Crítica: O Castelo de Vidro (2017) | Como podemos não falar sobre família, quando ela é tudo que temos? - NoSet
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Crítica: O Castelo de Vidro (2017) | Como podemos não falar sobre família, quando ela é tudo que temos?

Fugir dos problemas do passado é a saída de emergência idealizada por quem já não mais suporta o desaforo, as injustiças, a violência e os maus posicionamentos que desafiam a harmonia das relações familiares. E, em tempos tão turbulentos, tomar esse rumo nunca pareceu tão favorável. Em cartaz nos cinemas a partir da próxima semana, O Castelo de Vidro aposta na busca pela superação de passados conturbados em uma história de pessoas disfuncionais, cujos costumes são um tanto peculiares. Baseado no livro de mesmo nome, e escrito pela jornalista Jeanette Walls, a trama retrata a infância de Walls, criada com os irmãos no seio de uma família problemática e desequilibrada, mas simples e amorosa. Bateu uma curiosidade? Então venha conhecer mais sobre este drama biográfico que, possivelmente, tem a chance de entrar para a lista de indicados ao Oscar no próximo ano. Ah, não deixe de participar da promoção no final da crítica, pois o NoSet está sorteando 5 pares de ingressos para o filme!

Na trama, uma família disfuncional viajava o tempo todo, sem se preocupar com o futuro. Quando o dinheiro dos pais acabou, Jeanette e o irmão tiveram que cuidar de si mesmos, até conseguirem ir embora. À medida que crescia, ela foi tentando moldar uma identidade própria, tendo a mãe por uma artista egocêntrica e o pai, por um alcoólatra. Com uma premissa no mínimo atraente, a obra mergulha de cabeça no peso que as nossas ações exercem sobre o futuro da vida daqueles que mais amamos no mundo.

Visando a proposta de que todos podem dar uma segunda chance à vida, a película se sai muito bem! Com relação ao campo das relações familiares, os produtores, sem pieguices e respostas fáceis, mostram ao espectador que tudo nessa vida é mesmo relativo, e que as adversidades podem ser vividas com leveza, somando aprendizado e grandeza à nossa existência. Diria que a o longa é um daqueles casos em que a realidade parece beber das fontes da ficção. Tanto que no próprio livro, Jeanette Walls descreve detalhadamente as memórias de sua família boêmia, atípica, errante e inconformista. Herdeiros da rebeldia dos anos 60 ou até do espírito libertário dos beats, os pais de Walls percorreram um trajeto por inúmeras cidades americanas, chegando ao ponto de viver nas ruas, como sem-teto. Contrários aos trabalhos modestos – o pai vivia de expedientes e a mãe era uma pintora amadora/amante das artes –, as lembranças de Walls na maioria das vezes revelam momentos em que fome e desespero parecem intoleráveis.

Falando um pouco sobre o elenco, por meio do seu estilo vigoroso e direto que Brie Larson possui, a atriz se diferencia como Jeanette, evitando apelar para as explicações de cunho social ou da psicanálise, e fugindo do sentimentalismo singelo. A personagem de Larson, é realmente o destaque do elenco, afinal após anos escavando a intimidade alheia, ela desnuda um passado no qual teve de lutar para sobreviver à negligência dos pais disfuncionais. Não é à toa que depois de brilhar em O Quarto de Jack e Temporário 12 (do mesmo diretor deste aqui), a atriz volta fazendo o que sabe de melhor: conquistar o público com seu carisma e talento para com o ofício. Não diria que ela é superestimada, pois até os queridinhos Woody Harrelson e Naomi Watts – que nos impressionam tanto em dramas, comédias ou suspenses – desempenharam os seus papeis de maneira convincente, estando seguros em cena e cativando a nossa atenção com suas performances. Por outro lado, no entanto, houve pequenos exageros desnecessários aqui e ali, mas que se aplicam ao contexto da história, uma vez que não estamos falando de pessoas “normais” propriamente ditas.

Além disso, um detalhe que convém citar é que em meio a vários flashbacks, onde presente e passado se interligam curiosamente, lá pela metade do filme – que aliás dura pouco mais de 2 horas – todos os personagens envolvidos têm em mente que precisam acertar as contas com seu passado, através das transições de um tempo para outro. Logo, a obra ainda aponta tanto para o entendimento de um choque de ideais e gerações quanto para questões mais relevantes, como: a solidão, a incomunicabilidade entre as pessoas e o retrato de uma infância de miséria, que, pasmem, passou por assuntos delicados como suposto abuso sexual infantil e acidentes incomuns. E por fim, somos apresentados a concepção da perseguição de sonhos e projetos pessoais, onde o diretor (cujo caráter é integralmente único), procura tratar um pouco sobre todas as famílias e seus respectivos objetivos.

Desse modo, a narrativa é conduzida acompanhando as mais duras experiências de privação, humilhação e exclusão, sem esconder uma ponta de afeto pelas inusitadas justificativas para o desajuste social que seus pais interpretavam como liberdade. Marginais por opção, contraditórios e controvertidos, os Walls são retratados com lirismo, humor e lucidez (ainda que sem nenhum traço sequer de piedade), em uma jornada biográfica que mistura o absurdo e a beleza de forma semelhante com a que foi vista em Capitão Fantástico, ótimo longa lançado ano passado. Por sinal, a trilha sonora não deixa de entreter, e a fotografia também é um ponto positivo a ressaltar, com um enquadramento de plano-sequência em particular de encher os olhos, composto pelo movimento da câmera seguindo o compasso do figurante x, mas sem trocar para outro ângulo. Obs.: este é o momento mais tenso do filme.

Com base nos aspectos mencionados acima, O Castelo de Vidro é uma bela pedida pra quem curte o gênero drama, pois os produtores souberam manter um nível de equilíbrio entre a sobriedade e o descontrole, prestigiando, assim, um drama com atuações consideráveis e uma trama que mesmo sendo meio parada, prende o interesse do espectador a todo o instante. Faltou mais emoção, porém isso não significa que ele seja ruim; está longe disso. Enquanto alguns talvez acabem achando ele fraco, extremamente desagradável e sem quase nenhum valor de entretenimento, o público-alvo (principalmente quem gostou do livro) com certeza há de discordar, advertindo que The Glass Castle até se desvia um pouco do foco no decorrer dos eventos. Contudo, não deixa de ser primoroso e, sobretudo, transmitir um momento de reflexão, que prova que não importa quem ou como a sua família ama, ela vai durar para sempre no coração de todos nós, seres humanos. Indico!

Título Original: The Glass Castle
Direção: Destin Daniel Cretton
Duração: 127 minutos

Nota: 

Assista ao trailer:

Bônus:

O NoSet vai sortear 5 pares de ingressos para o filme, quer participar, compartilhe nossa crítica e click no link do sorteio e boa sorte!

3 Avaliações

3 Comments

  1. Dejanira Rozeni Configurações

    16 de agosto de 2017 em 20:39

    nossa quero muito assistir o Castelo de Vidro, depois de ler a critica , não vejo a hora

    • Eduardo Ben

      Eduardo Ben Configurações

      17 de agosto de 2017 em 14:17

      É isso aí; pode ver sem medo, Dejanira, é bem bom! História lindíssima…heheh

  2. Pingback: Crítica: vale a pena assistir "O Castelo de Vidro"? | Cabine Cultural

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