurso político jamais parece gratuito (com algumas poucas exceções sobre as quais falarei adiante) e só faz com que a obra ganhe mais ainda substância.

Mostrando que sua indiscutível sensibilidade não se esgotou no último filme, Barry Jenkins consegue transitar com surpreendente competência nos limiares do melodrama sem que isso chegue a atrapalhar o resultado. Basta observarmos, por exemplo, como a primeira sequência do longa remete quase a um musical – não em sua lógica característica, mas em seu estilo – ao trazer o casal principal vestindo figurinos sob cores mais fortes e embalados pela bela trilha sonora de Nicholas Britell (indicado na categoria e desde já meu favorito), que consegue ser poderosa e incisiva sem que isso cause qualquer tipo de exagero ou repetição. Ainda mais interessante é como o próprio design de som se mistura de forma brilhante à trilha, servindo como uma suave transição entre tons diferentes em uma mesma cena – como acontece em alguns momentos onde uma conversa casual entre dois personagens vai se tornando gradativamente uma confissão sobre dor, perda e medo enquanto a melodia se mistura com os ruídos de um bairro que ainda é vítima constante do preconceito.

Essa constante capacidade de envolver o espectador ainda é auxiliada pela leveza da câmera de Jenkins, que mantém algumas das características observadas em Moonlight, como a tendência em isolar personagens em momentos mais dramáticos numa profundidade de campo mais reduzida e jogar o espectador num olhar mais subjetivo através de planos que os trazem olhando diretamente para a câmera. Mesmo mantendo a identidade visual, o cineasta ainda encontra lapsos de inspiração admiráveis – sendo a mais notável aquela que envolve um flashback, uma banheira e um movimento inesperado (sem spoilers, mas certamente você a reconhecerá). Essa habilidade em “decorar” com poesia visual um longa que fala sobre assuntos terrivelmente reais é o que torna a narrativa tão curiosamente eficiente e arrebatadora, já que também não hesita quando usa o choque da realidade para demolir um pouco do lirismo.

Se há a algo que não permite Se a Rua Belae Falasse ser melhor ainda é o fato de que Jenkins não resiste a certos recursos que, embora não sejam nada graves, se mostram desnecessários quando se considera o poder do filme em já dizer tudo que precisava. Entram aí a narração que surge ocasionalmente refletindo sobre certas questões pessoais e sociais (acompanhadas por imagens mais poderosas e autoexplicativas) e a inserção de imagens em preto e branco que remetem à história da comunidade negra nos EUA. Não me entendam mal: todas essas coisas têm poder isolado e o seu papel importante no discurso, mas não são cinematograficamente indispensáveis.

Mesmo assim, o longa é suficientemente bom para confirmar o talento de Barry Jenkins e mantê-lo dentro das expectativas sempre que anunciar seu próximo projeto. Digo com tranquilidade que ele merecia estar pelo menos no lugar de três dos indicados ao prêmio principal, mas como já aprendemos que o Oscar não obedece exatamente à lógica que gostaríamos, torcemos para que seja reconhecido onde der.

Nota 

Trailer

Data de lançamento: 07 de fevereiro de 2019 (1h59min)

Direção: Barry Jenkins

Elenco: Kiki Layne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo, Teyonah Parris, Michael Beach, Aunjanue Ellis, Ebony Obsidian, Diego Luna, Ed Skrein, Brian Tyree Henry

Sinopse: Baseado no célebre romance de James Baldwin, o filme acompanha Tish (Kiki Layne), uma grávida do Harlem, que luta para livrar seu marido de uma acusação criminal e de subtextos racistas a tempo de tê-lo em casa para o nascimento de seu bebê.

 

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