Crítica: Extraordinário eventualmente pesa a mão no melodrama, mas ainda se sobressai positivamente. - NoSet
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Crítica: Extraordinário eventualmente pesa a mão no melodrama, mas ainda se sobressai positivamente.

Sabe aquele filme que acaba ficando conhecido por ter a capacidade de ser um verdadeiro causador de lágrimas em praticamente qualquer tipo de público? Pois bem, sempre há um mecanismo calculado que faz com que esses filmes acertem os alvos na hora certa. Sabemos que um filme nada mais é que um conjunto de técnicas misturadas a uma boa história destinadas a nos enganar durante aquelas 2 horas de projeção. Não se sinta ofendido! O termo “enganar” aqui não é nocivo. Pelo contrário, é apenas a maneira como nossa mente aceita uma ficção como realidade temporariamente. Por isso tememos por personagens que não existem e nos emocionamos com conflitos que só existem no papel.

A diferença é que há duas maneiras de se fazer isso: um bom diretor consegue te envolver o bastante para que uma narrativa pareça a mais orgânica possível; um não tão bom irá apelar para as convenções mais batidas do gênero e não conseguirá esconder a manipulação fajuta que corre atrás da lágrima fácil. E devo dizer que temi um pouco quando vi o trailer de divulgação de Extraordinário, já que, julgando pela aparência e por uma leve bagagem, achei que estaria diante de um melodrama dos piores.

Sim, há alguns problemas relacionados a uma mão pesada nos clichês (e à dificuldade de confiar completamente em seu público, sobre a qual falarei posteriormente), mas a boa notícia é que o longa tem carisma suficiente para que genuinamente emocione na maior parte do tempo. Isso graças ao elenco e ao acerto no desenvolvimento de outros personagens além do protagonista.

Auggie Pullman (Jacob Tremblay) é um garoto de 10 anos que nasceu com uma grave deformidade no rosto que o brigou a passar por várias cirurgias plásticas ao longo da vida, o que acabou o tornando bastante introvertido. Sua mãe Isabel (Julia Roberts) e seu pai Nate (Owen Wilson) o educam em casa. Mas agora está chegando a hora de Auggie frequentar a escola pela primeira vez, em um ambiente que tem tudo para se revelar uma surpresa, tanto para o lado bom, quanto para o ruim.

É difícil não criar uma expectativa. Tanto pelo elenco e a premissa, quanto pelo fato de ter sido adaptado de um best seller de sucesso pela autora Raquel Jaramillo, sob o pseudônimo de R. J. Palacio. Como ator principal, a escalação recaiu sobre o talentoso Jacob Tremblay (O Quarto de Jack), o que já garante qualidade no protagonismo. E não há com que se decepcionar. Apesar de uma forte maquiagem, o garoto dá conta do recado e não fica atrás quando contracena com atores experientes. Tudo isso ajuda que sua trajetória desperte nossa simpatia, mesmo com a narração em off, que poderia prejudicar e experiência – digo isso porque há uma tendência de se darem diálogos e reflexões cuja profundidade só poderia ser atribuída a um adulto bem vivido. Aqui, do contrário, acompanhamos divagações de uma criança, sem que seja necessário floreá-las para que se recaia um peso desnecessário sobre o personagem.

Mas o grande acerto do filme é mesmo o tempo que reserva para outros personagens, mesmo aqueles que pareciam apenas um dispositivo para alavancar o arco de outros. E aí entra o bom equilíbrio da estrutura narrativa. Num primeiro momento, a inserção de subtramas que se propunham sair daquela principal envolvendo Auggie parecia um tiro no pé, mas Chbosky – que colaborou no roteiro – e seu montador Mark Livolsi conseguem acertar bem a balança entre os diferentes arcos e o timming com que são encaixados. Sendo assim, funcionam bem os conflitos de Via (Izabela Vidovic), irmã de Auggie, o amigo Jack (Noah Jupe) e até a amiga de Via, Miranda (Danielle Russell). Todas elas têm sua importância e acabam complementando o significado que o filme quer passar: personagens enfrentando, cada um, seus problemas particulares e suas aparentes incapacidades de se adaptarem à normalidade.

O objetivo, porém, é realmente emocionar o expectador o máximo de tempo possível, e é aí que o longa começa a caminha em corda bamba. Se há vários momentos em que o talento mirim brilha e a interação com outros personagens soa bastante honesta – principalmente a que envolve os pais de Auggie -, há outros em que a narrativa começa a passar do ponto “de açúcar” na tentativa de manter uma aura melodramática de forma permanente. A trilha sonora por vezes não sabe quando encontrar sua pausa (o pianinho tocando o tempo todo até me irritou um pouquinho) e grande moral do filme começa a ser martelada repetidamente, ainda mais quando entra no 3º ato, quando se estende desnecessariamente em vários finais com o objetivo de ensopar ainda mais o lenço do espectador. Embora os personagens secundários tenham sua importância, o filme tem a tendência de se obrigar a explicar todos os seus pormenores, o que acaba se mostrando desnecessário. Portanto, algumas sequências como, por exemplo, aquela em que os pais de uma criança que pratica bullying são caracterizados como estereótipos (com direito até a roupas completamente pretas) ou quando o roteiro apela para a nossa empatia pelo cachorro da família (quem resiste a isso!?), acabam servindo mais para inflar a duração do filme do que qualquer outra coisa.

Mas apesar disso, como dito anteriormente, Extraordinário ainda se sobressai como um bom drama encabeçado por um time talentoso de atores e um diretor que tem tino para trabalhar com os conflitos da infância e da adolescência – e isso pode ser constatado por um de seus trabalhos anteriores: o excelente As Vantagens de Ser Invisível, adaptado do livro do próprio Chbosky. A mensagem do longa é universal e se revela imune ao tempo, independente de se firmarem através de clichês ou não. Além de ser uma história sobre uma criança com uma deficiência, o filme consegue alcançar um pouco mais quando revela conflitos de todas as idades que são inerentemente compatíveis com qualquer espectador.

Este será, provavelmente, o tipo de obra que vai emocionar o grande público, e se você não está muito preocupado em questionar clichês ou disfarçar seu lado emotivo (bom, alguns são seletivos com seus corações gelados) o filme deve funcionar muito bem.

Afinal, se colocaram muito açúcar, vai do gosto de cada cliente, não é mesmo!?

Nota:

Trailer

Data de lançamento: 07 de dezembro de 2017 (1h 53min)

Direção: Stephen Chbosky

Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovoc, Noah Jupe, Danielle Russell, Sônia Braga

Sinopse: August Pullman é um garotinho que nasceu com uma desordem craniofacial congênita. Pela primeira vez, ele irá frequentar uma escola regular, como qualquer outra criança. No quinto ano, ele irá precisar se esforçar para conseguir se encaixar em sua nova realidade.

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