Crítica: Meu Pai

Às vezes me pergunto qual seria o limite da existência humana? Quando seria o momento em que a máquina do nosso corpo para e nos diz que realmente não dá mais? Quando deixamos de ter aquela vida cheia de planos, ideias, gostos, saudades e memórias para sermos uma mente confusa, fraca e extremamente irritante? Só quem tem alguém ou teve alguma experiência próxima na família de algum caso de Alzheimer ou demência pode mensurar como uma pessoa que tanto amamos pode nos dar tanto trabalho e um sentimento dúbio de amor e raiva que nos faz querer ter poder sobre o destino daquela pessoa. Em 2020, o diretor Florian Zeller, conseguiu de maneira magistral, em um delicado filme tentar mostrar esse drama de um familiar, no caso um pai, com alto grau de demência. Falo sobre o forte Meu Pai (The Father, 2020), que estreia em algumas plataformas de streamings.

A vida de Anthony anda um embaralho geral. Com 81 anos, necessitando de cuidados especiais, sempre acaba dando um jeito de se livrar de suas cuidadoras. Mas dessa vez sua filha Anne precisa sair de Londres para morar em Paris, porque conheceu uma pessoa, para isso ela precisa convencer seu teimoso pai de que ele precisa de alguém de confiança para cuidar dele.

Brilhante e desconcertante filme do dramaturgo francês Florian Zeller, que adaptou sua premiada peça original Le Pere, para os palcos de língua inglesa adaptando-a como The Father. Passo que foi pontapé inicial para passar sua obra pra tela grande com roteiro dele e do britânico Christopher Hampton. A dupla consegue de uma maneira brilhante, fugindo do óbvio do teatro filmado, passar para um filme todas as confusas emoções e o labirinto mental de lembranças de uma pessoa que não tem mais controle sobre sua própria mente e vida. Logicamente que um roteiro tão forte e espinhoso só poderia funcionar de verdade com uma dupla brilhante de atores. Para isso Zeller não economizou esforços. Trouxe uma dupla de oscarizados para interpretar pai e filha. Olivia Colman, vencedora do Oscar de 2018 e Sir Anthony Hopkins, nosso eterno Hannibal Lector. Apenas dois atores do quilate deles poderiam nos proporcionar um espetáculo tão tocante quanto os quase 100 minutos de Meu Pai. Diria que poucas vezes no cinema o drama de um ser humano que perde a sua vida estando vivo e um familiar que se vê, por amor e obrigação, lidar com tamanho problema. Aliás, problema que ninguém sabe lidar.

Olivia está ótima, consegue passar com todo seu talento todas as angústias, dúvidas e dilemas de um filho que tem que doar parte de sua vida para tratar um pai. Um papel difícil, sensível e extremamente cativante. Anthony Hopkins, genial como sempre, talvez tenha feito a atuação de sua vida. Se qualquer outro grande ator tivesse feito o papel do personagem Anthony, com certeza o resultado final teria sido bem diferente. Hopkins literalmente se desnuda de vaidades, interpretando um personagem da sua idade em um assunto tão sério e difícil. Como é raro um ator consagrado por papeis que fez mais novo e extremamente premiado ter essa coragem de, na velhice, mostrar a cara que ela tem e o quanto ela tem pouco glamour e mexe com a vida de muita gente. Simplesmente um papel brilhante e inesquecível do mestre Hopkins, com cenas que já entram para o imaginário da sétima arte devido a gigante atuação.

Além da ótima direção e as excelentes atuações de Hopkins e Colman, o maior mérito do filme é mostrar, dentro do possível, como é a vida do ponto de vista da própria pessoa que sofre demência. As dificuldades do cotidiano, desde as paranoias como um sumiço de um relógio, a falta de percepção de onde se está, a invenção de um mundo à parte, o esquecimento da parte dolorosa da vida, a eterna repetição ou apenas ver num passar de olhos um dia e estar de pijama na hora do jantar sendo que você acha que recém acordou. A própria confusão de apartamentos, ora não sabemos se estamos no apartamento de Anne ou no de Anthony, sendo que o abrir das portas, que parece ser sempre a mesma, mas em diferentes locais, representa um passar da vida e um aprisionamento da mesma, um looping mental, que mesmo abrindo portas, você jamais sai do lugar.

Com justiça Meu Pai foi indicado aos Oscars de melhor filme, melhor ator (Hopkins), atriz coadjuvante (Colman), montagem, design de produção e roteiro adaptado. Meu Pai não é um filme para todo mundo, com certeza quem teve ou tem uma experiência de conviver com alguém da família com esse problema, vai se identificar na hora e terá diferentes emoções ao lidar com o filme. Aliás, ninguém que tenha um coração consegue passar incólume à sensação de assistir esse filme, uma experiência bruta, viva e reflexiva, que tenta através da arte nos passar a fragilidade do ser humano tanto na persona de um ser humano na condição de paciente que se vê debilitado pela sua mente, quanto por quem precisa conviver e viver essa realidade não apenas como filho, mas no papel de um cuidador. No caso, a inversão de papeis da vida, quando o pai, aquele que um dia foi nosso herói, nosso modelo, nosso pilar, se torna  totalmente dependente de  um filho.

Lauro Roth